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    MPF no Acre recomenda revisão legal da ayahuasca

    O Ministério Público Federal (MPF) do Acre determinou à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e ao Conad (Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas) criar grupos de trabalho sobre a regulamentação da ayahuasca e de suas substâncias psicoativas, em particular a dimetiltriptamina (DMT), para uma revisão completa. Ou quase completa. Leia mais (09/10/2026 - 10h00)

    Folha de S.Paulo
    10 de setembro de 2026 às 13:00
    MPF no Acre recomenda revisão legal da ayahuasca
    Mulher negra usando óculos, turbante cinza e blusa branca segura uma taça com bebida alaranjada, sorrindo para a câmera. Ao fundo, ambiente interno com escada branca e objetos decorativos desfocados. — Foto: Folha de S.Paulo

    Marcelo Leite relata novidades da fronteira da pesquisa em saúde mental

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    Líder do Centro Espírita Sete Pedreiras, Madrinha Natalina Borges Trincado segura taça de daime (ayahuasca) - Fabio Braga//Folha Imagem/2010 · Fabio Braga//Folha Imagem/2010
    Líder do Centro Espírita Sete Pedreiras, Madrinha Natalina Borges Trincado segura taça de daime (ayahuasca) - Fabio Braga//Folha Imagem/2010 · Fabio Braga//Folha Imagem/2010 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O Ministério Público Federal (MPF) do Acre determinou à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e ao Conad (Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas) criar grupos de trabalho sobre a regulamentação da ayahuasca e de suas substâncias psicoativas, em particular a dimetiltriptamina (DMT), para uma revisão completa. Ou quase completa.

    São 30 dias de prazo para a agência sanitária pronunciar-se sobre a criação do GT. Uma vez instalado, o grupo teria dois anos para submeter uma proposta.

    A DMT figura na lista de substâncias proibidas da Anvisa desde 1998. No entanto, o uso religioso da beberagem tornou-se definitivamente legal em 2010, com a resolução nº 1 do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad) . Foi vitória de igrejas ayahuasqueiras, como a pioneira Santo Daime, surgida no Acre nos idos de 1930.

    Ritual da Lua Cheia conduzido pelo pajé juremeiro Isaias Marculino, o Guarapirá (de cocar, à esq.), na Terra Indígena Potiguara (PB) - Claudia Kober /Folhapress/2023 · Claudia Kober /Folhapress/2023
    Ritual da Lua Cheia conduzido pelo pajé juremeiro Isaias Marculino, o Guarapirá (de cocar, à esq.), na Terra Indígena Potiguara (PB) - Claudia Kober /Folhapress/2023 · Claudia Kober /Folhapress/2023 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A resolução de 2010 ignorava o uso indígena ancestral da bebida obtida das folhas da chacrona ( Psychotria viridis ) e do lenho do cipó-mariri, ou jagube ( Banisteriopsis caapi ). Famílias indígenas ainda hoje recorrem a CNPJs de igrejas para usar legalmente sua medicina sagrada, paradoxo denunciado pela artista plástica Daiara Tukano citado na recomendação do MPF-AC.

    A omissão se corrige agora com a exigência de que Anvisa e Conad, ao compor os GTs, incluam representações de povos indígenas da Amazônia Ocidental, onde a ayahuasca tem emprego por dezenas de etnias. Um primeiro passo para a retomada do protagonismo indígena sobre a bebida, tal como reivindicado na 5ª Conferência Indígena da Ayahuasca de 2025, onde se lançou a semente do Fórum Mundial da Ayahuasca que começa nesta sexta-feira (11) em Girona (Espanha).

    O MPF recomenda à Anvisa "tratar da regulamentação do DMT nas modalidades de uso religioso, espiritual e terapêutico por comunidades tradicionais, religiões e grupos ayahuasqueiros, com a finalidade de atualizar o regramento do DMT nas listas de substâncias psicotrópicas previstas na portaria SVS/MS n. 344/1998 ".

    Oito pessoas indígenas vestem saias de palha e cocares coloridos em área externa com árvores ao fundo. Algumas seguram maracás e uma mulher usa colar e flores no cabelo.
    Oito pessoas indígenas vestem saias de palha e cocares coloridos em área externa com árvores ao fundo. Algumas seguram maracás e uma mulher usa colar e flores no cabelo. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Dezesseis anos após a resolução nº 1 do Conad, indígenas e ayahuasqueiros não indígenas ainda correm risco de abordagens policiais pela posse da bebida. O objetivo seria reduzir a insegurança jurídica e o arbítrio de agentes da lei (embora pareça improvável a sugestão do juiz federal Jair Araújo Facundes ao MPF-AC para que o DMT seja excluído da lista de substâncias psicotrópicas da portaria de 1998).

    Chama atenção, nas presentes recomendações do MPF, a ausência de menção à jurema-preta ( Mimosa tenuiflora ), planta da caatinga que contém a mesma DMT e é usada por outros povos indígenas, só que do Nordeste. Eles enfrentam os mesmos riscos dos parentes da Amazônia e reivindicam o reconhecimento do direito de consagrar o vinho da jurema sem importunação policial.

    Outra omissão se refere aos estudos sobre o potencial antidepressivo da DMT, da ayahuasca e da jurema-preta , ramo da ciência psicodélica em que instituições nacionais figuram entre líderes mundiais . As recomendações do MPF até mencionam uso terapêutico, mas só no contexto de comunidades tradicionais ayahuasqueiras, não no da prática clínica que está por vir.

    Essa constitui hoje a fronteira de inovação em saúde mental na qual o Brasil reúne condições para desenvolver um modelo ímpar de terapia psicodélica para depressão e estresse pós-traumático , entre outros transtornos, reunindo o conhecimento indígena sobre o uso da DMT com a experiência comunitária dos Caps, um sistema universal como o SUS e a melhor ciência acadêmica local.

    Luís Fernando Tófoli, psiquiatra e professor da Unicamp que representa a Sociedade Brasileira para o Progresso na Ciência no Conad, considera propícia a iniciativa do MPF: "Sempre houve participação relevante de acadêmicos e pesquisadores e das três principais religiões ayahuasqueiras nessa conversa, mas é necessário admitir que vinha acontecendo um certo silenciamento dos povos indígenas".

    Ele assinala ainda que também houve denúncias de abusos e descuidos em grupos ayahuasqueiros: "Embora relativamente esporádicas, demandam repensar as regras atuais para garantir o bem-estar de seus frequentadores".

    O psiquiatra avalia que se abre uma oportunidade para tornar a legislação brasileira ainda mais inovadora, transformadora, segura e internacionalmente exemplar. Com uma ressalva:

    "É notável que os documentos do MPF não mencionem outros usos de DMT por comunidades indígenas, por exemplo [os rapés] yãkoana ou paricá , assim como a jurema , esta última importante para as comunidades indígenas do Nordeste brasileiro, assim como para os grupos religiosos de Catimbó Jurema e outras religiões que utilizam essa bebida".

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/virada-psicodelica/2026/09/mpf-no-acre-recomenda-revisao-legal-da-ayahuasca.shtml.

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