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    Morre Maricarmen Abascal, idosa de 87 anos que foi despejada na Espanha

    A saga da aposentada espanhola María del Carmen Abascal Martín, despejada aos 87 anos do apartamento onde vivera por sete décadas, provocou protestos que encheram a praça Puerta del Sol, um dos cartões postais de Madri ; estremeceu o governo do socialista Pedro Sánchez , que foi obrigado a convocar novas eleições ; e motivou a convocação de uma greve geral. Leia mais (10/07/2026 - 16h07)

    Folha de S.Paulo
    7 de outubro de 2026 às 19:07
    Morre Maricarmen Abascal, idosa de 87 anos que foi despejada na Espanha
    Pessoa idosa deitada em maca coberta por lençol branco, sendo transportada entre veículos de emergência alinhados. Pessoas ao fundo observam a cena em ambiente externo durante o dia. — Foto: Folha de S.Paulo

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    A saga da aposentada espanhola María del Carmen Abascal Martín, despejada aos 87 anos do apartamento onde vivera por sete décadas, provocou protestos que encheram a praça Puerta del Sol, um dos cartões postais de Madri ; estremeceu o governo do socialista Pedro Sánchez , que foi obrigado a convocar novas eleições ; e motivou a convocação de uma greve geral.

    Maricarmen Abascal, de 87 anos, é transportada em uma maca para uma ambulância após ser despejada de seu apartamento em Madri - Susana Vera - 23.set.26/Reuters · Susana Vera - 23.set.26/Reuters
    Maricarmen Abascal, de 87 anos, é transportada em uma maca para uma ambulância após ser despejada de seu apartamento em Madri - Susana Vera - 23.set.26/Reuters · Susana Vera - 23.set.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nesta quarta-feira (7), Maricarmen, como ficou conhecida, morreu no hospital Gregório Marañón, onde estava internada, sem conseguir voltar para o apartamento onde morava, embora tivesse chegado a um acordo de redução do aluguel com o proprietário.

    "Lamentamos comunicar que Maricarmen faleceu hoje", afirmou o Sindicato das Inquilinas e Inquilinos de Madri em nota, na qual destacou seu "exemplo de luta" e a onda de reações após seu despejo, que "representam um divisor de águas na história deste país".

    "Após sua partida, ficamos com o exemplo de luta e o legado que Maricarmen deixou. E, acima de tudo, vamos cumprir o que ela sempre nos pedia: 'Lutem, continuem lutando pelo que é de vocês'", segue a nota.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Maricarmen ficou famosa e se tornou um símbolo da questão habitacional na Espanha há pouco menos de um ano. Em 29 de outubro de 2025, uma mobilização popular impediu que a secretária aposentada fosse despejada do imóvel onde residia desde 1939, o ano do início da ditadura franquista.

    Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris

    Ela vivia num apartamento de três quartos e 92 m² na rua Sáinz de Baranda, em Ibiza, bairro de classe média de Madri. Herdara o imóvel do pai, que assinara um contrato com aluguel fixo na faixa de € 500 (quase R$ 2.800 na cotação atual). Após mudanças na lei de inquilinato, o preço subiu para € 2.650 (R$ 14,8 mil), valor que Maricarmen não podia pagar com sua aposentadoria de € 1.400 (R$ 7.800).

    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    As tentativas de despejo se sucederam, sempre impedidas por mobilizações populares . O caso chegou até a ONU. Em junho deste ano, o Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da entidade emitiu um comunicado em favor de Maricarmen, dizendo que "os despejos não deveriam dar lugar a uma situação em que pessoas fiquem sem casa ou expostas a violações dos direitos humanos". Segundo o comunicado, era necessário que fossem dadas à aposentada outras alternativas de moradia.

    O despejo finalmente se concretizou no último 23 de setembro, quando um portentoso aparato policial evitou a ação dos manifestantes em favor de Maricarmen. A aposentada, que utilizava cadeira de rodas, foi retirada de maca diretamente para o hospital. Foi o estopim para as manifestações na Puerta del Sol, tomada por mais de 1.200 tendas. O slogan dos manifestantes era: "Ni una Maricarmen más!"

    Do ponto de vista jurídico, o caso de Maricarmen remete a uma lei machista da ditadura de Francisco Franco (1892–1975), quando mulheres não tinham direito à posse de imóveis. Quando o pai de Maricarmen faleceu, a mãe teve que entrar na Justiça para homologar o contrato no qual o aluguel não poderia ser reajustado.

    Maricarmen se tornou um símbolo porque a questão habitacional se tornou um dos temas mais mobilizadores da política europeia, ao lado da imigração. Estima-se que os preços dos aluguéis tenham subido 87% na Espanha nos últimos dez anos. Na União Europeia, tornou-se comum que jovens demorem para sair da casa dos pais porque, com os salários de início de carreira, não conseguem arcar com os custos de moradia.

    A comoção em torno do caso de Maricarmen provocou uma reação do governo socialista de Pedro Sánchez. O primeiro-ministro na Espanha criou dois decretos que congelavam aluguéis após certo tempo e dificultavam despejos. Ambos, que ficaram conhecidos como "decretos Maricarmen", foram derrubados no Parlamento, expondo a fragilidade da coligação que sustenta o governo.

    Sánchez não teve outro remédio senão solicitar ao rei Felipe 6º a "dissolução das cortes", procedimento em que o Parlamento é dissolvido e se convocam novas eleições . Elas foram marcadas para o próximo dia 29 de novembro.

    "Todo o meu carinho à família e aos entes queridos de Maricarmen. Um abraço também a todos os que hoje sentimos esta perda como própria. Descanse em paz", escreveu Sánchez em rede social.

    Logo após a derrubada dos decretos, o Sindicato das Inquilinas e Inquilinos de Madri propôs uma greve geral pela melhoria de condições de moradia. As principais centrais sindicais espanholas encamparam o movimento, e a data foi marcada, nesta quarta-feira, para o dia 11 de novembro.

    Em seus últimos dias, no hospital, Maricarmen recebeu a notícia de um acordo com o fundo de investimento proprietário do apartamento da Sáinz de Baranda. Ela teria direito a um novo contrato, de oito anos, num valor próximo aos € 500 originais.

    De acordo com o jornal espanhol El País, a aposentada de 87 anos manifestava dois desejos. Voltar a seu apartamento para morrer em casa. E ver suas cinzas jogadas no mar Cantábrico, no norte da Espanha. O primeiro desejo acabou frustrado na noite deste 7 de outubro.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/10/morre-maricarmen-abascal-idosa-de-87-anos-que-foi-despejada-na-espanha.shtml.

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    Maricarmen Abascal, de 87 anos, é transportada em uma maca para uma ambulância após ser despejada de seu apartamento em Madri - Susana Vera - 23.set.26/Reuters · Susana Vera - 23.set.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

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