Brasil

    Mercado de trabalho chega à eleição de 2026 com avanços e impasses

    O Brasil chega às vésperas das eleições de 2026 com um cenário diferente no mercado de trabalho do que se viu em 2022: desemprego em mínimas históricas e recordes de ocupação, empregos com carteira assinada e rendimento salarial, mas com desafios para o presidente a ser eleito. Leia mais (09/26/2026 - 13h00)

    Folha de S.Paulo
    26 de setembro de 2026 às 16:00
    Mercado de trabalho chega à eleição de 2026 com avanços e impasses
    Motociclista com colete refletivo e boné preto está parado em motocicleta azul em via movimentada. Capacete decorado está pendurado no guidão, e prédios residenciais e comerciais aparecem ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    O Brasil chega às vésperas das eleições de 2026 com um cenário diferente no mercado de trabalho do que se viu em 2022: desemprego em mínimas históricas e recordes de ocupação, empregos com carteira assinada e rendimento salarial, mas com desafios para o presidente a ser eleito.

    O motoboy Felipe Zuppo, 38, que trabalha com entrega desde 2012; ele tinha carteira assinada, teve de migrar para aplicativos e diz lutar para ter direitos trabalhistas - Allison Sales/Folhapress · Allison Sales/Folhapress
    O motoboy Felipe Zuppo, 38, que trabalha com entrega desde 2012; ele tinha carteira assinada, teve de migrar para aplicativos e diz lutar para ter direitos trabalhistas - Allison Sales/Folhapress · Allison Sales/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Informalidade ainda perto de 40% da mão de obra, expansão do trabalho por aplicativos ( uberização ), pejotização , efeitos da inteligência artificial (IA) sobre vagas de entrada , corrosão da Previdência com longevidade acelerada e descompasso entre formação e o que o mercado necessita são os principais pontos citados por especialistas ouvidos pela Folha .

    Dados da Pnad Contínua, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostram que o Brasil tinha, no trimestre terminado em julho, 5,3% de desemprego, menor taxa para esse período na série histórica, iniciada em 2012. No mesmo intervalo de 2022, o patamar estava em 9,1%.

    Em 2026, o nível de ocupação bateu recorde para o trimestre até julho (58,9%), enquanto o número de empregados com carteira no setor privado chegou a 39,4 milhões —o maior de toda a série.

    A comunicadora Nicole Guedes, 22, formou-se em universidade pública após conseguir vaga pelo Enem, mas ao voltar para SP, conseguiu emprego em outra área; comemora por ser CLT, com benefícios - Karime Xavier/Folhapress · Karime Xavier/Folha
    A comunicadora Nicole Guedes, 22, formou-se em universidade pública após conseguir vaga pelo Enem, mas ao voltar para SP, conseguiu emprego em outra área; comemora por ser CLT, com benefícios - Karime Xavier/Folhapress · Karime Xavier/Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Para a economista Janaína Feijó, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), a melhora quantitativa convive com desafios qualitativos agravados pela desaceleração da economia e pelos juros altos. "O mercado está desacelerando. Se [o país] não cuidar da parte macrofiscal, todos os ganhos podem ser exauridos e, mesmo que haja cuidado, não vamos voltar a ver essas mínimas."

    Para ela, a plataformização do trabalho, com diferenças entre entregadores de delivery e motoristas de aplicativo que transportam passageiros, é um dos grandes desafios de quem for eleito. "A principal questão que nós economistas temos percebido é que a reforma trabalhista de 2017 foi insuficiente para cobrir essa modalidade. Uma parte desses trabalhadores está totalmente descoberta", diz.

    Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões

    Mulher de cabelos longos e escuros usa óculos e suéter listrado em preto, branco e cinza. Ela está parcialmente iluminada por um feixe de luz diagonal, com o restante do fundo em sombra escura.
    Mulher de cabelos longos e escuros usa óculos e suéter listrado em preto, branco e cinza. Ela está parcialmente iluminada por um feixe de luz diagonal, com o restante do fundo em sombra escura. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O motoboy Felipe Zuppo, 38, trocou o emprego com carteira pelo trabalho em aplicativos com a chegada das plataformas e participou, em 2023, de grupo no governo Lula (PT) que não chegou a consenso sobre a regulação da profissão.

    "Esperava que o governo fosse mais duro, mas é um lobby gigantesco. A lei não foi como gostaríamos. Nós somos trabalhadores e ficamos sem direitos trabalhistas. A gente não quer ser CLT, mas queriam transformar a gente em trabalhador plataformizado, pela lei cível. Passar lei só por passar não dá", diz.

