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    Morre sob custódia em Haia Ratko Mladic, o 'Açougueiro da Bósnia' condenado por genocídio

    Ratko Mladic, o ex-general sérvio cujas ações durante as guerras dos Bálcãs na década de 1990 lhe renderam o apelido de "Açougueiro da Bósnia" e que foi responsabilizado pelo massacre mais letal da Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) -o assassinato de cerca de 8.000 homens e meninos muçulmanos em Srebrenica, em 1995 -, morreu sob custódia em Haia. Ele tinha 83 anos. Leia mais (08/27/2026 - 17h28)

    Folha de S.Paulo
    27 de agosto de 2026 às 20:28
    Morre sob custódia em Haia Ratko Mladic, o 'Açougueiro da Bósnia' condenado por genocídio
    Homem de terno escuro e gravata vermelha caminha por porta aberta em corredor, com dois guardas de uniforme azul em primeiro plano, um à esquerda e outro à direita, em ambiente interno com paredes claras. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Ratko Mladic, o ex-general sérvio cujas ações durante as guerras dos Bálcãs na década de 1990 lhe renderam o apelido de "Açougueiro da Bósnia" e que foi responsabilizado pelo massacre mais letal da Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) —o assassinato de cerca de 8.000 homens e meninos muçulmanos em Srebrenica, em 1995 —, morreu sob custódia em Haia. Ele tinha 83 anos.

    Ratko Mladic, o ex-general sérvio-bósnio apelidado de "Açougueiro da Bósnia", entra em um tribunal sorrindo para ouvir seu veredito por crimes de guerra, em Haia - Peter Dejong - 22.nov.17/The New York Times · Peter Dejong - 22.nov.17/The N
    Ratko Mladic, o ex-general sérvio-bósnio apelidado de "Açougueiro da Bósnia", entra em um tribunal sorrindo para ouvir seu veredito por crimes de guerra, em Haia - Peter Dejong - 22.nov.17/The New York Times · Peter Dejong - 22.nov.17/The N — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Sua morte foi anunciada nesta quinta-feira (27) pela mídia estatal sérvia . Autoridades em Haia disseram que ele morreu enquanto estava hospitalizado, devido a um acidente vascular cerebral (AVC).

    Mladic foi capturado em 26 de maio de 2011 , em um vilarejo agrícola ao norte de Belgrado , capital da Sérvia, depois de quase 16 anos foragido, encerrando uma das buscas mais longas da história moderna. Sua condenação por um tribunal internacional em 2017 , sob acusações de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra , marcou o fim de um capítulo sombrio e sangrento na história europeia.

    Ao proferir a sentença de prisão perpétua, o juiz presidente, Alphons Orie, afirmou que os crimes de Mladic estavam "entre os mais hediondos conhecidos pela humanidade". Mladic recorreu da decisão, que foi mantida em 2021 .

    O ex-líder sérvio, Radovan Karadzic, senta-se no tribunal para a leitura de seu veredito no Tribunal Penal Internacional, em Haia - Robin van Lonkhuijsen - 24.mar.26/AFP · Robin van Lonkhuijsen - 24.mar.26/AFP
    O ex-líder sérvio, Radovan Karadzic, senta-se no tribunal para a leitura de seu veredito no Tribunal Penal Internacional, em Haia - Robin van Lonkhuijsen - 24.mar.26/AFP · Robin van Lonkhuijsen - 24.mar.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    As guerras dos Bálcãs eclodiram quando a Iugoslávia se desintegrava em Estados independentes. Slobodan Milosevic, o então presidente nacionalista da Sérvia, um desses Estados, estava decidido a criar uma Grande Sérvia. Ele reacendeu antigas hostilidades étnicas e religiosas e iniciou guerras que colocaram os sérvios contra eslovenos, croatas, bosníacos e albaneses de Kosovo .

    Cerca de 100.000 pessoas morreram durante o conflito, e mais de 2,5 milhões foram deslocadas.

