Na crise do STF, são dez escorpiões numa garrafa
O juiz Oliver Wendell Holmes Jr. (1841-1935) foi um dos juízes mais influentes e longevos da Corte Suprema dos Estados Unidos . Com 30 anos de experiência, ele descreveu o tribunal: "São nove escorpiões numa garrafa". Isso na corte americana. Na brasileira, são 11. (Na crise de hoje, são dez, porque uma cadeira está vazia.) Leia mais (09/12/2026 - 23h00)

Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles "A Ditadura Encurralada"
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

O juiz Oliver Wendell Holmes Jr. (1841-1935) foi um dos juízes mais influentes e longevos da Corte Suprema dos Estados Unidos . Com 30 anos de experiência, ele descreveu o tribunal: "São nove escorpiões numa garrafa". Isso na corte americana. Na brasileira, são 11. (Na crise de hoje, são dez, porque uma cadeira está vazia.)
O Supremo atravessou ditaduras sem maiores crises e, em 2026, meteu-se na maior encalacrada de sua história. Se pudessem ser isolados os atritos produzidos por choques de egos ou surtos de onipotência, sobraria muito pouco da crise. Não há um fiapo de política pública separando Alexandre de Moraes e André Mendonça . Moraes até hoje não explicou sua relação com o então banqueiro Daniel Vorcaro , e Mendonça já chamou Jair Bolsonaro (que o indicou para o STF ) de "profeta".
Para se ter uma ideia do ritual monárquico que enfeita o cotidiano das excelências, os ministros são servidos por funcionários denominados "capinhas", que têm, entre outras funções, a de puxar a cadeira para que eles se sentem ou se levantem. (Um ministro explicou que esse serviço é necessário porque a toga enrosca nas rodinhas da cadeira. Vá lá.)

Indo-se ao histórico dos quatro personagens da crise — Dias Toffoli , Alexandre de Moraes, Flávio Dino e André Mendonça—, vê-se que Toffoli e Moraes entraram no processo do Banco Master preocupados em apagar as luzes da sala. Toffoli sabia que a turma do Master havia comprado parte do resort Tayayá Aquaparque. Destemido, aceitou a relatoria do caso, colocou-o sob sigilo e blindou-o. Deu no que deu.
Moraes sabia o tamanho do ervanário recebido do Master pelo escritório de advocacia de sua mulher. Ainda assim, permitia que Vorcaro lhe pedisse conselhos. Novamente, deu no que deu.
Os ministros tinham motivos para suspeitar que seus desassombros custariam caro às suas biografias e tisnariam a imagem do tribunal. Nenhum deles precisava se expor. Expuseram-se porque se julgaram invulneráveis. Enganaram-se e levaram seus colegas junto.
Se os ministros do Supremo tivessem juízo, eles teriam ouvido a ministra Cármen Lúcia na sessão do dia 12 de fevereiro, quando ela disse: "Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo".
Não eram só os taxistas. Diante de revelações da Polícia Federal em torno da venda de parte do resort Tayayá, o STF deu-se ao ridículo. Solidarizou-se com Toffoli, condenou as revelações e, discretamente, sugeriu que deixasse a relatoria, o que ele fez.
Em uma fala que deverá entrar para a história do Supremo, Dino falou do documento da ligação da Polícia Federal dos familiares de Toffoli com o resort Tayayá: "Essas 200 páginas [de relatório da PF] para mim são um lixo jurídico. Não adianta discutir esse lixo jurídico".
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/eliogaspari/2026/09/as-camas-do-master.shtml
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/eliogaspari/2026/09/na-crise-do-stf-sao-dez-escorpioes-numa-garrafa.shtml.

Obra de recuperação do calçamento da praça dos Três Poderes, em frente ao STF - Pedro Ladeira - 9.set.26/Folhapress · Pedro Ladeira - 9.set.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

