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    MP das blusinhas ameaça indústria têxtil e pode reduzir demanda por algodão

    Setor de algodão alerta que avanço das importações de roupas pode enfraquecer a indústria nacional e reduzir a absorção da fibra brasileira no mercado doméstico.

    CNN Brasil
    7 de setembro de 2026 às 15:26
    MP das blusinhas ameaça indústria têxtil e pode reduzir demanda por algodão
    Foto: CNN Brasil

    A demanda da indústria nacional por algodão pode ser afetada pela entrada de roupas importadas com tributação reduzida, prevista na Medida Provisória nº 1.357/2026, conhecida como “MP das blusinhas”. A avaliação é de representantes da cadeia do algodão e da indústria têxtil, que alertam para o risco de perda de competitividade da produção brasileira.

    “A indústria terá um prejuízo muito maior, porque vai desacelerar o processo de fazer chegar até os magazines, produtos nacionais que concorrem, em desvantagem com os importados, com essa política do governo,” explicou Marcio Portocarrero, diretor executivo da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão).

    Para o setor de cotonicultura, com a aprovação da Medida Provisória que isenta a taxação das “blusinhas”, deveria vir acompanhada de algum mecanismo de compensação para preservar a competitividade da indústria nacional.

    Cadeia do algodão adere manifesto contra taxa das blusinhas, pois aumento das importações têxteis pode reduzir o valor da fibra brasileira • Divulgação/ Abrapa · • Divulgação/ Abrapa
    Cadeia do algodão adere manifesto contra taxa das blusinhas, pois aumento das importações têxteis pode reduzir o valor da fibra brasileira • Divulgação/ Abrapa · • Divulgação/ Abrapa — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    “A mesma isenção que está sendo dada e que foi mantida para importação das blusinhas, teria que ser compensada aqui no Brasil com algum tipo de benefício à indústria nacional para que ela mantivesse a competitividade. Isso não aconteceu,” concluiu Portocarrero.

    À CNN, o presidente da Abrapa, Gustavo Picooli, já havia defendido uma política de incentivo ao uso de fibras naturais na indústria.

    O consultor independente Pery Passotti Pedro explica que o Brasil, em pouco tempo, saiu da condição do maior importador para o maior exportador de algodão do mundo e esclarece também o que pode acontecer se houver perda da indústria têxtil nacional.

    Câmara aprova MP que acaba com a "taxa das blusinhas"
    Câmara aprova MP que acaba com a "taxa das blusinhas" — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    “Se perdermos nossa indústria têxtil, o produtor brasileiro passa a depender exclusivamente do mercado externo e de suas flutuações — demanda chinesa, tarifas americanas, câmbio, frete e geopolítica — sem poder contar com a indústria nacional, que foi um parceiro próximo na construção estratégica dessa liderança,” disse o consultor.

    A indústria têxtil brasileira já enfrenta um cenário de queda na produção e aumento da entrada de produtos estrangeiros. Dados da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) mostram um contraste entre o desempenho das fábricas no país e a entrada de produtos estrangeiros.

    De janeiro a julho, a produção de vestuário caiu 6,8% na comparação com o mesmo período de 2025. No segmento têxtil, a retração foi de 3,9%. Quando considerado o acumulado de 12 meses, as quedas chegam a 4,2% e 1,9%, respectivamente.

    MP da taxa das blusinhas deverá prever avaliação periódica de impactos
    MP da taxa das blusinhas deverá prever avaliação periódica de impactos — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Já as importações avançam. A entrada de vestuário estrangeiro cresceu 50,3% entre janeiro e agosto de 2026, em relação ao mesmo intervalo do ano passado. Em 12 meses, o acréscimo chega a 41,4%. Considerando toda a cadeia têxtil e de confecção, as importações aumentaram 11,7% no acumulado do ano e 7,8% em 12 meses.

    O movimento ganha ainda mais peso quando comparado às exportações brasileiras. Os embarques do setor têxtil e de confecção recuaram 2,5% entre janeiro e agosto e registraram queda de 0,9% em 12 meses.