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    O corpo de uma vítima do massacre de Srebrenica, o maior genocídio por motivos étnicos no continente desde a Segunda Guerra, repousa em uma vala comum na Bósnia - Andrew Testa - 9.jul.05/The New York Times · Andrew Testa - 9.jul.05/The New
    O corpo de uma vítima do massacre de Srebrenica, o maior genocídio por motivos étnicos no continente desde a Segunda Guerra, repousa em uma vala comum na Bósnia - Andrew Testa - 9.jul.05/The New York Times · Andrew Testa - 9.jul.05/The New — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Homem de rosto corado e intimidador, com voz retumbante, olhos azuis penetrantes e uma visão grandiosa de si mesmo, Mladic, oficial do Exército Popular Iugoslavo, comandou o Exército dos sérvios da Bósnia no início da década de 1990.

    Na véspera do massacre de Srebrenica, ele prometeu vingar a conquista da Sérvia, séculos antes, pelos turcos otomanos muçulmanos.

    Ao longo de dez dias, seus soldados perseguiram, capturaram e executaram sumariamente milhares de bosníacos, colocando-os em fila com as mãos amarradas às costas e atirando neles. Mulheres foram estupradas. Os apelos internacionais por moderação foram ignorados.

    Veja fotos sobre o massacre de Srebrenica
    Veja fotos sobre o massacre de Srebrenica — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    As forças sérvias enterraram os restos mortais, desenterraram-nos e os espalharam em valas comuns distantes, em um esforço organizado para ocultar provas incriminadoras de crimes de guerra.

    O julgamento de Mladic esteve entre os últimos casos de grande repercussão do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPIJ). O júri encerrou gradualmente suas atividades depois de sentenciar quase cem dos responsáveis pelas atrocidades do conflito, incluindo o chefe de Mladic, Radovan Karadzic, líder político dos sérvios da Bósnia.

    Preso em 2008 , Karadzic foi condenado em 2016 por acusações quase idênticas às de Mladic, e sua pena foi ampliada para prisão perpétua três anos depois .

    Apoiadores de Ratko Mladic, o ex-general sérvio-bósnio apelidado de "Açougueiro da Bósnia", manifestam-se com bandeiras e cartazes com sua imagem em Belgrado - Andrew Testa - 29.mai.11/The New York Times · Andrew Testa - 29.mai.11/The New Y
    Apoiadores de Ratko Mladic, o ex-general sérvio-bósnio apelidado de "Açougueiro da Bósnia", manifestam-se com bandeiras e cartazes com sua imagem em Belgrado - Andrew Testa - 29.mai.11/The New York Times · Andrew Testa - 29.mai.11/The New Y — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A prisão de Mladic foi um momento emblemático na tentativa da Sérvia de deixar para trás sua condição de nação pária. Ela removeu um grande obstáculo da adesão do país à União Europeia —ainda pendente—, que já estava cansada da recusa de sucessivos governos sérvios em capturá-lo.

    Quando finalmente foi localizado, ele estava escondido na casa de um primo e tão desesperado por dinheiro que uma de suas exigências recorrentes era o restabelecimento de sua pensão militar, que estava bloqueada.

    Além de ter arquitetado o massacre de Srebrenica, Mladic também acabou condenado por vários crimes ligados ao cerco de quase quatro anos a Sarajevo , capital da Bósnia, no qual 10 mil pessoas morreram, entre elas 1.500 crianças.

    Uma mulher chora entre caixões de quase 600 vítimas do massacre de Srebrenica, na Bósnia - Andrew Testa - 9.jul.05/The New York Times · Andrew Testa - 9.jul.05/The New York Times
    Uma mulher chora entre caixões de quase 600 vítimas do massacre de Srebrenica, na Bósnia - Andrew Testa - 9.jul.05/The New York Times · Andrew Testa - 9.jul.05/The New York Times — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Durante o cerco —o mais longo da história das guerras modernas— os homens de Mladic bombardearam a cidade a partir das montanhas ao redor e aterrorizaram civis com tiros de franco-atiradores. Os juízes também o consideraram culpado pela perseguição e pelo extermínio de não sérvios que viviam em vastas regiões da Bósnia.

    Na Sérvia, a habilidade militar de Mladic era lendária. Ljiljana Bulatovic, que escreveu uma biografia dele, disse que ele continuava sendo um herói para muitos sérvios, que sempre o considerariam "o protetor mítico do povo sérvio".

