Mortes: Médico foi referência no cuidado de crianças com paralisia cerebral
Era comum ver Carlos Alberto dos Santos sentado no chão durante suas consultas. A comunicação e o afeto com os pacientes, aliados ao vasto conhecimento médico, fizeram dele referência no atendimento a crianças com paralisia cerebral . Falava com elas com a certeza de que o entendiam. Leia mais (09/18/2026 - 16h57)

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Era comum ver Carlos Alberto dos Santos sentado no chão durante suas consultas. A comunicação e o afeto com os pacientes, aliados ao vasto conhecimento médico, fizeram dele referência no atendimento a crianças com paralisia cerebral . Falava com elas com a certeza de que o entendiam.

Por quatro décadas, ele atendeu na AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) de São Paulo , com foco em ortopedia e reabilitação, em uma trajetória marcada pela "excelência médica, humanização e profunda empatia", publicou a entidade.
Uma figura com ar paternal, que ensinava como se conectar a estes pacientes. "Com doçura, humanidade, respeito, dedicação e gentileza", diz a médica Patrícia Moreno, lembrando que Carlos sofreu com problemas ortopédicos na infância, que o obrigaram a usar botas pesadas e desajeitadas.
A ortopedia foi a escolha do jovem Carlos ao entrar para a Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) , onde se formou em 1971. Enquanto estudante, foi motorista de ambulância, carregador de maca e prestador de primeiros socorros, fazendo plantões em todos os Natais, conta Patrícia.

Em 1985, ele se tornou doutor em ortopedia e traumatologia e trabalhou na Divisão de Medicina Física e Reabilitação do Hospital de Clínicas de São Paulo . Atuou ainda na prefeitura e em seu consultório particular, com o mesmo jeito carinhoso e dedicado. "Transmitia conhecimento, humildade e equilíbrio na tomada de decisões. Era movido pela curiosidade científica e pelo compromisso com a busca do bem", resume a amiga.
A filha Carolina recorda a habilidade cirúrgica, humildade e sabedoria do pai, que conseguia entrar no mundo de seus pacientes não verbais, tratando-os com naturalidade e respeito. "Ainda que eles não falassem, que estivessem em cadeira de rodas e não mexessem nem a cabeça, ele conversava de verdade, com interesse genuíno."
Nas horas vagas, Carlos adorava plantar e cuidar de orquídeas —tinha mais de 3.000. O hábito vinha desde menino, quando as vendia aos turistas de Iraí, em um carrinho de mão. A cidade natal, ao norte do Rio Grande do Sul , é famosa por suas águas termais e atrai muitos visitantes. Lá, ele cresceu ao lado dos dois irmãos, numa família de descendentes de alemães.

Em 1978, casou-se com a médica Maria de Lourdes e teve duas filhas. Amoroso, quieto, discreto, extremamente gentil, era quase impossível vê-lo bravo. Era daqueles que pegam todos os panfletos na rua só para valorizar quem distribui. Diante de tristezas, dizia: "Ah, isso não é problema", talvez porque, lidando diariamente com realidades muito difíceis, enxergasse as coisas em outra proporção, avalia a filha.
Generoso em silêncio, ajudava sem alarde, e nunca gastava consigo mesmo. "Tinha um olhar além do comum, mas nunca fez propaganda disso."
Carlos morreu em 4 de julho, de câncer . Deixa a mulher, 2 filhas, 3 netos e várias gerações de pacientes em luto.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/09/mortes-medico-foi-referencia-no-cuidado-de-criancas-com-paralisia-cerebral.shtml.

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