Mortes: Dedicou mais de 30 anos às pesquisas de genética na USP
"Olha aqui como esses olhinhos são lindos. E essas asas, essas manchinhas? Não é a coisa mais linda do mundo?" Era assim que Orminda se referia aos bichinhos de que cuidava. Não eram de estimação. Eram moscas, Drosophilas melanogaster , aqueles insetos minúsculos que aparecem nas bananas maduras. Leia mais (10/02/2026 - 17h21)

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"Olha aqui como esses olhinhos são lindos. E essas asas, essas manchinhas? Não é a coisa mais linda do mundo?" Era assim que Orminda se referia aos bichinhos de que cuidava. Não eram de estimação. Eram moscas, Drosophilas melanogaster , aqueles insetos minúsculos que aparecem nas bananas maduras.

Orminda nasceu no interior do Ceará , filha de uma costureira que, aos 35 anos, ficou viúva com cinco filhos. Foi seu irmão, seminarista e depois jornalista, Irineu Guimarães, que abriu o caminho para a família se mudar para São Paulo . Com a ajuda dos frades dominicanos, mudou-se com as irmãs para a cidade.
Conheceu Luiz, oficial do Exército. Teve dois filhos, dois netos e três netas. No período pré- ditadura militar , a relação com os dominicanos aproximava a casa de um ambiente católico progressista. Enquanto o porão guardava o estoque do jornal Brasil Urgente, os armários mantinham as fardas do milico. E o casal convivia com esse contraste em concordância.
E as drosófilas? Orminda trabalhou por mais de 30 anos no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo . Passou boa parte da vida diante de um microscópio, separando e classificando centenas de mosquinhas.

Por se reproduzirem rapidamente, elas são preciosas para as pesquisas de genética . Era preciso distinguir machos de fêmeas, observar asas, olhos, manchas, tamanhos e alterações quase imperceptíveis.
Orminda tinha um olho extraordinário para isso. Por sua dedicação, seu nome foi publicado num trabalho do cientista Crodowaldo Pavan e recebeu apoio da Fundação Rockefeller. Os estudos brasileiros sobre genética se destacaram internacionalmente nas décadas de 1970 e 1980.
Orminda percebia sutilezas que passariam despercebidas pela maioria das pessoas e fazia aquele trabalho minucioso com uma característica que a acompanharia por toda a vida: o capricho de fazer tudo bem-feito.

Aquelas mesmas mãos capazes de manipular criaturas de poucos milímetros eram também as famosas "mãos de ouro" que produziam chocolates artesanais. A alegria da família se tornou fonte de renda na aposentadoria.
Com o passar dos anos, uma demência progressiva começou lentamente a lhe retirar aquilo que durante toda a vida foi um talento. Pouco a pouco, foi perdendo mobilidade e se desligando do mundo à sua volta. Mas nunca esteve sozinha.
Cercada pelo amor dos filhos, dos netos e da família, foi fazendo sua despedida lentamente, até descansar desta vida no último dia 25 de setembro. Partiu deixando lições de perseverança, coragem, fé e, sobretudo, daquele capricho que colocou em tudo o que fez.

Na casa dos filhos e dos netos, as bananas ficam maduras de propósito. As mosquinhas voltam. Onde a vida termina ela também se renova.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/10/mortes-dedicou-mais-de-30-anos-as-pesquisas-de-genetica-na-usp.shtml.

Orminda da Cruz Guimarães Marques (1931 - 2026) - Arquivo pessoal · Arquivo pessoal — Foto: Folha de S.Paulo
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