    Mladic nasceu na pobreza, no remoto vilarejo de Bozanovici, em 12 de março de 1943, quando a região fazia parte do Estado Independente da Croácia , um Estado fantoche nazista dominado por nacionalistas croatas fanáticos.

    Homem idoso de cabelos brancos veste terno escuro e gravata listrada, sentado em tribunal diante de monitores. Segurança uniformizado está desfocado ao fundo.
    Homem idoso de cabelos brancos veste terno escuro e gravata listrada, sentado em tribunal diante de monitores. Segurança uniformizado está desfocado ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Seu pai, Neda Mladic, um sérvio que integrava a resistência partisana liderada pelos comunistas, foi morto quando ele ainda era pequeno, e sua mãe, Stana (Lalovic) Mladic, criou-o junto com seus dois irmãos. A experiência de sua família incutiu em Mladic um profundo temor de que, a menos que detivessem a supremacia, os sérvios étnicos estariam sempre sujeitos à perseguição por croatas e outros grupos.

    Quando jovem, trabalhou como metalúrgico, mas logo se voltou para as Forças Armadas para sua formação. Com inteligência aguçada, força física e um carisma que inspirava profunda lealdade, Mladic ascendeu rapidamente no Exército Popular Iugoslavo.

    Dizia-se que, no início de sua carreira militar, ele seguia a vertente de comunismo de Josip Broz Tito , que rejeitava o nacionalismo e defendia, em vez disso, a fraternidade iugoslava como forma de manter unido o frágil conjunto de repúblicas multiétnicas e multirreligiosas da Iugoslávia.

    Esqueleto humano em decomposição com crânio exposto e restos de roupas antigas parcialmente cobertos por terra em sítio arqueológico.
    Esqueleto humano em decomposição com crânio exposto e restos de roupas antigas parcialmente cobertos por terra em sítio arqueológico. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Tito morreu em 1980 e, depois que Milosevic atiçou ressentimentos nacionalistas e a Iugoslávia começou a se desintegrar no início da década de 1990, Mladic abraçou a causa de seu líder: deter o separatismo e assegurar o domínio dos sérvios, o maior grupo étnico. Em 1992, um mês após a declaração de independência da República da Bósnia, as forças de Mladic iniciaram o cerco de Sarajevo.

    Em 1994, sua filha, Ana, estudante de medicina na faixa dos 20 anos, suicidou-se com a pistola favorita do pai , aparentemente transtornada pelas ações dele na guerra.

    Em julho de 1995, diante das câmeras, os guarda-costas de Mladic distribuíram doces a crianças bósnias. "Ninguém sofrerá nenhum mal", disse Mladic a mulheres e crianças aterrorizadas em 12 de julho, enquanto acariciava a cabeça de um menino. Naquele momento, seus soldados se preparavam para as execuções em massa.

    Grupo de pessoas em manifestação ao ar livre ao entardecer, segurando bandeiras e cartazes. Uma bandeira grande exibe a imagem de um homem com uniforme militar e a inscrição em cirílico 'СРПСКИ ЈУНАК!'. Fumaça ou névoa densa envolve a cena,
    Grupo de pessoas em manifestação ao ar livre ao entardecer, segurando bandeiras e cartazes. Uma bandeira grande exibe a imagem de um homem com uniforme militar e a inscrição em cirílico 'СРПСКИ ЈУНАК!'. Fumaça ou névoa densa envolve a cena, — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Após o massacre, a indignação em Washington e na Europa levou a uma campanha de bombardeios da Otan que derrotou as forças sérvias da Bósnia e resultou nos Acordos de Dayton , que encerraram as guerras dos Bálcãs em dezembro de 1995, embora o conflito na ex-Iugoslávia tenha voltado a eclodir em 1998 por causa de Kosovo.

    Em 1995, o tribunal internacional de Haia, criado dois anos antes, indiciou Mladic por crimes de guerra e genocídio relacionados ao cerco de Sarajevo e ao massacre de Srebrenica.

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    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/08/morre-sob-custodia-em-haia-ratko-mladic-o-acougueiro-da-bosnia-condenado-por-genocidio.shtml.

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