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    Múltiplo Ismael

    Se as exposições permitissem que, ao se admirar um quadro, se pudesse ver também através dele e enxergar o artista, poucas seriam tão surpreendentes quanto "Ismael Nery: Armadilha Moderna" , em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo . É um dos casos agudos em que não se sabe quem é mais fascinante, se a obra ou o autor. O fascínio em Ismael Nery (1900-1934) é a dificuldade de defini-lo, por suas muitas e inesperadas aptidões. Ele era especial em todas. Leia mais (09/12/2026 - 08h00)

    Folha de S.Paulo
    12 de setembro de 2026 às 11:00
    Múltiplo Ismael
    Figura feminina abstrata em tons escuros reclinada sobre fundo bege, contornada por linhas onduladas azuis e amarelas que sugerem movimento ou energia. — Foto: Folha de S.Paulo

    Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, é membro da Academia Brasileira de Letras

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    'Além do feto', 1927, aquarela sobre papel de Ismael Nery - Divulgação · Divulgação
    'Além do feto', 1927, aquarela sobre papel de Ismael Nery - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Se as exposições permitissem que, ao se admirar um quadro, se pudesse ver também através dele e enxergar o artista, poucas seriam tão surpreendentes quanto "Ismael Nery: Armadilha Moderna" , em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo . É um dos casos agudos em que não se sabe quem é mais fascinante, se a obra ou o autor. O fascínio em Ismael Nery (1900-1934) é a dificuldade de defini-lo, por suas muitas e inesperadas aptidões. Ele era especial em todas.

    Saído da Escola Nacional de Belas Artes, do Rio, Ismael passou 1921 em Paris, estudando com Marc Chagall, Joan Miró e André Breton. De volta à sua casa em Botafogo, pintava e desenhava em telas, papelão, papel de pão, pedaços de jornal, tábuas, o que houvesse, e, ao terminar, amassava, rasgava, pintava por cima, jogava fora. O ato de fazer lhe bastava. Sua mulher, Adalgisa, e seu melhor amigo, Murilo, saíam pelo quintal e latas de lixo resgatando esse material sem ele saber. Ismael nunca admitiu vender um quadro —dava-o. Não tinha nada de seu nas paredes.

    Os mais de 200 trabalhos da exposição compõem boa parte do que foi salvo. Prepare-se para cair de costas pela modernidade do que verá. Expressionista, cubista, surrealista? Talvez faltassem ismos para defini-lo. Seu objeto eram homens e mulheres, andróginos, sensuais, a quem ele emprestava seu rosto ou o de Adalgisa, belíssimos, de sedução letal.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Não se sabe quando Ismael tinha tempo para pintar. Era também arquiteto, cenógrafo, figurinista, poeta, matemático, filósofo, teólogo, bailarino clássico, fotógrafo. Amador em tudo isso, mas admirado pelos profissionais de cada categoria, que o ouviam como a um guru. Bispos o tinham em alta conta —um dia, segundo Ismael, a santidade não seria uma exceção. Visitava prisões, hospitais e hospícios, queria conhecer a tristeza humana. Morreu de tuberculose, aos 33 anos —como previra anos antes, ao desenhar seu túmulo e a data.

    Sua mulher se tornaria a escritora e política Adalgisa Nery. Seu melhor amigo, o futuro poeta Murilo Mendes.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2026/09/multiplo-ismael.shtml.

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    'Além do feto', 1927, aquarela sobre papel de Ismael Nery - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo

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