Brasil

    Memória do 11/9 segue viva nos EUA, mas terrorismo doméstico preocupa mais os americanos, mostram pesquisas

    Quando Javed Ali dirigia para o trabalho na manhã de 11 de setembro de 2001, as primeiras notícias de um avião atingindo o World Trade Center já ecoavam no rádio . Meia hora antes de o terceiro avião sequestrado atingir o Pentágono, ele passou de carro bem próximo do local. Leia mais (09/11/2026 - 14h16)

    Folha de S.Paulo
    11 de setembro de 2026 às 17:16
    Memória do 11/9 segue viva nos EUA, mas terrorismo doméstico preocupa mais os americanos, mostram pesquisas
    Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Quando Javed Ali dirigia para o trabalho na manhã de 11 de setembro de 2001, as primeiras notícias de um avião atingindo o World Trade Center já ecoavam no rádio . Meia hora antes de o terceiro avião sequestrado atingir o Pentágono, ele passou de carro bem próximo do local.

    Pentágono em chamas após ser atingido por um dos aviões sequestrados nos atentados de 11 de setembro de 2001, em Arlington, na Virgínia - Stephen Jaffe - 11.set.2001/AFP · Stephen Jaffe - 11.set.2001/AFP
    Pentágono em chamas após ser atingido por um dos aviões sequestrados nos atentados de 11 de setembro de 2001, em Arlington, na Virgínia - Stephen Jaffe - 11.set.2001/AFP · Stephen Jaffe - 11.set.2001/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Não viu o impacto, mas viu a fumaça subir do prédio, perto do escritório. "Não me lembro de muita coisa sobre 10 de setembro, mas me lembro de tudo sobre o dia inteiro de 11 de setembro", afirmou à Folha .

    A memória permanece vívida para Ali, então com 33 anos, como para grande parte dos americanos: pesquisa do Pew Research Center mostra que, 25 anos depois, 83% dos adultos nascidos antes da data —e 93% dos que tinham mais de dez anos na época— lembram exatamente onde estavam e o que faziam ao saber da notícia.

    Os atentados provocaram medo, raiva e tristeza generalizados, com amplo apoio a uma resposta militar contra os responsáveis. Mudou, porém, a origem do perigo mais temido: se o 11 de Setembro cristalizou o medo de um ataque estrangeiro, hoje o terrorismo doméstico supera o externo na preocupação pública.

    25 anos dos atentados de 11 de Setembro
    25 anos dos atentados de 11 de Setembro — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Pesquisa Reuters/Ipsos de agosto mostra que 33% apontam o terrorismo doméstico como maior ameaça, ante 20% que citam o estrangeiro —42% citam atos aleatórios de violência, como ataques a tiros. Em 2013 a relação era inversa: 21% viam a ameaça doméstica como maior, e 28%, a estrangeira.

    Para Ali, isso reflete uma mudança real na natureza da ameaça: ataques recentes nos EUA vêm sendo cometidos por americanos radicalizados, agindo sozinhos e sem treinamento externo.

    "O terrorismo ainda está conosco. Vinte e cinco anos depois do 11 de Setembro, ele apenas parece diferente", disse. Professor da Universidade de Michigan desde 2018, Ali acompanhou essa transformação: entre 2002 e 2018 trabalhou na Agência de Inteligência de Defesa (DIA), no Departamento de Segurança Interna (DHS) e no FBI , e ocupou cargos na área de combate ao terrorismo.

    Veja fotos do 11 de Setembro
    Veja fotos do 11 de Setembro — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ele recorda que o 11 de Setembro destruiu a sensação de segurança consolidada nos EUA após a Guerra Fria —o país era a potência militar dominante e, protegido por dois oceanos, não se imaginava um ataque estrangeiro daquela dimensão.

    "Os ataques do 11 de Setembro romperam essa noção de segurança", afirmou. Pessoalmente, diz não ter sentido medo —estava prestes a iniciar carreira no combate ao terrorismo—, mas acredita que o sentimento marcou a população, tornando o terrorismo uma questão política dominante até a ascensão do Estado Islâmico, mais de uma década depois.

