Minerais críticos e terras raras ficam no centro da disputa eleitoral em Minas Gerais
Os diferentes entendimentos sobre terras raras e minerais críticos têm povoado os discursos não só de candidatos à presidência da República, mas também dos postulantes ao governo de Minas Gerais, estado que é considerado um dos principais polos de possível exploração desses materiais no Brasil. Leia mais (09/28/2026 - 04h00)

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Belo Horizonte Os diferentes entendimentos sobre terras raras e minerais críticos têm povoado os discursos não só de candidatos à presidência da República, mas também dos postulantes ao governo de Minas Gerais, estado que é considerado um dos principais polos de possível exploração desses materiais no Brasil.

O presidente Lula (PT), candidato à reeleição, tem traçado um discurso guiado pela noção de soberania nacional e de incentivo ao refino de minérios no país. O Palácio do Planalto conseguiu fazer prevalecer essa premissa no projeto de lei n.º 2.780/2024, que estabelece a Política Nacional de Minerais Críticos, Estratégicos e Terras Raras e foi sancionado em 16 de setembro .
Por outro lado, Flávio Bolsonaro ( PL ) tem feito acenos ao setor privado. Durante agenda de campanha em Belo Horizonte na última quinta-feira (24), o senador voltou a defender a ampliação do laboratório de terras raras mantido pela FIEMG (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais), o CIT Senait ITR (Centro de Inovação e Tecnologia SENAI do Instituto de Terras Raras).
O sistema foi adquirido pelo hoje candidato ao governo do Estado Flávio Roscoe (PL) em 2023 junto à Codemge (Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais, durante sua gestão como presidente da Fiemg.

O centro é o único da América Latina capaz de produzir ímãs permanentes em escala semi-industrial, com foco no desenvolvimento. O material é usado para fabricar veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos eletrônicos avançados.
"Minas Gerais tem aquilo que o mundo inteiro precisa hoje, que são terras raras. Então, eu pretendo, pelo governo federal, investir na expansão e atualização do laboratório que existe hoje na Fiemg", disse Flávio na semana passada.
O estado de Minas, historicamente ligado à indústria da mineração, é também um dos principais polos de extração dos minerais críticos e das terras raras.
Dados de 2025 da ANM (Agência Nacional de Mineração) apontam que Minas responde por 92,1% da produção nacional de concentrado de nióbio , um dos principais minerais ligados à transição energética.
O estado ainda ocupa posições relevantes com projetos de terras raras em Poços de Caldas e de mineração de lítio no Vale do Jequitinhonha .
O plano de governo de Flávio Bolsonaro dedica um tópico ao tema dos minerais críticos e defende, assim como a gestão petista, a agregação de valor desses minerais no país.
O documento afirma que o Estado "atuará como regulador e coordenador, não como empresário", mas também menciona a facilitação de acesso a crédito para financiar novos projetos relacionados, a aceleração de processos de licenciamento ambiental e de autorização para a exploração dos recursos, e o estabelecimento de parcerias internacionais "sem preconceitos ou ranços ideológicos".
A referência é uma alusão indireta à atuação da gestão petista frente ao tema, que tem tentado, nos últimos meses, se contrapor ao avanço do governo de Donald Trump sobre a exploração de terras raras no Brasil. Os recursos representam um dos principais motores da corrida estratégica e econômica em curso entre os Estados Unidos e a China .
A defesa de uma atuação estatal menos intervencionista é partilhada por Flávio Roscoe, que concorre ao Executivo estadual. Em evento promovido pela AMIG Brasil (Associação Brasileira dos Municípios Mineradores) em 19 de agosto, o empresário disse que pretende desenvolver a indústria brasileira sem colocar entraves para a exportação do ativo, o que, segundo ele, poderia contribuir para a manutenção da dependência, no país, de produtos chineses.
"Se tem alguém querendo comprar, eu vendo, e tento vender o mais caro possível, pelo bem dos brasileiros", disse Roscoe.
No final de agosto, também em Belo Horizonte, o presidente Lula reforçou a ideia de soberania nacional ao tratar sobre o tema. "Agora eu estou dizendo para a China , para os Estados Unidos , para a França e para a Itália : nós queremos cooperar com vocês, mas esses minerais têm que ser transformados no Brasil", disse o presidente.
O tópico, contudo, aparece de forma discreta no plano de governo do petista. O documento afirma que a gestão, caso reeleita, atuará para a promoção de uma estratégia regional de mapeamento, beneficiamento e agregação de valor desses minerais, evitando a mera exportação de matérias-primas, "para inserir o país de forma soberana nas cadeias globais de valor desses recursos", diz o texto.
No mesmo comício em Belo Horizonte, Patrus Ananias (PT), o segundo lugar nas intenções de voto ao Governo de Minas Gerais, reforçou a posição de Lula. "Foi assim no passado: mandamos todo o nosso ouro para Portugal, e de Portugal para a Inglaterra. Não pode ser assim com as terras raras", afirmou.
Ele defende uma industrialização desses recursos ao nível estadual, citando o respeito ao meio ambiente como uma condição.
Para André Pimenta, coordenador do Cit Senait ITR, a política de estado relacionada ao tema deveria também focar no fomento ao mercado consumidor, já que, atualmente, não há uma demanda real para os produtos fabricados a partir de minerais críticos e terras raras na economia interna brasileira.
"Se eu tenho que fomentar a tecnologia, tenho também que desenvolver um mercado que vá fazer a utilização desses materiais que serão produzidos aqui", afirma o coordenador, ressaltando que a simples restrição à exportação pode estrangular uma indústria ainda incipiente.
"Não é um trabalho fácil, porque teremos que concorrer com países que já estão nisso há 50, 60 anos, mas é possível, desde que a gente consiga coordenar as iniciativas", diz Pimenta. Ele projeta que esse cenário possa ser alcançado em cerca de duas décadas. Para isso, diz ser necessário superar gargalos em normativas, previsibilidade e regulação ambiental.
O tema aparece com diferentes ênfases nos planos de governo dos demais candidatos ao pleito estadual.
Cleitinho (Republicanos) , líder nas intenções de voto, cita que será desenvolvida "uma cadeia de maior valor agregado para terras raras e minerais estratégicos", sem detalhar estratégias para esse fomento, enquanto Alexandre Kalil (PDT) posiciona o recurso na esteira para o desenvolvimento articulado de novas cadeias industriais.
"O objetivo será evitar repetir no século 21 o modelo em que Minas fornece recursos e outros territórios concentram a tecnologia e a maior parcela do valor econômico", aponta o plano de governo do ex-prefeito de Belo Horizonte.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://c-level.folha.uol.com.br/infraestrutura/2026/09/minerais-criticos-e-terras-raras-ficam-no-centro-da-disputa-eleitoral-em-minas-gerais.shtml.

Instalações da mineradora Sigma Lithium entre os municípios de Araçuaí e Itinga, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais - Caio Guatelli - 6.nov.24/Folhapress · Caio Guatelli - 6.nov.24/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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