Migrantes vão continuar morrendo nas fronteiras enquanto a hipocrisia na Europa persistir
Sistema atual não é regulado nem humano; UE delega a Estados terceiros a gestão dos fluxos migratórios

Historiador, deputado na Assembleia da República de Portugal e ex-deputado no Parlamento Europeu; autor de 'Agora, Agora e Mais Agora'
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Já assisti a suficientes debates sobre imigração na Europa , a nível continental, nacional e municipal, para saber que eles são sempre iguais. Na retórica, toda a gente atribui ao outro lado as piores das intenções, ao mesmo tempo que toda a gente admite que a imigração é necessária e que deve ser regulada.
Pode haver quem pense que o número ideal para a imigração é zero, mas exceção feita a uma franja muito minoritária nas redes sociais, toda a gente admite que esse cenário não é possível nem desejável .
Pode haver quem ache que, no mundo ideal, haveria liberdade de circulação global, mas toda a gente admite que, no mundo real de hoje, os Estados continuam a precisar vigiar as suas fronteiras e saber quem entra e quem vive no país.

Teoricamente, as condições políticas existiriam para um quadro legal de migrações que fosse regulado, humanitário e europeu. E não seria impossível na prática, longe disso: durante décadas foi possível aplicar as convenções internacionais para refugiados e requerentes de asilo, por um lado, e instituir programas de imigração por razões de trabalho, estudo ou outras sem que o sistema rebentasse.
O que se passa agora, então? Na verdade, o sistema atual não é regulado nem humano e nem europeu. Na prática, tanto os Estados-membros quanto a própria União Europeia acabaram delegando a Estados terceiros da vizinhança a gestão dos fluxos migratórios nas suas fronteiras.
Esses outros países, que recebem muitos milhões para fazer o trabalho sujo que os europeus não querem ver, têm nas mãos uma enorme capacidade de chantagem, que têm usado ciclicamente, da Belarus à Turquia até à Líbia e a Marrocos .

Sabem perfeitamente que basta deixar passar uns quantos milhares de migrantes para provocar uma crise de nervos nos governos europeus e um efeito de polarização nas suas sociedades , divididas entre quem ainda tem empatia por quem busca uma vida melhor e o sentimento de pânico dos que temem o descontrole nas fronteiras. O resultado é sempre o mesmo: passado algum tempo, discretamente, os europeus acabam pagando mais, até a próxima crise nas fronteiras .
Se a situação é assim, por que não se cria um sistema com base em canais de migração legais, pelos consulados e representações diplomáticas europeias, mais humano para os migrantes e mais seguro para toda a gente, esvaziando o negócio das redes de tráfico de seres humanos?
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É que não são só os regimes dos países vizinhos, em geral autocráticos, a beneficiar com esta situação. São também os partidos e políticos europeus que se beneficiam com a polarização da opinião pública e com a retórica anti-imigração. Esses mesmos políticos, na verdade, são os que sabem precisar da mão de obra e que acabam legalizando-a mais ou menos discretamente, de tempos a tempos.
Se fosse politicamente vantajoso explicar aos europeus que pode haver um sistema migratório bom para ambas as partes, regulado, legal, seguro e humano, montar o sistema na prática seria a parte menos difícil. Mas, enquanto a hipocrisia continuar a render mais, vão continuar a morrer pessoas nas fronteiras, e as opiniões públicas a ser incendiadas.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rui-tavares/2026/08/migrantes-vao-continuar-morrendo-nas-fronteiras-enquanto-a-hipocrisia-na-europa-persistir.shtml.

Imigrantes marroquinos na região de fronteira do território espanhol de Ceuta, onde militares da Espanha fazem patrulha - Henry Nicholls - 2.ago.26/AFP · Henry Nicholls - 2.ago.26/AFP — Foto: UOL
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