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    Mulheres, indígenas e venezuelanos são atraídos para garimpo com promessa de riqueza fácil

    Um garimpeiro ofereceu um refrigerante a Diana (nome fictício). Ela aceitou. Minutos depois, ele exigiu sexo em troca. Diante da recusa, insistiu. Ela só escapou porque outro homem interveio e mandou que fosse deixada em paz. Leia mais (08/15/2026 - 12h00)

    Folha de S.Paulo
    15 de agosto de 2026 às 15:00
    Mulheres, indígenas e venezuelanos são atraídos para garimpo com promessa de riqueza fácil
    Foto: Folha de S.Paulo

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    Milhares de mulheres, indígenas, migrantes e até menores são encontrados em garimpos pelo país - Pedro Ladeira / Folhapress

    Milhares de mulheres, indígenas, migrantes e até menores são encontrados em garimpos pelo país - Pedro Ladeira / Folhapress · Pedro Ladeira /
    Milhares de mulheres, indígenas, migrantes e até menores são encontrados em garimpos pelo país - Pedro Ladeira / Folhapress · Pedro Ladeira / — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Um garimpeiro ofereceu um refrigerante a Diana (nome fictício). Ela aceitou. Minutos depois, ele exigiu sexo em troca. Diante da recusa, insistiu. Ela só escapou porque outro homem interveio e mandou que fosse deixada em paz.

    O episódio ocorreu em 2017, poucos dias depois de Diana chegar a um garimpo em Roraima em busca de melhores condições de vida. Só mais tarde descobriu que havia sido vítima do que os garimpeiros chamam de "rodar o peão".

    A expressão é usada para descrever mulheres que aceitam um presente ou favor e, depois, recusam uma investida ou se relacionam com outro homem.

    Casa onde garimpeiros ficavam na Terra Indígena Raposa Serra do Sol - Pedro Ladeira/Folhapress · Pedro Ladeira/Folhapress
    Casa onde garimpeiros ficavam na Terra Indígena Raposa Serra do Sol - Pedro Ladeira/Folhapress · Pedro Ladeira/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Segundo Diana, a situação frequentemente termina em violência. Ela afirma ter presenciado mais de dez assassinatos de mulheres por esse motivo em diferentes garimpos pelos quais já passou em cinco anos.

    "Os homens não aceitam um 'não'. Acham que toda mulher que está ali, sem um companheiro, foi para vender o corpo", diz. Ela e outras pessoas entrevistadas pela Folha pediram para não ter seus nomes verdadeiros divulgados por temerem represálias.

    Diana diz que se casou no ano seguinte para conseguir evitar o assédio. Também passou a usar roupas largas. O medo, porém, nunca desapareceu.

    Garimpos têm presença de facções e milícias pelo país
    Garimpos têm presença de facções e milícias pelo país — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O relato de Diana está longe de ser exceção. Mulheres, indígenas, migrantes e até adolescentes são encontrados em garimpos ilegais, inseridos em uma engrenagem marcada por doenças, exploração sexual, endividamento, violência e pela presença crescente do crime organizado .

    A antropóloga Dalila Dantas Simões afirma que o garimpo é marcado por relações de poder desiguais e que mulheres, principalmente as solteiras, estão mais expostas a assédio, violência e coerção.

    Como tem mostrado a série A Nova Rota do Ouro, o garimpo ilegal se expandiu durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). Em 2020, os novos alertas identificados por monitoramento de satélite de garimpo somaram 5.473 hectares. No ano seguinte, a área saltou para 23.967 hectares.

    Pessoas ficam endividadas dentro do garimpo e não conseguem sair; lista foi obtida em operação para resgatar pessoas em garimpo - Reprodução · Reprodução
    Pessoas ficam endividadas dentro do garimpo e não conseguem sair; lista foi obtida em operação para resgatar pessoas em garimpo - Reprodução · Reprodução — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Série de reportagens mostra o cenário do garimpo ilegal no Brasil, a infiltração do crime organizado no setor, os desvios do metal para o exterior e as vítimas exploradas na mineração clandestina

    Desde 2023, a gestão Lula (PT) intensificou as operações de combate à atividade em determinadas regiões, como na Terra Indígena Yanomami. Mais de 9.000 operações no território e em seu entorno contribuíram para uma redução de 99% nas áreas de garimpo ilegal.

    Naquele ano, os novos alertas somaram 14.115 hectares, uma queda de 41,11% em relação a 2022, ano com maior número de novos alertas do governo Bolsonaro. Os dados, no entanto, indicam que o garimpo também mudou de rota, avançando sobre áreas com menor presença da fiscalização.

    Venezuelano contraiu malária 15 vezes enquanto esteve no garimpo. Ele tenta voltar à atividade - Pedro Ladeira/Folhapress · Pedro Ladeira/Folhapress
    Venezuelano contraiu malária 15 vezes enquanto esteve no garimpo. Ele tenta voltar à atividade - Pedro Ladeira/Folhapress · Pedro Ladeira/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Larissa (nome fictício) trabalhou como cozinheira em garimpos na Venezuela, Guiana, Colômbia e Brasil . Atuou tanto nas pistas, centros de apoio logístico que recebem suprimentos por avião, quanto nas máquinas, onde o ouro é extraído em condições muito mais precárias.

    Ela afirma que mulheres jovens consideradas bonitas pelos garimpeiros têm mais dificuldade para conseguir trabalho porque as esposas dos garimpeiros preferem contratar mulheres mais velhas. Segundo Larissa, mulheres casadas costumam ser respeitadas, enquanto solteiras podem se tornar alvo de disputas que terminam em agressões, tiroteios e assassinatos.

