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    Michel Melamed cria comédia musical debochada sobre a criatividade

    A sinopse, o programa da peça e talvez esta reportagem não sejam suficientes para explicar "O Funcionário que Pede para Não Ser Identificado" , espetáculo escrito e dirigido por Michel Melamed, em cartaz no Teatro Anchieta, no Sesc Consolação. Leia mais (08/16/2026 - 13h00)

    Folha de S.Paulo
    16 de agosto de 2026 às 16:00
    Michel Melamed cria comédia musical debochada sobre a criatividade
    Quatro adultos em pé usam fantasias volumosas e coloridas com formas geométricas e orgânicas, em um ambiente interno com parede desgastada ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo

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    A sinopse, o programa da peça e talvez esta reportagem não sejam suficientes para explicar "O Funcionário que Pede para Não Ser Identificado" , espetáculo escrito e dirigido por Michel Melamed, em cartaz no Teatro Anchieta, no Sesc Consolação.

    Elenco do espetáculo 'O Funcionário que Pede para Não Ser Identificado' - Bruna Sussekind/Divulgação · Bruna Sussekind/Divulgação
    Elenco do espetáculo 'O Funcionário que Pede para Não Ser Identificado' - Bruna Sussekind/Divulgação · Bruna Sussekind/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A comédia musical à capela aborda o fim da criatividade em um fictício setor de registro e produção de obras artísticas, um espaço burocrático onde os projetos precisam ser aprovados com uma funcionária frustrada e pronta para distribuir respostas negativas às ideias alheias.

    É uma crítica aos sistemas que regulamentam a existência da arte , como os governos, o mercado, os algoritmos, as métricas das redes sociais e a ameaça sedutora da inteligência artificial, em meio a muitas negociações e ao desespero pela sobrevivência.

    Mas não só isso. O espetáculo debocha dos próprios artistas com seus clichês e ares de genialidade, enquanto disputam recursos de patrocínios, editais e a aprovação geral. Sobra também para o público, que nem sempre sabe o que quer e, às vezes, é capaz de estragar uma apresentação.

    Veja cenas do espetáculo 'O Funcionário Que Pede Para Não Ser Identificado'
    Veja cenas do espetáculo 'O Funcionário Que Pede Para Não Ser Identificado' — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "A peça não poupa ninguém", diz Melamed, apesar da defesa da imaginação contra as forças que a sufocam. "A vida exige reinvenção, e a arte pode ser o espaço onde outras formas de existência são imaginadas, experimentadas e compartilhadas. Artistas expandem o repertório do impossível".

    "O Funcionário que Pede para Não Ser Identificado" fez temporada no Rio de Janeiro antes de estrear em São Paulo e nasceu como ideia para uma série que não foi produzida. O espetáculo foi pensado inicialmente para um elenco com dois homens e duas mulheres, mas depois a produção optou por seguir com quatro atrizes-cantoras em cena —Inez Viana, Simone Mazzer, Thalma de Freitas e Yasmin Gomlevsky.

    "Tem que ser mulheres", diz o autor, também compositor da trilha. "Por eu querer trabalhar com mulheres, porque o espaço das mulheres na sociedade é um tema importante e urgente a ser tratado, e porque a peça começa com quatro personagens que eu sempre brinquei de chamar de moiras."

    A atriz Thalma de Freitas na estreia do espetáculo 'O Funcionário que Pede para Não Ser Identificado', de Michel Melamed, no Sesc Consolação - Ronny Santos - 6.ago.26/Folhapress · Ronny Santos - 6.ago.26/Folhapress
    A atriz Thalma de Freitas na estreia do espetáculo 'O Funcionário que Pede para Não Ser Identificado', de Michel Melamed, no Sesc Consolação - Ronny Santos - 6.ago.26/Folhapress · Ronny Santos - 6.ago.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A referência é às irmãs da mitologia grega que tecem o destino de deuses e mortais. E o nome da peça vem do jargão jornalístico para fontes que falam "em off" .

    "Achei que havia uma graça toda própria em chamar uma peça de ‘O Funcionário que Pede para Não Ser Identificado’ e não existe o funcionário. Existem quatro funcionárias", diz Melamed.

    As quatro se revezam nas interpretações da burocrata que rejeita os projetos; da que está sempre pronta para considerar tudo absolutamente incrível e das artistas que defendem as suas ideias para conseguir o registro no departamento.

