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    Mudanças no clima ampliam risco de arboviroses em várias regiões do Brasil

    Por trás do avanço de algumas doenças infecciosas há uma mudança que muitas vezes passa despercebida: o clima. À medida que as temperaturas sobem, chuvas se tornam mais irregulares e áreas desmatadas aumentam, também mudam as condições ambientais em que vivem mosquitos e outros transmissores de doenças. Leia mais (09/09/2026 - 15h00)

    Folha de S.Paulo
    9 de setembro de 2026 às 18:00
    Mudanças no clima ampliam risco de arboviroses em várias regiões do Brasil
    Mosquito com corpo escuro e pernas longas sobre fundo branco uniforme, em close que destaca detalhes das asas e antenas. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Por trás do avanço de algumas doenças infecciosas há uma mudança que muitas vezes passa despercebida: o clima. À medida que as temperaturas sobem, chuvas se tornam mais irregulares e áreas desmatadas aumentam, também mudam as condições ambientais em que vivem mosquitos e outros transmissores de doenças.

    Mosquito Aedes aegypti, transmissor dos vírus da dengue, Zika, chikungunya e da febre amarela urbana - Rodolfo Buhrer/Reuters · Rodolfo Buhrer/Reuters
    Mosquito Aedes aegypti, transmissor dos vírus da dengue, Zika, chikungunya e da febre amarela urbana - Rodolfo Buhrer/Reuters · Rodolfo Buhrer/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Um dos resultados desse desequilíbrio é a alteração do mapa de circulação de vírus, com doenças que antes estavam concentradas em determinadas regiões, encontrando condições favoráveis para chegar a novos territórios.

    No Brasil, o fenômeno ganha importância porque o país já reúne uma grande variedade de insetos capazes de transmitir arbovírus, como mosquitos e carrapatos. Dengue , zika e chikungunya são alguns exemplos mais conhecidos, mas outros menos comuns também estão no radar da vigilância epidemiológica, como oropouche, mayaro e, mais recentemente, o vírus do Nilo Ocidental.

    Em agosto de 2026, São Paulo confirmou os dois primeiros casos humanos de febre do Nilo Ocidental do estado, em pacientes de Ribeirão Preto e São José do Rio Preto, ambas cidades no interior. Santa Catarina também confirmou dois casos e registrou a morte de uma mulher de 77 anos pela doença. Um caso da doença segue em investigação no Piauí.

    Mosquito é modificado com bactéria para combater dengue
    Mosquito é modificado com bactéria para combater dengue — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "O clima interfere diretamente na ecologia das doenças que são transmitidas por vetores, que normalmente são mosquitos. Esses organismos chamamos de ectotérmicos, então a temperatura, umidade e disponibilidade de água vão influenciar o seu desenvolvimento, a reprodução, sobrevivência e distribuição geográfica", explica Álvaro Madeira Neto, médico sanitarista e gestor em saúde .

    No caso do Aedes aegypti , transmissor de dengue, zika e chikungunya no Brasil, a combinação entre temperaturas elevadas e alterações no padrão das chuvas ajuda a criar condições favoráveis à reprodução do mosquito.

    O Ministério da Saúde destaca justamente o aumento da temperatura e as mudanças nos padrões de precipitação entre os fatores relacionados à disseminação do Aedes pelo território nacional.

    Paciente conta como foi ter dengue grave
    Paciente conta como foi ter dengue grave — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Quando a temperatura sobe de um nível frio para uma faixa favorável, várias coisas podem acontecer simultaneamente. As larvas podem se desenvolver mais rapidamente, o mosquito pode atingir a fase adulta em menos tempo, o ciclo entre uma postura de ovos e outra pode encurtar e a frequência de alimentação pode aumentar", explica Marielena Vogel Saivish, pesquisadora na University of Texas Medical Branch.

    Ao mesmo tempo, quando uma fêmea pica uma pessoa ou um animal infectado, o vírus não é transmitido imediatamente na próxima picada. Ele precisa de um tempo para se multiplicar e se disseminar pelo organismo do vetor, chegar às glândulas salivares, e só depois disso o mosquito passa a ser capaz de transmitir aquele vírus. Esse intervalo é o chamado período de incubação extrínseca, e também pode ser alterado devido às condições climáticas.

    "Em temperaturas adequadamente mais altas esse intervalo fica mais curto e isso pode fazer uma diferença epidemiológica enorme. Se um mosquito vive três semanas e o vírus precisa de quase três semanas para alcançar as glândulas salivares, poucas fêmeas conseguirão transmiti-lo. Se as condições ambientais fazem esse processo ocorrer muito mais rapidamente, uma proporção maior da população de mosquitos pode viver tempo suficiente para se tornar infectante", acrescenta a pesquisadora.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O efeito das mudanças climáticas, no entanto, não é igual em todas as regiões brasileiras devido à diversidade de biomas e às características regionais.

    Na Amazônia, por exemplo, o cenário envolve uma combinação de floresta, biodiversidade, rios, alterações no uso do solo, circulação de animais silvestres e presença de diferentes vetores. É também a região historicamente associada à circulação de vírus como oropouche e mayaro.

