'Monstros: A História de Lizzie Borden' é teste de paciência e estômago
Nova empreitada de Ryan Murphy na Netflix volta a empapuçar o espectador com sangue

Secretária-assistente de Redação, foi editora do Núcleo de Cidades, correspondente em Nova York, Genebra e Washington e editora de Mundo
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Ainda é setembro, e Ryan Murphy já colocou no ar seis produções neste ano. Os gêneros variam —true crime, trama adolescente , crítica social com humor ácido, romance inspirado em fatos reais . O que não varia é a estética do exagero com a qual o produtor e os roteiristas que trabalham com ele estofa cada obra sob sua assinatura. Uma linha de produção em massa em que qualidade é um acidente.
Não é diferente com "Monstros: A História de Lizzie Borden", que estreou na Netflix nesta quinta (17). Quarta temporada da antologia sobre grandes criminosos que já recontou as histórias de Jeffrey Dahmer , irmãos Menendez e Ed Gein (o assassino que inspirou "Psicose" ), ela traz a primeira mulher protagonista e também a primeira, entre os retratados em "Monstros", a ser absolvida.
Nenhum dos dois ineditismos, porém, foi aproveitado por Murphy e pelo cocriador Ian Brenner. O suposto feminismo que eles tentam infundir na personagem-título e em sua suposta cúmplice é caricato e pueril. As dúvidas que pairam até hoje sobre o caso de Borden são apenas um arremedo do que eles mostraram na temporada dos irmãos Menendez, mais interessante.

Borden foi acusada de matar o pai e a madrasta com dezenas de machadadas em 1892. Seu julgamento, no ano seguinte, é considerado um dos primeiros a receber um "circo de mídia", algo que viraria praxe no século 20 com crimes famosos.
Mas faltaram provas para sustentar sua condenação, e ela acabou absolvida pelo júri (curiosidade: a casa onde a família viveu e o crime ocorreu, em Fall River, no estado americano de Massachusetts, pode ser visitada).
É uma história ainda suscita interesse, apesar da overdose de séries inspiradas em crimes reais, e poderia ser construída com nuances e delicadeza. Mas a mão de Murphy é pesada demais para ele controlar, então sobram esguichos de sangue, de vômito e diálogos com sutileza zero.
Em alguns momentos, a série parece um pastiche do filme "Almas Gêmeas" , no qual o diretor Peter Jackson contava o relacionamento entre duas adolescentes apaixonadas (Melanie Lynskey e Kate Winslet) que acabam por assassinar os pais de uma delas. Mas, se Jackson conseguiu produzir uma obra pungente e sensível, sob a batuta de Murphy qualquer relação entre mulheres vira um exercício de fetichismo despropositado.
Ella Beatty não consegue fazer muito com a protagonista bidimensional que alterna suspiros e surtos. Vicky Krieps (a Alma dosublime "Trama Fantasma" ) interpreta a empregada da família e suposta parceira de Lizzie, Bridget, e é o ponto alto no elenco, mas tampouco recebeu qualquer esboço de desenvolvimento para sua personagem.
Rebecca Hall (a Vicky de " Vicky, Cristina Barcelona ") e Charlie Hunnam (que viveu Ed Gein) são duas caricaturas como a madrasta e o pai malvados da sonhadora Lizzie, ele o dono de uma funerária que vilipendia cadáveres, ela uma interesseira fútil e cruel.
Murphy e Brennan ainda costuram à história de Borden contos sobre a condessa húngara Elizabeth Báthory, que viveu no século 14 e que é apontada como uma das inspirações para a lenda de Drácula. O único propósito, contudo, é poder esguichar mais sangue na cara do espectador já empapuçado.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/lucianacoelho/2026/09/monstros-a-historia-de-lizzie-borden-e-teste-de-paciencia-e-estomago.shtml.

Veja fotos da série 'Monstro: A História de Lizzie Borden' — Foto: UOL
Compartilhe
Espalhe essa notícia

