Mortes: Jornalista generoso e de mente eclética foi mestre de colegas e amigos
Este texto melhora se for lido ao som de "Heart of Glass" , do Blondie, ou " Planet Earth ", do Duran Duran. Eram as bandas preferidas do Paulão. Leia mais (09/16/2026 - 16h07)

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Este texto melhora se for lido ao som de "Heart of Glass" , do Blondie, ou " Planet Earth ", do Duran Duran. Eram as bandas preferidas do Paulão.

Definida a trilha sonora, começa o obituário .
"Paulão, tenho uns pedaços de carne de porco na geladeira. Como preparo?"
"Pauleta, sugestão de restaurante pra almoço fácil pra mim, que tô na Vila Madalena, e pro meu amigo, de Higienópolis?"

"Esse time do Boca é ruim faz tempo ou piorou agora?"
"Tá ligado na última playlist do Danger Mouse ? Não tem música ruim."
As três primeiras perguntas, entre muitas e muitas em 40 anos de amizade, fiz para valer.

A última, não deu tempo. Ia mandar no dia em que Paulão morreu, de uma pneumonia devastadora. Depois de 12 horas de internação, não mais que isso, puf, foi-se aos 62 anos Paulo Cesar Martin, uma das mentes mais ecléticas e generosas, um dos caras mais legais que já pisaram nestes tristes trópicos.
E por que eu perguntava tanto? Porque ninguém precisava de Google, ou de IA, ou da própria memória, se tinha Paulão como amigo.
Conheci Paulão na Folha , vizinhos de Redação. Depois trabalhamos no Notícias Populares e fomos contemporâneos na Globo. Também apresentamos, com André Barcinski , o hoje lendário " Garagem ", caos radiofônico nas madrugadas paulistanas, entre o final do século passado e o início deste. Da minha parte, o programa era uma bagunça. Eu chegava sempre em cima da hora, quando chegava. Mas o Pauleta, não: roteirizava, produzia, organizava. O "Garagem" era ele.

Tocávamos no programa nossa especialidade: o que de mais moderno existia no rock / pop . Mas era impossível passar à frente do Paulão. No tempo dos CDs, quando eu viajava a trabalho ao exterior, perguntava se ele queria algo. Ele mandava a lista e, sempre, 90% ainda nem tinham sido lançados. Como o Paulão sabia de tanta novidade antes de todo mundo? Não me pergunte.
Imbatível ele também era ao rastrear novidades gastronômicas. Mas não esses "achadinhos" de araque de redes sociais, e sim pérolas do submundo com rango de primeira. Lembro de um peruano a que ele ia na cracolândia, cujo nome me esqueço –só lembro que tinha a palavra "carajo" e o slogan era "donde el rey es Usted". Meu próximo plano era explorar com ele e o escritor Júlio Bernardo os chineses que proliferam no bairro do Pari. Não deu tempo.
No velório lotado, muito se ouviu a palavra "mestre". De jornalistas que estavam lá e que, no início de carreira, foram ciceroneados pelo Paulão, paciente e criativo, pelos caminhos do que é uma pauta de interesse; e de como encontrar, num turbilhão desordenado de informações, a notícia relevante. Paulão, nosso querido Pauleta, corintiano fã da Argentina, grande DJ, cozinheiro de mão cheia, "renaissance man" da Vila Califórnia, deixa a irmã, a brava Antônia, além de sobrinhos, três cachorros, um pássaro e a Jac, a jornalista Jacqueline Lattari, a ex-esposa mais amiga de que se tem notícia desde que o casamento –e as separações– foi inventado. Deixa também todos nós, amigos e admiradores, com um enorme vazio na alma. Valeu, animal.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/09/mortes-jornalista-generoso-e-de-mente-ecletica-foi-mestre-de-colegas-e-amigos.shtml.

Paulo Cesar Martin (1962 - 2026) - Paulo Cesar Martin no Instagram · Paulo Cesar Martin no Instagram — Foto: Folha de S.Paulo
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