Mortes: Viveu muitas vidas em uma só e fez do Haiti sua segunda pátria
Omar Ribeiro Thomaz foi um acontecimento nesta vida. Teatral e expansivo, tinha uma memória surreal. O tipo de memória própria dos antropólogos, capazes de conectar os maiores acontecimentos dos últimos 50 anos no Ocidente com pessoas de carne e osso com quem conviveu. Foi um homem de muitas vidas e apaixonado pelas muitas vidas possíveis no mundo. Leia mais (10/13/2026 - 11h04)

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Omar Ribeiro Thomaz foi um acontecimento nesta vida. Teatral e expansivo, tinha uma memória surreal. O tipo de memória própria dos antropólogos, capazes de conectar os maiores acontecimentos dos últimos 50 anos no Ocidente com pessoas de carne e osso com quem conviveu. Foi um homem de muitas vidas e apaixonado pelas muitas vidas possíveis no mundo.

Sua vida foi uma sucessão de deslocamentos. Nasceu carioca, cresceu entre São Paulo e Lisboa , tornou-se adulto em Barcelona , descobriu a antropologia na Guiné-Bissau , fez dela uma profissão no Brasil, pesquisou em Moçambique e encontrou no Haiti uma segunda pátria intelectual.
Tornou-se professor de antropologia da Unicamp em 2001. Pesquisou colonialismo, guerras e desigualdades em Moçambique, Haiti e outros países. Formou gerações de antropólogos. Durante o terremoto de 2010, estava no Haiti com um grupo de alunos. Depois, ajudou estudantes haitianos a prosseguir seus estudos e suas vidas no Brasil.
A violência foi uma preocupação constante. Não apenas aquela que explode nas guerras , mas a que se prolonga muito depois delas, nas hierarquias raciais, nas fronteiras e nas vidas interrompidas pela dominação colonial. Interessava-lhe compreender como as pessoas atravessavam essas experiências, reconstruíam seus mundos e encontravam maneiras de resistir.

Essa sensibilidade tinha raízes na própria biografia. Filho de militantes comunistas perseguidos pela ditadura , viveu a Revolução dos Cravos ainda criança. De volta ao Brasil, viu a mãe ser presa pelos órgãos da repressão. Mais tarde, em Barcelona, encontrou no teatro, nas artes e na vida cultural da cidade formas de ser livre e se expressar.
Na universidade , sua erudição era acompanhada de uma generosidade pouco protocolar. Interessava-se pelas pesquisas dos alunos, abria a porta de sua casa, inventava conexões e fazia circular pessoas entre países e instituições. Não separava a produção de conhecimento das responsabilidades diante daqueles que encontrava pelo caminho.
Tinha também uma gargalhada inconfundível e um gosto especial pela controvérsia.

Nos últimos dias, amigos e alunos fizeram uma romaria ao hospital da Unicamp para se despedir. Conta-se que as enfermeiras, impressionadas com tantas visitas, procuraram seu nome na internet para descobrir quem era aquele homem.
Era Omar. Um sujeito que passou a vida conhecendo pessoas e fazendo com que elas se conhecessem. Não surpreende que tantas tenham aparecido para se despedir.
O velório acontece nesta terça-feira (13), das 11h às 15h30, no Cemitério Flamboyant, em Campinas . Na quarta-feira (14), haverá uma segunda cerimônia, das 9h às 12h30, no Cemitério São Paulo, em Pinheiros, na capital paulista, onde será sepultado às 13h.

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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/10/mortes-viveu-muitas-vidas-em-uma-so-e-fez-do-haiti-sua-segunda-patria.shtml.

Omar Ribeiro Thomaz (1965–2026) - Arquivo pessoal · Arquivo pessoal — Foto: Folha de S.Paulo
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