    Janaína vê no MEI (Microempreendedor Individual), criado para formalizar pequenos negócios e incluir trabalhadores no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), uma bomba fiscal: segundo ela, acolhe não contratados pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) com contribuição de 5% do salário mínimo.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ela aponta ainda o descompasso entre formação, demanda empresarial e desigualdade. "É ruim a gente pensar que teria de fazer um curso apenas porque o mercado está demandando, mas no mercado existe a questão da demanda e da oferta", diz. "Networking importa muito, e pessoas de comunidade não têm esse networking."

    A comunicadora social Nicole Guedes de Andrade Suvires, 22, é atendente em uma rede de pet shop no ABC paulista. Embora buscasse vaga na sua área de formação, diz estar feliz pois ficou um tempo desempregada. Durante dois anos, foi PJ. "Eu gostava de ser PJ pela flexibilidade do horário. Agora, trabalho 6x1, mas tenho benefícios."

    Na visão do economista Rodolpho Sartori, da consultoria Buysidebrazil, o mercado de trabalho mudou e parece ter ficado mais resistente a choques no Brasil. Isso, segundo ele, é ilustrado pela força dos indicadores mesmo em um cenário de desaceleração da economia sob juros altos neste ano.

     Programar investimentos é estratégia psicológica e traz mais disciplina financeira
    Programar investimentos é estratégia psicológica e traz mais disciplina financeira — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Para Sartori, há hipóteses que podem explicar a resiliência dos números, incluindo a flexibilização trazida pela reforma trabalhista de 2017 e o surgimento de ocupações como as associadas a aplicativos de serviços.

    O quadro contribui para a redução do desemprego e para a geração de renda, mas não afasta desafios estruturais do país, pondera Sartori. Um deles é como absorver trabalhadores com maiores níveis de qualificação.

    "É aquela história do engenheiro que virou motorista de Uber. É um meme, mas é verdade", diz.

    A taxa de informalidade, que mede o percentual da mão de obra que atua sem carteira ou sem CNPJ, foi de 37,5% no trimestre até julho. O percentual já chegou a marcar mais de 40% na série histórica.

    Uma das categorias com informalidade mais elevada é a dos trabalhadores de aplicativos de serviços. Em 2025, o Brasil tinha cerca de 2 milhões de pessoas exercendo o trabalho principal ou secundário por meio dessas ferramentas, segundo módulo anual da Pnad Contínua divulgado neste mês pelo IBGE.

    Entre os profissionais que utilizavam as plataformas no trabalho principal, a flexibilidade foi o motivo mais apontado para o uso (26,8%). Falta de outro emprego (24,6%) e rendimento maior do que em outros trabalhos disponíveis (20,8%) vieram na sequência.

    Lula (PT) : ampliar a proteção trabalhista, manter a política de valorização do salário mínimo, combater a pejotização e regulamentar o trabalho em plataformas, com direitos, remuneração, transparência algorítmica e cobertura previdenciária. Defende o fim da escala 6x1 , jornada de 40 horas sem redução salarial, requalificação e mudanças no financiamento da Previdência.

    Flávio Bolsonaro (PL) : reduzir gradualmente o custo do trabalho, priorizar beneficiários do Bolsa Família em emprego e qualificação e criar contratos mais baratos para jovens de 18 a 24 anos e desempregados a partir de 50 anos.

    Romeu Zema (Novo): regime alternativo à CLT, com negociação de jornada, remuneração e férias, jornada diária acima de oito horas e limite de 44 semanais, e menos encargos.

    Ronaldo Caiado (PSD): ensino técnico, requalificação, currículos para IA, automação, dados e cibersegurança.

    Augusto Cury (Avante): empreendedorismo contra o desemprego da IA e transformar o Bolsa Família em porta de entrada no mercado.

    Renan Santos (Missão): sem propostas específicas para o mercado de trabalho, mas defende liberdade para o crescimento de negócios.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    De 2ª a 6ª pela manhã, receba o boletim gratuito com notícias e análises de economia

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/09/mercado-de-trabalho-chega-a-eleicao-de-2026-com-avancos-e-impasses.shtml.

    Imagem 1
    1 / 5

    O motoboy Felipe Zuppo, 38, que trabalha com entrega desde 2012; ele tinha carteira assinada, teve de migrar para aplicativos e diz lutar para ter direitos trabalhistas - Allison Sales/Folhapress · Allison Sales/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)