Mortes: Jornalista na Bahia, amava o rádio, o rock e colecionava amigos
Foi há muito tempo , na velha Bahia , que veio ao mundo mais um daqueles meninos que imitavam Little Richard e se contorciam. Era José Pacheco Maia Filho, ou Zé Filho, primogênito de José Pacheco e Aleluia Maia. Leia mais (09/24/2026 - 16h47)

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Foi há muito tempo , na velha Bahia , que veio ao mundo mais um daqueles meninos que imitavam Little Richard e se contorciam. Era José Pacheco Maia Filho, ou Zé Filho, primogênito de José Pacheco e Aleluia Maia.

Ele nasceu em novembro de 1965 e se criou no bairro do Canela, em Salvador . Cresceu entre as braçadas na praia de Buraquinho, as partidas do Bahia nas arquibancadas da velha Fonte Nova, os olhos vidrados nos gibis e o estrilar das caixas de som.
Na juventude, foi estudar comunicação na Universidade Federal da Bahia . O rádio foi sua primeira paixão profissional. Ainda jovem, encarnava o locutor Jota Junior, embalando com rock as noites da rádio Transamérica.
Na programação, não faltava Raul Seixas , cuja morte soou como um terremoto em agosto de 1989. O jovem repórter foi ao cemitério com gravador em punho, onde viu fãs cantarem com vigor e lágrimas nos olhos. Carregaria para sempre certa simbiose com a trajetória de Raulzito, desde novo já lhe dando os toques.

Foi nessa época que se uniu a Judy, a primeira mulher, parceira na aventura que resultou nas filhas Annalu e Clarissa. Quando a primogênita anunciou sua chegada, tocava Pink Floyd no rádio, onipresente.
Anos mais tarde, já separado, seu caminho cruzaria com o de Thea, segunda esposa até o fim da vida, com quem teve Isis. As três filhas eram seu xodó. Encontrá-las era como achar uma sinfonia após varrer o dial em busca de uma estação.
Espírito galhofeiro, perfil acolhedor, Pacheco Maia foi um homem de muitos amigos. Estava sempre pendurado ao telefone com eles, contando pilhérias e gargalhando a hora que fosse.

Na profissão, escreveu sobre esportes no Bahia Hoje e sobre economia na Gazeta Mercantil. Foi diretor do sindicato dos jornalistas e liderou uma greve histórica de 33 dias, com piquetes embalados por canções de João Gilberto .
Trabalhou com comunicação corporativa, atuou em campanhas eleitorais e ocupou o cargo de secretário de Comunicação em Salvador.
O rádio voltou ao seu caminho como professor, quando ganhou ares de lenda ao instalar o transmissor FM da Rádio Facom, da UFBA. Estava sempre às voltas com aparelhos, cabos e antenas. Volta e meia colocava no ar rádios piratas, com a anarquia que preservou da juventude.

Também era vidrado nos livros , sempre caçando raridades nos sebos. Tinha uma cultura vasta e não tolerava mediocridade. Deixou sua marca na imprensa com um texto de estilo próprio, reconhecível nos primeiros parágrafos.
Diagnosticado com uma leucemia no final de 2025, tratou a doença com firmeza e otimismo. Entre idas e vindas ao hospital, tinha a mesma resposta quando perguntavam como estava: "Maravilhosamente bem, cada dia melhor."
Quando o coração bateu pela última vez, no fim da tarde de 18 de setembro, uma chuva desabou sobre Salvador. Foi inevitável lembrar da sua canção favorita , que cantarolava quando chegavam as tempestades: "I wanna know, have you ever seen the rain? Comin' down on a sunny day?" ("Quero saber: você já viu a chuva cair em um dia ensolarado?")
Ele já não tinha medo da chuva , como aprendera desde cedo com Raul. Entrou no seu Simca Chambord intergaláctico, acelerou sem olhar para trás e foi ser mais um carpinteiro neste vasto universo.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/09/mortes-jornalista-na-bahia-amava-o-radio-o-rock-e-colecionava-amigos.shtml.

José Pacheco Maia Filho (1965 - 2026) - Valter Pontes / PMS · Valter Pontes / PMS — Foto: Folha de S.Paulo
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