    Pessoa vestida com fantasia colorida, incluindo chapéu alto verde, asas verdes, vestido vermelho com mangas azuis e saia amarela. Expressão facial mostra surpresa ou susto.
    Pessoa vestida com fantasia colorida, incluindo chapéu alto verde, asas verdes, vestido vermelho com mangas azuis e saia amarela. Expressão facial mostra surpresa ou susto. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em um momento aplaudido em cena aberta pelo público, elas fazem alusão às próprias carreiras artísticas —Thalma de Freitas canta um fragmento de "Cordeiro de Nanã", Yasmin Gomlevsky recorre ao dramático Édipo e Inez Viana faz um número de humor sobre a relação de uma atriz com a mãe interesseira . Em outra cena, Simone Mazzer cria um clima de cabaré parecido com o de seus shows.

    Elas são interrompidas por uma irritante campainha associada à burocrata pouco interessada em um show de talentos. Em plena crise de criatividade, ela ousa repreender até mesmo Tarsila do Amaral e Machado de Assis , com sugestões amarguradas para as obras-primas dos dois.

    A peça experimenta uma pluralidade de linguagens, o que é traduzido em figurinos e cenários apresentados como peças de uma mostra de arte e na iluminação —com mudanças abruptas entre os tons de luz branca, fria, e a de vapor de sódio, em tom amarelo, mais aconchegantes. "Uma das propostas é pensar as linguagens artísticas que compõem a obra de uma maneira que elas tenham auto-expressão", diz o diretor.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Há também a intenção de oferecer interpretações múltiplas do que acontece no palco. Segundo Melamed, uma das estratégias para desestabilizar o público é a sobreposição de estéticas.

    Os figurinos foram criados com as cores primárias, significativas na arte moderna e também presentes nos brinquedos infantis. Os artistas Maika Mano e Penha Maia imaginaram puffs tridimensionais que transformam os corpos em novos formatos.

    "As atrizes representam as personagens, mas também símbolos, desenhos e volumes abstratos. Pinturas que ganharam volume, esculturas em movimento, cenografias portáteis", diz Melamed.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Assim, a peça busca afrontar o movimento da ultradireita, que atua com a lógica da simplificação e do combate aos inimigos, na visão do criador. "A gente quer fazer o contrário, complexificar", ele afirma sobre a profusão de acontecimentos.

    Apesar disso, tenta não abrir mão da comunicação com o público por meio de uma comédia recheada de trocadilhos, marcada pelas gargalhadas da plateia —inclusive quando aponta o excesso de artistas no mundo, na visão dos extremistas que enxergam a criatividade como ameaça.

    As atrizes dizem ter recebido o texto com incerteza sobre como contar a história proposta, em uma dramaturgia publicada em livro pela editora Cobogó, com prefácio de Zico —foi a primeira vez que o ex-jogador foi convidado para apresentar uma obra não esportiva.

    "Encontramos um caminho com o Michel. É difícil de fazer, mas é muito bom", afirma Simone Mazzer. "Talvez seja a peça mais difícil e mais encantadora que eu já fiz na vida", diz Inez Viana. "É um jeito muito radical de arte; ele não faz concessão."

    De origens diferentes, as quatro atrizes dizem ter chegado a um entrosamento nos bastidores e no palco, onde lidam com o desafio físico de seguir o ritmo preciso da encenação.

    "Eu tive que subir um sarrafo, tipo quatro degraus", diz Thalma de Freitas sobre sair da zona de conforto para decorar o texto e contracenar com as companheiras de elenco.

    "Ela é fisicamente desafiadora, tudo é milimetricamente apertado. Tem desenho, timing de comédia, temos que contar a história com muitos desafios ao mesmo tempo", diz Yasmin Gomlevsky, a mais jovem do elenco, aos 33.

    Melamed estreou no palco da poesia falada e performática no CEP 20.000 , movimento criado pelos poetas Chacal e Guilherme Zarvos, no Rio do início da década de 1990. Desde então, busca levar a percepção poética para todas as suas experiências artísticas.

    "É isso o que o poema faz. O poema surpreende, revela algo que não existia. E isso está em todas as linguagens e tem que estar na vida das pessoas."

    O programa da peça foi organizado em formato de projeto para edital, com apresentação, objetivo, justificativa, público-alvo, cartas de anuência e orçamento. Neste último item, a resposta é mais uma provocação: "Rasgue como quiser".

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/michel-melamed-cria-comedia-musical-debochada-sobre-a-criatividade.shtml.

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    Elenco do espetáculo 'O Funcionário que Pede para Não Ser Identificado' - Bruna Sussekind/Divulgação · Bruna Sussekind/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo

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