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    'Movimento Sober Curious' fala de parar de beber como só mais uma tendência

    Livro de Ruby Warrington tem méritos, mas peca ao tratar o hábito com leveza

    UOL
    28 de agosto de 2026 às 08:00
    'Movimento Sober Curious' fala de parar de beber como só mais uma tendência
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    Expressa juízo de valor sobre a obra cultural comentada e destaca seus elementos positivos e negativos

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    A jornalista britânica Ruby Warrington, autora de 'Movimento Sober Curious' - Caitlin Mitchell/Divulgação · Caitlin Mitchell/Divulgação
    A jornalista britânica Ruby Warrington, autora de 'Movimento Sober Curious' - Caitlin Mitchell/Divulgação · Caitlin Mitchell/Divulgação — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Alcoólatra em recuperação, escreve o blog 'Vida de Alcoólatra'

    Li "Movimento Sober Curious", de Ruby Warrington, do lugar pouco charmoso de quem é alcoólatra . Não sou uma pessoa apenas curiosa sobre a sobriedade . Para mim, ficar sem beber não é uma experiência temporária, um desafio de 30 dias nem uma oportunidade de alcançar mais produtividade, beleza ou clareza mental. É uma questão de sobrevivência.

    O livro propõe que o leitor examine sua relação com o álcool e perceba que não é necessário chegar ao fundo do poço para questionar o hábito de beber .

    Reunião do AA (Alcoólicos Anônimos): depoimentos, conselhos e apoio
    Reunião do AA (Alcoólicos Anônimos): depoimentos, conselhos e apoio — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A ideia tem méritos evidentes. Vivemos em uma sociedade na qual o álcool acompanha comemorações, encontros amorosos, reuniões profissionais, frustrações e até práticas de autocuidado.

    Recusar uma taça ainda exige explicações. Nesse sentido, Warrington acerta ao confrontar a normalização da bebida e ao lembrar que ninguém precisa receber um diagnóstico para decidir parar.

    O problema começa quando a sobriedade é apresentada com a linguagem sedutora das tendências de bem-estar. Em "Movimento Sober Curious", abandonar o álcool parece, por vezes, integrar o mesmo universo das dietas da moda, dos retiros espirituais e das rotinas matinais cuidadosamente fotografadas.

    Capa de 'Movimento Sober Curious: Descubra a Leveza de uma Vida sem Ressaca', livro de Ruby Warrington - Divulgação · Divulgação
    Capa de 'Movimento Sober Curious: Descubra a Leveza de uma Vida sem Ressaca', livro de Ruby Warrington - Divulgação · Divulgação — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Dormir melhor, emagrecer, ter uma pele mais bonita e trabalhar com mais eficiência são benefícios possíveis. Para uma alcoólatra, porém, essa embalagem soa superficial —e até cruel.

    Eu não parei de beber para acordar disposta e tomar suco verde. Parei porque o álcool estava destruindo minha vida.

    A bebida não era um hábito que eu pudesse observar com curiosidade e depois decidir se queria ou não manter. Era uma obsessão, uma necessidade e uma doença marcada por perda de controle. A sobriedade, nesse contexto, não é um acessório para uma vida mais equilibrada. É um trabalho diário, frequentemente doloroso, que envolve medo, vergonha, reparação e ajuda.

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    Ao transformar a abstinência em escolha de estilo de vida, o movimento "sober curious" corre o risco de apagar justamente as pessoas para quem beber deixou de ser uma escolha.

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    Existe uma diferença enorme entre experimentar um mês sem vinho e enfrentar uma dependência. Isso não torna a primeira experiência ilegítima, mas torna perigoso falar das duas como se fossem pontos próximos de uma mesma jornada.

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    Também me incomoda o privilégio implícito em boa parte desse discurso. É mais fácil transformar a sobriedade em projeto de autoconhecimento quando se dispõe de tempo, dinheiro, apoio emocional e acesso a terapias.

    Para muitas pessoas, a dependência vem acompanhada de desemprego, violência, adoecimento, solidão e falta de assistência. Nesses casos, parar de beber não cabe em uma fotografia luminosa acompanhada por uma frase inspiradora.

    Warrington escreve de maneira acessível e pode ajudar leitores que desconfiam da própria relação com o álcool, mas ainda resistem à ideia de mudança. O livro abre uma porta importante. Minha ressalva é que, do outro lado dessa porta, nem sempre existe o cenário elegante prometido pelo mercado da sobriedade. Às vezes há apenas uma pessoa assustada, tentando atravessar mais um dia sem beber.

    Talvez o maior limite de "Movimento Sober Curious" esteja no próprio título. A curiosidade é confortável porque permite recuar. O alcoolismo, não.

    Quem pode experimentar a sobriedade e depois voltar a beber moderadamente tem uma liberdade que eu não tenho. Não digo isso com ressentimento, mas com a objetividade que minha experiência me ensinou.

    Prefiro uma conversa sobre álcool menos bonita e mais honesta. Uma conversa capaz de acolher tanto quem deseja beber menos quanto quem não pode beber nunca mais —sem transformar uma doença em moda ou a recuperação em produto.

    Para mim, a sobriedade não é tendência. É necessidade. E essa diferença não deveria ser tratada como mero detalhe editorial.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2026/08/movimento-sober-curious-fala-de-parar-de-beber-como-so-mais-uma-tendencia.shtml.

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    A jornalista britânica Ruby Warrington, autora de 'Movimento Sober Curious' - Caitlin Mitchell/Divulgação · Caitlin Mitchell/Divulgação — Foto: UOL

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