MP requisita investigação sobre uso de batalhão do CBMDF por Legendários
Inquérito deve apurar cessão do Centro de Treinamento Operacional, emprego de militares, uso de GSV e eventual utilização de recurso público

O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios ( MPDFT ) requisitou à Corregedoria do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) a instauração de inquérito policial militar para apurar as circunstâncias relacionadas à realização do evento “FIRE Experience 004”, do movimento Legendários , no Centro de Treinamento Operacional (CTO) da corporação.
Conforme revelado pela coluna Na Mira , a estrutura militar, que deveria servir rigorosamente à atividade-fim do Estado e à segurança de toda a população brasiliense, foi transformada em uma espécie de “QG exclusivo” do grupo privado .
A investigação deverá esclarecer as condições de uso das instalações, a participação de militares e o eventual emprego de recursos públicos. Segundo documentos analisados pelo MPDFT, o plano de operação previa 18 militares e 18 cotas de Gratificação de Serviço Voluntário (GSV) para o evento, realizado em 26 de setembro.

A Promotoria requisitou documentos sobre a autorização para utilização do espaço, escalas e pagamentos de GSV, além de informações sobre viaturas, equipamentos e outros recursos empregados. Também solicitou a preservação de imagens de câmeras de segurança e registros de entrada e saída.
A apuração deverá verificar se o uso da estrutura e dos recursos públicos ocorreu de acordo com as normas aplicáveis e eventual responsabilidade de agentes envolvidos.
A reportagem da coluna Na Mira acompanhou de perto, durante dois dias consecutivos, a intensa movimentação dos organizadores e integrantes do grupo dentro do CTO do CBMDF. No local, a equipe presenciou preparativos ostensivos que alteraram completamente a rotina da unidade militar.

Segundo a explicação do próprio grupo Legendários publicada nas redes sociais, o objetivo era capacitar os membros para atuarem como uma “Força Imediata de Resgate Espiritual”, levando conforto, consolo, cuidado espiritual e de capelania às vítimas e equipes de linha de frente que atuam em desastres naturais .
Para acomodar a estrutura, o grupo privado montou uma enorme tenda em um terreno ao lado do estacionamento interno da área militar, realizando a roçagem do mato e deixando o espaço devidamente preparado e nivelado.
Veja imagens dos legendários dentro do Centro de Treinamento do CBMDF:

Segundo uma fonte militar ouvida pela coluna, a gravidade da situação ganha contornos ainda mais alarmantes. Teriam sido oferecidas 18 cotas de Gratificação de Serviço Voluntário (GSV), para que bombeiros militares atuem na prevenção e na segurança interna do encontro privado durante os três dias de imersão
Entre sexta-feira (25/9) e domingo (27/9), o Centro de Treinamento Operacional (CTO) da corporação, uma estrutura militar estratégica mantida exclusivamente com os impostos do contribuinte para capacitar bombeiros no combate a incêndios e no resgate de vidas, teve suas portas blindadas para abrigar um evento estritamente particular e religioso
A reportagem da coluna Na Mira acompanhou de perto, durante dois dias consecutivos, a intensa movimentação dos organizadores e integrantes do grupo dentro do CTO. No local, a equipe presenciou preparativos ostensivos que alteraram completamente a rotina da unidade militar

Além disso, até mesmo o estacionamento reservado aos militares que trabalham diariamente no complexo foi adaptado
Ali, os legendários ergueram outra grande tenda para abrigar uma "lojinha" oficial, onde araras exibiam camisas, casacos, bonés e diversos outros itens estampados com a marca da organização, devidamente colocados à venda para os frequentadores
Toda a experiência contou ainda com uma infraestrutura de suporte reforçada pela instalação de oito banheiros químicos para atender ao "batalhão religioso", desfrutando do conforto e da segurança institucional fornecidos pelas instalações do CBMDF

Ao longo de todo o fim de semana, a pista de treinamento e as instalações operacionais da unidade militar estiveram completamente inacessíveis para o público geral e para a rotina normal do serviço de emergência.
A restrição no local foi absoluta, visto que ninguém está autorizado a ingressar na área militar que não seja integrante cadastrado do grupo privado ou militar escalado para o apoio
No entanto, foi em um pátio resguardado pelos alambrados que acabaram erguidas cerca de 80 barracas (veja vídeo acima) destinadas ao pernoite dos participantes, os quais desembolsaram a bagatela de R$ 1.988 por pessoa para vivenciar os três dias do chamado “resgate espiritual”.

A restrição no local foi absoluta, visto que ninguém que não seja integrante cadastrado do grupo privado ou militar escalado para o apoio estava autorizado a ingressar na área militar.
Como a GSV é uma verba pública destinada por lei para remunerar militares que trabalham durante o período de folga em prol da segurança da coletividade, o seu emprego em um retiro particular significa, na prática, que o erário do Distrito Federal está custeando a segurança e a logística privada de um grupo seleto.



Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/distrito-federal/na-mira/mp-requisita-investigacao-sobre-uso-de-batalhao-do-cbmdf-por-legendarios.

Metrópoles — Foto: Metrópoles
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