    No fim da tarde do dia dos ataques, ao deixar o escritório, dirigiu praticamente sem encontrar carros. "Era como estar em um filme de apocalipse zumbi", disse. "Parecia que a humanidade tinha sido eliminada, ou que uma cidade inteira tinha sido eliminada, e eu era o único sobrevivente."

    Veja imagens da base de Guantánamo
    Veja imagens da base de Guantánamo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A resposta americana incluiu, entre outras medidas, a criação da TSA, agência focada no reforço da segurança do sistema de transportes dos EUA, sobretudo nos aeroportos, e do Departamento de Segurança Interna (DHS), mudanças que, para Ali, ajudaram a impedir um novo ataque da mesma dimensão.

    Ele ingressou no DHS pouco depois de sua criação, encarregado de proteger infraestruturas que poderiam se tornar alvos. "Não sabíamos: a Al Qaeda atacaria barragens, estações de tratamento de água, a rede de energia, reatores nucleares? Depois do 11 de Setembro, não podíamos descartar nada."

    Washington também usou seu poder militar contra grupos terroristas. A invasão do Afeganistão derrubou o regime Talibã , que abrigava a Al Qaeda , e forças americanas atuaram em outros países contra grupos jihadistas. Para Ali, a pressão era necessária, pois a organização seguia tentando se adaptar.

    Os 20 anos de ocupação americana no Afeganistão
    Os 20 anos de ocupação americana no Afeganistão — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A ausência de outro atentado estrangeiro em escala semelhante é, para o especialista, um dos principais resultados do aparato construído após 2001. Mas esse sucesso veio acompanhado de decisões que Ali hoje considera equivocadas —caso de Guantánamo, criada para manter suspeitos de terrorismo fora do sistema criminal convencional dos EUA.

    Vinte e cinco anos depois, os processos contra os acusados de planejar os atentados seguem sem conclusão , diz Ali. "Usar Guantánamo acabou sendo a decisão errada."

    Ele também questiona os programas de detenção e interrogatório do governo George W. Bush , que submeteram suspeitos a técnicas como o afogamento simulado, e os programas secretos de vigilância da NSA, entre eles a coleta em massa de registros telefônicos de americanos.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Qual foi o valor disso?", questionou. "Sim, podemos ter a capacidade de fazer essas coisas, mas elas produzem os resultados que estamos procurando? E quais são os custos associados a isso?"

    Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo

    A avaliação, diz, precisa considerar também as guerras que se seguiram aos ataques e que a invasão do Iraque foi "outro erro", já que não houve evidência de participação do país nos atentados de 11 de Setembro.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    As guerras desencadeadas após aqueles ataques mataram milhares de militares americanos, deixaram dezenas de milhares de feridos e tiveram consequências duradouras para a saúde física e mental de veteranos, além do grande número de civis mortos nos países atingidos. Os custos financeiros das guerras pós-2001 são estimados em trilhões de dólares.

    Para Ali, a natureza da ameaça terrorista também mudou. O risco hoje vem menos de organizações estrangeiras enviando integrantes treinados aos Estados Unidos e mais de pessoas já no país que se radicalizam e agem por conta própria. Isso ajuda a explicar, segundo ele, uma maior preocupação com ameaças internas.

    "Daqui a dez ou 20 anos, será diferente? Ninguém sabe", afirmou. "O terrorismo é uma questão e um desafio permanentes. Ele apenas assume formas diferentes em períodos diferentes."

    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Semanalmente, os principais fatos do globo, explicados de forma leve e interessante

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/memoria-do-119-segue-viva-nos-eua-mas-terrorismo-domestico-preocupa-mais-os-americanos-mostram-pesquisas.shtml.

    Imagem 1
    1 / 8

    Pentágono em chamas após ser atingido por um dos aviões sequestrados nos atentados de 11 de setembro de 2001, em Arlington, na Virgínia - Stephen Jaffe - 11.set.2001/AFP · Stephen Jaffe - 11.set.2001/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)