    Ou seja, enquanto a entrada de produtos estrangeiros cresce, as vendas brasileiras para o exterior diminuem. Segundo a Abit, a decisão tomada no Congresso Nacional contraria a igualdade concorrencial, tributária e regulatória.

    Leila do Vôlei ouve empresários sobre "taxa das blusinhas"
    Leila do Vôlei ouve empresários sobre "taxa das blusinhas" — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Em nota, a associação ressaltou que os prejuízos já aparecem na queda da produção, no fechamento de postos de trabalho e na redução dos investimentos. Também serão sentidos na arrecadação tributária e na capacidade do País de preservar sua base industrial e comercial.

    Fernando Pimentel, presidente da Abit, destacou que os produtos importados chegam ao consumidor brasileiro pagando menos impostos ou submetidos a regras diferentes das enfrentadas pelas empresas que importam pelo modelo convencional e, principalmente, pela indústria que produz no Brasil.

    “Se você manda US$ 520 milhões, US$ 530 milhões, como no mês passado, temos US$ 150 milhões a US$ 200 milhões não registrados do ponto de vista das importações tradicionais, que têm um outro tratamento através da receita da Receita Federal e do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), que estão tomando mercado e com uma vantagem, tributária e regulatória é absolutamente desigual, desleal”, explicou Fernando.

    MP da taxa das blusinhas deverá prever avaliação periódica de impactos
    MP da taxa das blusinhas deverá prever avaliação periódica de impactos — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Além disso, ele também disse que está ação afeta todos os elos da cadeia produtiva, desde o produto final como a roupa, o lençol, a toalha, até a colheita da fibra, na cultura do algodão.

    Para a Abit, existem sim aspectos positivos do texto aprovado, como a menção ao reforço dos mecanismos de fiscalização, a previsão de acompanhamento dos efeitos da medida e a possibilidade de revisão do regime.

    Segundo a entidade, esses instrumentos são importantes, especialmente para combater o subfaturamento, a classificação incorreta de mercadorias, a fragmentação artificial de encomendas e a entrada de produtos sem o cumprimento das normas brasileiras. Entretanto, eles não compensam a ausência de uma contrapartida imediata que restabeleça a isonomia competitiva, segundo a Abit.

    Câmara aprova MP que acaba com a
    Câmara aprova MP que acaba com a — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Para Pery Passotti Pedro, não é apenas a aprovação da isenção da taxa das blusinhas que faz com que o desenvolvimento da indústria no Brasil seja prejudicado, mas também a mudança da escala de trabalho e os efeitos da reforma tributária.

    “Três mudanças com enorme impacto potencial sobre competitividade, custos e decisões de investimento em um intervalo muito curto. Como uma indústria que precisa decidir hoje sobre investimentos que vão se pagar ao longo de dez ou vinte anos consegue fazê-lo sem previsibilidade sobre quais serão as regras amanhã?”, frisou Pery.

    Ele também afirmou que são cerca de 800 mil empregos em risco, 3,2 milhões de brasileiros potencialmente afetados e uma força de trabalho em que sete de cada dez trabalhadores são mulheres. E que qualquer perda estrutural de competitividade tem consequências econômicas e sociais.

    Leila do Vôlei ouve empresários sobre
    Leila do Vôlei ouve empresários sobre — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    A Abit ressaltou ainda que enquanto outros países desenvolvem a regulação, a fiscalização e a tributação das pequenas encomendas internacionais, o Brasil segue na contramão e oferece seu mercado sem a cobrança do imposto de importação.

    Para a entidade, o avanço do Brasil no mercado mundial de algodão, confronta com as dificuldades enfrentadas pela indústria têxtil no país. A preocupação é que a perda de competitividade desse setor reduza a capacidade de absorção da matéria-prima no mercado doméstico.

    “Não faz sentido comemorar a competitividade do algodão brasileiro enquanto enfraquecemos a indústria que transforma o algodão no Brasil. No fim, o que a indústria têxtil pede ao governo é simples: condições para competir e estabilidade das regras para continuar investindo, empregando e arrecadando. E previsibilidade para competir,” concluiu Pery.

    Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/agro/mp-das-blusinhas-ameaca-industria-textil-e-pode-reduzir-demanda-por-algodao/.

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