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    Militei, lucrei: a privatização das causas coletivas

    Vocês já repararam que cancelamentos no meio progressista viraram algo corriqueiro, uma dinâmica incorporada à nossa rotina, algo até esperado e tratado como natural? Linchamentos operados por gente que ergue a bandeira da justiça social fazendo justiçamento digital. O que nasceu como um projeto coletivo de emancipação, desenhado para transformar a realidade de minorias marginalizadas, tem sido manipulado por um punhado de gente que descobriu na indignação a melhor fonte de renda do mercado. Leia mais (08/14/2026 - 17h30)

    Folha de S.Paulo
    14 de agosto de 2026 às 20:30
    Militei, lucrei: a privatização das causas coletivas
    A imagem apresenta uma ilustração estilizada de uma mulher com cabelo ruivo e ondulado, segurando um objeto que emite luz, direcionada para uma sombra de uma figura masculina ao fundo. O fundo é de uma cor azul escura, e a luz projetada cri — Foto: Folha de S.Paulo

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    Vocês já repararam que cancelamentos no meio progressista viraram algo corriqueiro, uma dinâmica incorporada à nossa rotina, algo até esperado e tratado como natural? Linchamentos operados por gente que ergue a bandeira da justiça social fazendo justiçamento digital. O que nasceu como um projeto coletivo de emancipação, desenhado para transformar a realidade de minorias marginalizadas, tem sido manipulado por um punhado de gente que descobriu na indignação a melhor fonte de renda do mercado.

    Catarina Pignato · Catarina Pignato
    Catarina Pignato · Catarina Pignato — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    No ecossistema digital, elite não se mede por patrimônio ou sobrenome tradicional, mas por número de seguidores, alcance de algoritmo e poder de comandar linchamentos. Essa nova elite do engajamento tem sequestrado lutas legítimas e colocado em marcha o modelo de negócios mais descaradamente neoliberal do planeta: a dor tratada feito commodity, o próprio ego como marca e a militância resumida a uma chave Pix na bio.

    Repare que essas pessoas não estão nas galerias do Congresso pressionando parlamentares pela aprovação de leis urgentes, não estão nos bairros periféricos organizando trabalho de base e de conscientização e muito menos debatendo problemas sérios que afetam a população. A rotina dessa turma se resume a fiscalizar a linguagem alheia, apontar o dedo na tela e encontrar o próximo bode expiatório para jogar na fogueira da internet. Para essa engrenagem funcionar a pleno vapor, o progresso concreto é um péssimo negócio. Quanto mais desesperador e opressor o mundo parecer, mais rentável se torna o palco de quem vive de tocar sirenes do pânico moral.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A blindagem desse feudo é manjadíssima. Basta você apontar excessos para ganhar na hora o carimbo de reacionária ou de defensora de privilégios, desqualificando a moral de quem fala para fugir do incômodo de responder ao argumento. E essa crítica nem nasceu na direita. O filósofo Olúfémi O. Táiwò, professor da Universidade de Georgetown e autor de Elite Capture, explica que as elites capturaram o identitarismo e trocaram emancipação material por uma distribuição mesquinha daquilo que ele chama de bens de atenção, restritos a quem é privilegiado dentro das minorias.

    Vou mais longe. Como disse no começo, a elite nesse caso não tem nada a ver com a "esquerda caviar" ou a "esquerda cirandeira" , mas com aquela que se aproveita da culpa dessas duas para operar a máquina de destruição de reputações que rende likes, prestígio e Pix. É o neoliberalismo progressista que Nancy Fraser denuncia há décadas, a estética da revolução embalada para o individualismo corporativo.

    A grande sacada dessa máquina está na escolha dos alvos. Bater na extrema-direita por motivos óbvios não dá lucro na economia dos cliques, principalmente porque o adversário não se abala com os manifestos e receberá apoio daqueles que pensam da mesma forma. O filé mignon da patrulha é estraçalhar quem está do mesmo lado da trincheira. Queimar alguém situado no mesmo espaço do espectro político garante audiência imediata, funciona como prova caríssima de pureza ideológica –afinal, degolar um possível aliado que saiu da linha atesta fidelidade cega à seita– e ainda resolve a reserva de mercado, desocupando o espaço na disputadíssima fila por palcos, colunas, palestras.

    A Santa Inquisição já operava com essa lógica séculos antes de inventarem os algoritmos. A lenha da fogueira era gasta com o herege, o sujeito de dentro da paróquia que ousava divergir de um único dogma. É o narcisismo das pequenas diferenças que Freud explica: quanto mais próximos os grupos, mais feroz se torna o ódio pelo menor detalhe. Uma patrulha que passou a última década devorando seus próprios aliados nunca esteve combatendo o fascismo. Está só gerenciando uma disputa violenta pelo espólio da atenção revertida em dinheiro.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marilizpereirajorge/2026/08/militei-lucrei-a-privatizacao-das-causas-coletivas.shtml.

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    Catarina Pignato · Catarina Pignato — Foto: Folha de S.Paulo

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