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    Muito antes da Times Square, EUA influenciam urbanismo de São Paulo há quase um século

    A implantação de uma "Times Square" em São Paulo continua incerta após outro recurso ser negado pela Justiça. Mais do que uma iniciativa pontual, a proposta remete a um histórico mais amplo da trajetória da cidade, de projetos urbanos inspirados e influenciados pelos Estados Unidos. Leia mais (10/04/2026 - 13h00)

    Folha de S.Paulo
    4 de outubro de 2026 às 16:00
    Muito antes da Times Square, EUA influenciam urbanismo de São Paulo há quase um século
    Vista aérea do centro de São Paulo mostrando prédios altos de estilos arquitetônicos variados, incluindo edifícios históricos e modernos. O céu está nublado e uma rua arborizada é visível entre os prédios. — Foto: Folha de S.Paulo

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    A implantação de uma "Times Square" em São Paulo continua incerta após outro recurso ser negado pela Justiça. Mais do que uma iniciativa pontual, a proposta remete a um histórico mais amplo da trajetória da cidade, de projetos urbanos inspirados e influenciados pelos Estados Unidos.

    Vista dos edifícios Banco do Brasil, Altino Arantes (atual Farol Santander) e Martinelli; arranha-céus são exemplo da influência dos Estados Unidos na transformação de São Paulo - Eduardo Knapp - 19.jan.2026/Folhapress · Eduardo Knapp - 19.
    Vista dos edifícios Banco do Brasil, Altino Arantes (atual Farol Santander) e Martinelli; arranha-céus são exemplo da influência dos Estados Unidos na transformação de São Paulo - Eduardo Knapp - 19.jan.2026/Folhapress · Eduardo Knapp - 19. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Das marginais aos arranha-céus do centro antigo, da canalização dos cursos d’água ao shopping center, o modelo norte-americano é evidente até hoje. E não só como referência para gestores públicos e a iniciativa privada, mas também "exportado" de forma mais direta.

    O principal exemplo remete aos anos 1950, quando uma empresa do grupo Rockefeller foi contratada pela prefeitura. A companhia enviou a São Paulo Robert Moses, um dos mais influentes nomes da transformação de Nova York , conhecido pela defesa das vias expressas.

    O resultado da visita foi a entrega do Programa de Melhoramentos , ligado a uma série de medidas tomadas por diferentes prefeitos paulistanos ao longo de anos. Entre elas, a urbanização das várzeas do rio Tietê, a expansão de viadutos e a abertura de vias expressas .

    Robert Moses, renomado urbanista de Nova York influenciou projetos em SP; veja registros históricos
    Robert Moses, renomado urbanista de Nova York influenciou projetos em SP; veja registros históricos — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O norte-americano voltou outras vezes à capital paulista, em viagens amplamente acompanhadas pela imprensa. À época, a Folha da Manhã chegou a descrevê-lo como "uma das maiores autoridades do mundo em urbanismo" (veja na galeria abaixo).

    A influência avançou especialmente no pós-guerra, de acordo com pesquisadores, quando os EUA estavam consolidados como superpotência. Adaptar a experiência norte-americana era, portanto, uma forma de São Paulo se projetar em meio à disputa de influência com o Rio de Janeiro, então capital.

    Foi nessa época que o edifício Altino Arantes (hoje Farol Santander) se tornou o maior arranha-céu do país. A inauguração oficial foi em 1947.

    Vista aérea do Parque Dom Pedro II; viadutos, canalização de rios e vias expressas são exemplos do 'rodoviarismo' de São Paulo - Eduardo Knapp - 06.jan.2026/Folhapress · Eduardo Knapp - 06.jan.2026/Folhapress
    Vista aérea do Parque Dom Pedro II; viadutos, canalização de rios e vias expressas são exemplos do 'rodoviarismo' de São Paulo - Eduardo Knapp - 06.jan.2026/Folhapress · Eduardo Knapp - 06.jan.2026/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O prédio —inspirado no Empire State— está entre as construções do centro velho com estilo art déco, como as sedes do Banco de São Paulo e do Banco do Brasil. Em alta em Nova York nos anos 1920 e 1930, essa estética é marcada pelas linhas retas, sem tanta ornamentação quanto os edifícios anteriores, de influência europeia.

    Nova York é a referência mais costumeira, mas não só: bondes teriam chegado a circular com o slogan "São Paulo, a Chicago da América do Sul", emulando o rápido crescimento da metrópole norte-americana. Comparações com Detroit também ocorriam.

    Professora aposentada do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora de planejamento urbano, Sarah Feldman aponta que a própria Lei de Zoneamento foi concebida nos moldes norte-americanos, a partir de 1947. Isso porque "buscava garantir o valor econômico das propriedades", enquanto a experiência alemã na área tinha viés mais social.

