Milei tenta rearmar a Argentina com ajuda de Trump
Impopular e buscando a reeleição, presidente compra caças, blindados e helicópteros após décadas

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O apoio de Donald Trump à tentativa do aliado Javier Milei de reeleger-se presidente da Argentina em 2027 vai além do apoio retórico à demanda de Buenos Aires pelas ilhas britânicas Falkland, conhecidas na região como Malvinas.

O republicano tem sido peça central no projeto do argentino de rearmar seu país, após décadas de baixo investimento e descrédito das Forças Armadas. De caças a blindados, passando por helicópteros e munições, a Argentina vive uma pequena corrida armamentista.
O que não está claro é contra quem, dado que não há rivalidades regionais fora dos discursos inflamados de Milei contra Lula (PT) e em apoio a Flávio Bolsonaro ( PL ), rival do petista na disputa pelo Planalto.
Com a desaprovação em 58% segundo pesquisa de agosto, o presidente contou recentemente com declarações de Trump em favor da revisão do apoio americano à soberania de Londres sobre as Malvinas, um tema que rivaliza com a seleção de futebol em termos de mobilização na Argentina.

A guerra travada pelas ilhas em 1982, quando a moribunda ditadura as ocupou brevemente até ser expulsa, é um trauma nacional. Milei tenta repetir o truque como farsa, aumentando o tom de sua reivindicação até em discurso na ONU , anunciando uma base naval nova e propondo penas a quem explorar petróleo em torno do arquipélago.
Trump, por sua vez, usa a carta das Falkland para pressionar o Reino Unido, que considera um aliado titubeante sob os governos trabalhistas recentes, a gastar mais com defesa.
Antes disso, porém, ele já havia começado um processo de rearmamento inédito. O negócio mais vistoso é a compra de 24 caças americanos F-16 usados da Dinamarca, por US$ 300 milhões em cinco anos. O segundo lote de seis aviões deve chegar em breve.

A compra não fará da Argentina uma potência, mas ela não contava com Força Aérea operacional. A aquisição foi fechada com um país europeu, mas Trump poderia ter revisto a autorização de reexportação de material de defesa dada pelo antecessor, Joe Biden. Não o fez.
O republicano e Milei são aliados próximos, e o argentino se encaixa no perfil de líder previsto pela Estratégia de Segurança Nacional de Trump: alguém que compartilha seu ideário populista à direita.
Com efeito, a Argentina é integrante de primeira hora da iniciativa Escudo das Américas , grupo de países criado por Trump para assuntos de segurança que declarou o PCC e Comando Vermelho entes terroristas no mesmo dia em que o americano ameaçou novas ações militares na região.

Ainda mais importante que os caças foi o pacote de até US$ 940 milhões em armamentos e sistemas de apoio, comprados dos EUA. Há dúvidas sobre como esse valor será pago com o país ainda enfrentando uma grave crise econômica .
No ano passado, foi a vez do Exército negociar uma compra direta de oito unidades do avançado blindado sobre rodas Stryker , de largo emprego na Guerra da Ucrânia. Em agosto, assinou acordo para mais 235 unidades, sem custo revelado.
É mais poder de fogo do que toda a obsoleta frota de 231 modelos TAM (Tanque Argentino Médio) do país, que também está sendo modernizada. Como a guerra com o Brasil durante a rivalidade encerrada com o fim das ditaduras nos anos 1980 nunca veio, é de se questionar tal investimento.
Neste mês, mais uma compra dos EUA: quatro helicópteros Black Hawk por salgados US$ 140 milhões. A expectativa é que sejam, caso a remilitarização de Milei vá em frente, complementados por mais aparelhos.
Isso é incerto. Segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres, o país gastou em 2025 apenas 0,5% do PIB, ou US$ 3,7 bilhões, em defesa, incluindo inativos. É o 46º lugar no ranking global, e o 5º na América Latina . No Brasil, o dispêndio proporcional ao PIB é o dobro, e o valor nominal, sete vezes maior.
O ápice do gasto militar argentino na série histórica aferida pelo Banco Mundial, a partir de 1960, coincidiu com o zênite da mais recente ditadura : em 1978, o país empregou enormes 4,72% do PIB no setor.
Depois, as quedas foram paulatinas, acompanhando o fim da tensão com o Brasil, a criação do Mercosul e as seguidas crises econômicas. Desde 2004, o gasto nunca superou 1% do PIB, metade do preconizado pela Otan até o ano passado —hoje, a meta é 5% em dez anos.
Por ora, o Brasil apenas acompanha o processo. Segundo disse à Folha um integrante da cúpula militar, a defasagem argentina é muito grande e, mesmo que Milei viva às turras com Lula, nada disso se refletiu na relação entre os estamentos fardados dos vizinhos.
Se os F-16 dão a alguém a ilusão de que alguma ameaça mais concreta às Malvinas pode ocorrer, há hoje nas ilhas quatro caças Eurofighter Typhoon, que valem por muitos dos modelos americanos. Além disso, a Marinha argentina nunca se recuperou.
Hoje, só tem três fragatas, em condições desconhecidas, e seus dois submarinos estão parados. Milei colocou no Orçamento de 2027 uma autorização para iniciar o processo de compra de mais duas fragatas e três submarinos.
Desta vez, os favorecidos são os franceses do Naval Group, o que levanta a hipótese de fabricar os submersíveis nos estaleiros que produziram quatro modelos de propulsão convencional Scorpène para o Brasil, processo que acabou em 2025.
Novamente, tudo isso depende de o dinheiro existir. Trump já se mostrou generoso com o argentino antes: em 2025, aprovou um pacote de ajuda de US$ 20 bilhões, visto como central na vitória eleitoral de Milei e aliados no pleito legislativo de outubro.
A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/milei-tenta-rearmar-a-argentina-com-ajuda-de-trump.shtml.

Os primeiros seis F-16 da Argentina sobrevoam o obelisco da avenida 9 de Julho, em Buenos Aires - Luis Robayo - 6.dez.25/AFP · Luis Robayo - 6.dez.25/AFP — Foto: UOL
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