Militares devem estar sob poder civil e longe da política
O Ministério da Defesa foi criado 14 anos depois do fim da ditadura e 11 anos depois da Constituição , desde logo sob a chefia de um civil. Sob Fernando Henrique Cardoso ( PSDB ), em 1999, as pastas da Marinha, do Exército e da Aeronáutica tornaram-se Comandos. Leia mais (10/08/2026 - 22h00)

Texto não assinado que expressa a opinião da Folha
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

O Ministério da Defesa foi criado 14 anos depois do fim da ditadura e 11 anos depois da Constituição , desde logo sob a chefia de um civil. Sob Fernando Henrique Cardoso ( PSDB ), em 1999, as pastas da Marinha, do Exército e da Aeronáutica tornaram-se Comandos.
Tudo se passou como se fosse necessário um longo período de distensão, apaziguamento e estabilização democrática para que o papel das Forças Armadas e dos militares fosse circunscrito, sem crises, ao de um serviço e de uma carreira de Estado.
A partir de 2018, no entanto, militares chegaram à chefia da Defesa. Em 2022, estavam outra vez envolvidos em tentativa de golpe. A possibilidade de que Flávio Bolsonaro ( PL ) venha a ser eleito presidente reaviva a questão militar, que se tornou crítica sob seu pai, Jair Bolsonaro .

Foi Michel Temer ( MDB ) quem nomeou o primeiro general para a Defesa. Presidente de popularidade ínfima, com mandato ameaçado, lidava com crises na segurança pública e com a greve dos caminhoneiros. Recorreu às Forças Armadas para operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), na tentativa de conter tumultos e violências. Fardados voltaram à vida pública.
Jair Bolsonaro, um capitão insidioso e na prática posto para fora do Exército, fez carreira política saudando a ditadura militar. Presidente, não apenas nomeou generais para a Defesa e outros ministérios como lotou cargos de confiança civis de seu governo com 6.157 integrantes da caserna. Expurgou os Comandos de seus desafetos e continuou a campanha de politização da tropa.
Arquitetou um golpe com o último general ocupante da Defesa de seu governo, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, e com o antecessor dele, Walter Braga Netto , condenados pela trama golpista com outros 17 militares. O crime só não foi levado adiante por causa da oposição dos Comandos do Exército e da Aeronáutica.

É inaceitável o mero risco de repolitização das Forças. A fim de que se contenha a ameaça de contágio da tropa e o incentivo à indisciplina, à quebra da hierarquia, à confraternização com paisanos criminosos, à subversão e, enfim, a intentonas, militares não podem chefiar a Defesa.
Além do mais, aqueles que venham a ser nomeados para postos civis nos três Poderes devem renunciar à carreira , assim como os fardados que queiram se candidatar em eleições —isso deveria estar fixado na legislação.
Jair Bolsonaro reativou em setores das tropas o vírus do intervencionismo e fez propaganda do autoritarismo armado. Seu mandato foi prova do efeito funesto imediato da militarização do governo e da partidarização das Forças Armadas.
O país democrático está de prontidão diante de ameaças de virar do avesso a Constituição. Será essencial que Flávio, como se noticia, tenha esse entendimento e, em um eventual mandato no Planalto, mantenha os fardados fiéis à sua missão constitucional.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/10/militares-devem-estar-sob-poder-civil-e-longe-da-politica.shtml.

Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, então ministro da Defesa, Jair Bolsonaro (PL) e Marco Antônio Freire Gomes, então comandante do Exército - Lucio Tavora - 25.ago.22/Xinhua · Lucio Tavora - 25.ago.22/Xinhua — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