    Trânsito na marginal Tietê; vias expressas e ocupação da várzea do rio foram defendidas em plano de urbanista norte-americano - Danilo Verpa - 12.mai.2025/Folhapress · Danilo Verpa - 12.mai.2025/Folhapress
    Trânsito na marginal Tietê; vias expressas e ocupação da várzea do rio foram defendidas em plano de urbanista norte-americano - Danilo Verpa - 12.mai.2025/Folhapress · Danilo Verpa - 12.mai.2025/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A pesquisadora pondera, contudo, que essas referências por vezes passam por adaptações abrasileiradas. O exemplo é o da própria Times Square. O projeto paulistano é focado especialmente nos telões , e não em outras iniciativas daquele local, como o fortalecimento dos teatros e dos cinemas e a restrição a carros em parte das quadras.

    Pesquisadora da influência norte-americana na transformação de São Paulo em metrópole, Ana Elena Salvi conta que a arquitetura e o urbanismo eram parte do peso cultural dos EUA na América Latina. Mais do que isso, eram uma forma de exportar um modo de vida americanizado, atendendo interesses políticos e econômicos.

    "A influência no próprio urbanismo, no desenho de cidade... Deixou muito rastro", diz Salvi, também coordenadora-geral de Arquitetura e Urbanismo e Design de Interiores da Unip (Universidade Paulista). Ela pondera que parte dos conceitos importados já vinham sendo realizados ou estudados de maneira independente, como a retificação e o enterramento de rios, por exemplo.

    Baixo do elevado Presidente João Goulart, o Minhocão; obra é outro exemplo de desenvolvimento 'rodoviarista' - Zanone Fraissat - 23.fev.2026/Folhapress · Zanone Fraissat - 23.fev.2026/Folhapress
    Baixo do elevado Presidente João Goulart, o Minhocão; obra é outro exemplo de desenvolvimento 'rodoviarista' - Zanone Fraissat - 23.fev.2026/Folhapress · Zanone Fraissat - 23.fev.2026/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Com pós-doutorado em andamento voltado aos projetos de Robert Moses na América Latina, o historiador Bruno Zorek aponta que as comparações de São Paulo com os Estados Unidos ocorreram em meio a uma rápida transformação. Ele menciona textos do sociólogo Florestan Fernandes da década de 1950, que, com cinco anos de diferença, passou de comparações com Manchester para Chicago, Detroit e Nova York.

    O pesquisador considera que a influência perdurou especialmente até os anos 1970, quando a maior metrópole norte-americana passou a ser associada à violência e a problemas sociais. A situação foi revertida somente no fim do século 20 e início do século 21, por meio de iniciativas públicas variadas.

    O planejamento urbano paulistano voltado ao transporte sobre rodas também está relacionado à inspiração norte-americana. Por décadas, entendeu-se que avenidas, ruas e estradas permitiam maior flexibilidade nos trajetos do que o transporte sobre trilhos.

    Centro de São Paulo visto de cima, com árvores densas e prédios históricos ao redor. Trânsito intenso de veículos na rua ao lado do parque e viaduto curvo em primeiro plano. Rio visível à direita, com céu nublado ao fundo.
    Centro de São Paulo visto de cima, com árvores densas e prédios históricos ao redor. Trânsito intenso de veículos na rua ao lado do parque e viaduto curvo em primeiro plano. Rio visível à direita, com céu nublado ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A urbanista Nadia Somekh, professora emérita da Mackenzie e referência nos estudos de verticalização, associa ainda esse rodoviarismo ao avanço da indústria automobilística no país. "É uma cidade desenhada para os carros", resume.

    O maior exemplo nesse campo é o Plano de Avenidas, implantado em parte pela gestão Prestes Maia, a partir do fim da década de 1930. "Se falava que governar era abrir estradas", diz Renato Leão, professor de história urbana na Universidade Estadual de Maringá.

    "Os EUA passaram a ter mais influência [do que o Reino Unido], maior soft power, com a Política da Boa Vizinhança", afirma. Ele se refere aos anos 1930 e 1940, período de ações de diplomacia, aproximação cultural e cooperação econômica capitaneadas pelo presidente Franklin Roosevelt.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Até mesmo o shopping center advém em parte do modelo de "cidade para carros" exportado: um centro de comércio climatizado e com amplos estacionamentos.

    Os chamados "condomínios-clube" também são apontados como uma referência adaptada dos EUA. Por vezes murados e com lazer interno, são isolados do movimento da rua, em modelo distinto do consolidado em grandes cidades europeias.

    Hoje, a influência norte-americana continua, mas mais pulverizada. Para os pesquisadores, as referências urbanísticas são mais globalizadas, advindas de países variados, como a China (com as "cidades esponja") e a França ("cidade de 15 minutos").

    Pessoa com mochila caminha pela ciclovia sob um viaduto urbano. À direita, ônibus está parado na via adjacente. Prédios residenciais e comerciais com grafites aparecem ao fundo.
    Pessoa com mochila caminha pela ciclovia sob um viaduto urbano. À direita, ônibus está parado na via adjacente. Prédios residenciais e comerciais com grafites aparecem ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Trilili Urna Eletrônica
    Trilili Urna Eletrônica — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/10/muito-antes-da-times-square-eua-influenciam-urbanismo-de-sao-paulo-ha-quase-um-seculo.shtml.

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