    "Na Amazônia, já existe uma grande diversidade de vírus, vetores e animais que participam de ciclos de transmissão. Desmatamento, abertura de estradas, mineração e ocupação de novas áreas podem aumentar o contato entre seres humanos e esses ciclos silvestres", diz Fernando Silveira, infectologista da Secretaria de Saúde do DF (SES-DF) e do Hospital Brasília.

    No Nordeste, o calor e a irregularidade das chuvas podem modificar as condições para a presença de mosquitos, mas a realidade varia muito entre áreas urbanas, semiáridas e regiões costeiras. Em locais onde a população precisa armazenar água durante períodos de escassez, por exemplo, o abastecimento pode se tornar parte da equação epidemiológica.

    Já no Centro-Oeste, a combinação entre altas temperaturas, expansão urbana, áreas rurais e circulação de pessoas e animais cria outro cenário. A região também funciona como uma espécie de ponte entre diferentes ambientes ecológicos, o que a torna um importante corredor para vírus que circulam entre áreas silvestres, rurais e urbanas.

    E no Sul e Sudeste, o aumento das temperaturas pode favorecer a presença ou ampliar a janela de atividade de alguns vetores em áreas que anteriormente apresentavam condições menos favoráveis.

    "No Sudeste, a grande densidade populacional e a intensa circulação de pessoas favorecem a rápida disseminação de um vírus depois que ele é introduzido. Já no Sul, as temperaturas mais baixas limitavam historicamente a atividade de alguns vetores durante parte do ano; agora, com temperaturas médias mais elevadas, essa janela de transmissão pode aumentar", acrescenta Silveira.

    A circulação de um vírus em uma nova área pode ocorrer por diferentes caminhos. Pessoas infectadas podem viajar, animais podem transportar agentes infecciosos e mosquitos ou outros vetores podem expandir naturalmente sua área de ocorrência.

    No caso das arboviroses, porém, existe uma condição fundamental: não basta o vírus chegar, é preciso encontrar um ambiente capaz de sustentar sua transmissão.

    Imagine uma pessoa infectada chegando a uma cidade onde não existe um vetor capaz de transmitir aquele vírus. A cadeia será interrompida, mas se o vírus chega a uma região onde existe o mosquito adequado, há condições ambientais favoráveis e contato suficiente entre vetor, hospedeiros e população, o cenário muda.

    Por isso, a relação entre clima e doenças infecciosas é mais complexa do que imaginamos. Uma sequência de chuvas pode criar recipientes com água parada, aumentando os locais disponíveis para a reprodução do mosquito Aedes aegypti, por exemplo.

    Em seguida, um período quente pode acelerar o desenvolvimento das larvas e do próprio mosquito. Já uma seca prolongada pode reduzir alguns criadouros naturais, mas também pode fazer com que a população armazene água em recipientes domésticos, criando novos ambientes para o inseto.

    Eventos extremos também podem ter efeitos diferentes. Enchentes, por exemplo, podem provocar deslocamentos populacionais, destruir sistemas de abastecimento e saneamento e aumentar a exposição a diferentes agentes infecciosos.

    Por isso, o risco epidemiológico não depende apenas do clima. Urbanização acelerada, ocupação desordenada do território, falta de saneamento básico, armazenamento inadequado de água, circulação de pessoas e animais e desmatamento podem atuar junto às alterações climáticas.

    "Não devemos pensar em clima, desmatamento, urbanização e saneamento como causas separadas. Eles interagem. Uma epidemia é o resultado de uma rede de condições", pontua Saivish.

    A principal preocupação para os próximos anos não é necessariamente o surgimento de um novo vírus, mas sim a combinação de fatores que pode permitir que vírus já existentes se estabeleçam em lugares diferentes ou permaneçam ativos durante períodos maiores.

    Isso significa que o Brasil pode enfrentar um cenário em que doenças conhecidas apresentem comportamento menos previsível e outras, até então restritas a determinadas regiões, se espalhem.

    Também pode haver mudanças na sazonalidade. A dengue, por exemplo, tradicionalmente apresenta aumento de casos em períodos mais quentes e chuvosos, mas alterações no clima podem modificar a duração e a intensidade dessas condições.

    Além disso, a coexistência de muitos arbovírus cria um problema concreto para o sistema de saúde, como dificuldade em relação ao diagnóstico e sobrecarga assistencial.

    "Quando um vírus ou uma linhagem chega a uma população com pouca imunidade prévia, ele encontra um contingente muito maior de pessoas suscetíveis. Mesmo que a maioria dos casos seja leve, uma abundância de pessoas procurando atendimento em um intervalo curto pode pressionar unidades básicas, emergências, laboratórios e hospitais", acrescenta Saivish.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/09/mudancas-no-clima-ampliam-risco-de-arboviroses-em-varias-regioes-do-brasil.shtml.

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    Mosquito Aedes aegypti, transmissor dos vírus da dengue, Zika, chikungunya e da febre amarela urbana - Rodolfo Buhrer/Reuters · Rodolfo Buhrer/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

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