    Estudo do Instituto Igarapé mostra que parte dos homicídios na amazônia se concentra em áreas de garimpo. Em Japurá (AM), do início de 2020 a junho de 2025, das 12 mortes registradas, ao menos 9 tiveram ligação com a pirataria fluvial e o garimpo.

    No garimpo em Sararé aviso diz que falta injustificada terá cobrança em ouro - Reprodução · Reprodução
    No garimpo em Sararé aviso diz que falta injustificada terá cobrança em ouro - Reprodução · Reprodução — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "A chegada de facções como o PCC e o Comando Vermelho agravou a situação. A ampla circulação de armas de fogo, a ausência do Estado e o consumo de álcool e drogas criam um cenário em que conflitos são resolvidos pela força", afirma Melina Risso, diretora de pesquisa do instituto.

    As pessoas entrevistadas pela reportagem disseram ter presenciado diferentes casos de violência: mulheres assassinadas por recusarem investidas de homens, mortes por dívidas, por suspeita de colaboração com a polícia e até por "brincadeiras" com armas de fogo. Também relatam corpos enterrados no próprio garimpo ou abandonados às margens de rios e estradas.

    Em áreas remotas da amazônia, onde a presença do Estado é limitada, os garimpos se transformam em pequenos polos econômicos. Ao redor das áreas de extração surgem bares, hospedagens, comércio e prostíbulos, frequentados por trabalhadores, atravessadores, comerciantes, integrantes de facções e foragidos da Justiça.

    Silhueta de mulher sentada em ambiente interno escuro, com mesa coberta por toalha vermelha e utensílios ao fundo. Luz natural entra por porta aberta, revelando parede de tijolos e roupas penduradas para secar.
    Silhueta de mulher sentada em ambiente interno escuro, com mesa coberta por toalha vermelha e utensílios ao fundo. Luz natural entra por porta aberta, revelando parede de tijolos e roupas penduradas para secar. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nesses locais, o ouro funciona como moeda para comprar alimentos, combustível, bebidas, drogas e programas sexuais. Segundo relatos, um encontro custava cerca de três gramas de ouro; passar a noite com uma mulher, até cinco gramas.

    Parte dos trabalhadores chega atraída pela promessa de enriquecimento rápido. Para Rodrigo Chagas, professor da Universidade Federal de Roraima, para muitas pessoas o garimpo deixou de ser uma atividade temporária e passou a ser um modo de vida.

    Outra parte dos trabalhadores nesses locais é vítima de tráfico de pessoas, segundo o Ministério Público do Trabalho.

    Quatro agentes da Polícia Rodoviária Federal em uniforme tático se aproximam e entram em uma casa de alvenaria inacabada em área rural com vegetação ao fundo.
    Quatro agentes da Polícia Rodoviária Federal em uniforme tático se aproximam e entram em uma casa de alvenaria inacabada em área rural com vegetação ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na prática, quase tudo custa mais caro do que nas cidades. Como os pagamentos são feitos em ouro, muitos terminam a temporada endividados, presos a um sistema de dependência econômica.

    Para o procurador Eduardo Serra, esses trabalhadores costumam ser vítimas da cadeia de exploração do garimpo. Segundo ele, as investigações buscam responsabilizar os financiadores, donos de máquinas, proprietários de aeronaves, intermediários e compradores de ouro.

    Foi o que aconteceu com o venezuelano Manoel (nome fictício). Há oito anos, ele deixou o país devido à crise econômica, chegou a dormir nas ruas e encontrou no garimpo uma alternativa para sobreviver.

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    Trabalhando como garimpeiro, começava a jornada às 3h30 e encerrava por volta das 18h. Contraiu malária 15 vezes e, mesmo debilitado, voltava ao trabalho para enviar ouro à família. Do total extraído, 70% ficava com o dono da máquina.

    "A gente vai e não sabe se volta", disse, ao lembrar-se de um amigo que morreu soterrado após o desabamento de um barranco de três metros.

    Recentemente, Manoel tentou trabalhar em um garimpo na Guiana. A viagem terminou antes de chegar ao destino: o caminhão em que seguia tombou e ele voltou ferido a Boa Vista (RR), onde vive com a esposa e o filho em um barraco de tábuas com apenas um cômodo.

    Silhueta de homem usando boné sentado no banco dianteiro de um carro. Janela ao lado mostra gotas de chuva e muro de tijolos ao fundo sob céu nublado.
    Silhueta de homem usando boné sentado no banco dianteiro de um carro. Janela ao lado mostra gotas de chuva e muro de tijolos ao fundo sob céu nublado. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Os indígenas também estão entre os grupos mais afetados, apesar de alguns serem favoráveis à exploração.

    Além de serem recrutados como mão de obra barata, convivem com o aumento do consumo de álcool e drogas, a contaminação por mercúrio, a disseminação de doenças e a desestruturação das comunidades.

    "Isso tem provocado uma migração forçada de indígenas para as cidades", afirma Redson Rodrigo, defensor regional de Direitos Humanos em Roraima.

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    Mega da Virada: quais as chances de ganhar e outras 7 perguntas sobre sorteio com prêmio recorde Fotografia colorida mostra mão apostando na mega sena Prêmio da mega da virada não acumula Importado Automaticamente de: https://www.bbc.c — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/08/mulheres-indigenas-e-venezuelanos-sao-atraidos-para-garimpo-com-promessa-de-riqueza-facil.shtml.

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