Memória compartilhada, urna dividida em Israel
Três anos após a tragédia de 7 de Outubro e a menos de três semanas das eleições , Israel se vê diante de um profundo paradoxo político. Leia mais (10/07/2026 - 17h04)

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Colaboradora do Instituto Brasil-Israel, é diplomata israelense aposentada; trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo
Três anos após a tragédia de 7 de Outubro e a menos de três semanas das eleições , Israel se vê diante de um profundo paradoxo político.
Embora a maioria da população atribua à liderança do país a responsabilidade pelo colapso daquela data, a crítica não se traduz em consenso nas urnas nem em convergência em torno de uma alternativa de poder.

A tragédia, ao que parece, transformou-se em uma memória nacional compartilhada, mas a conclusão política extraída dela permanece fraturada e dividida.
Os dados reforçam o paradoxo. Na mais recente pesquisa do Canal 12 de Israel, 65% do público atribui a Netanyahu alto grau de responsabilidade pelo ocorrido. Entre os eleitores dos partidos da coalizão, porém, o percentual despenca para 27%.
A diferença indica que a ruptura opera dentro de um sistema de identidades e lealdades políticas rígidas que já existiam antes dela. O 7 de Outubro não apagou os campos políticos, tampouco criou novo universo conceitual; em vez disso, conferiu um significado diferente e crítico aos valores e questões que já mobilizavam o eleitor israelense.

Agora, a percepção da segurança está vinculada ao grau de confiança, o serviço público é medido pela equidade, a economia é avaliada em relação ao custo da guerra , e a democracia é testada pela capacidade de aprender e corrigir. As eleições de 27 de outubro serão realizadas dentro dessa matriz de considerações.
Outra evidência: na pesquisa de setembro do Instituto Israelense de Democracia, 68% dos entrevistados afirmaram que os acontecimentos de 7 de Outubro são centrais em sua decisão de voto. Mas esse número não aponta para uma única direção política.
O mesmo acontecimento pode fortalecer a exigência de mudança de governo e, na mesma medida, consolidar o apoio à continuidade do emprego da força ou reforçar a fidelidade a um líder percebido como alguém que se mantém firme diante da pressão internacional.

Ou seja, não basta perguntar o que os israelenses lembram: é preciso entender como escolhem interpretar essa memória. Nesse contexto, o Índice de Segurança Nacional do think tank INSS de setembro revela que 61% da população manifestam satisfação com a condução da guerra pelas forças armadas de Israel, contra apenas 34% que dizem o mesmo em relação ao governo.
É nesse espaço de ruptura que se trava a disputa política. Netanyahu procura sustentar sua posição com base na experiência e nas conquistas militares. Seus adversários, por sua vez, colocam uma questão mais fundamental: quem carrega a responsabilidade pelo fracasso de 7 de Outubro pode ou merece ser também quem conduzirá a reconstrução dos sistemas que colapsaram sob sua liderança?
A partir dessa ruptura, também a antiga controvérsia sobre o recrutamento dos ultraortodoxos assume novos contornos, e cada vez mais passa a ser uma exigência existencial por uma distribuição justa dos riscos e dos encargos. Para uma parcela significativa dos eleitores, a questão do recrutamento tornou-se um dos principais fatores na decisão de voto.

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Por fim, a economia tampouco está alheia à guerra. O custo de vida, que aumentou significativamente ao longo dos últimos três anos, também preocupa os eleitores . Apesar de sinais de recuperação da atividade e desaceleração da inflação apontados pelo Banco de Israel, a estabilidade macroeconômica não garante bem-estar em cada lar e a experiência de desgaste vivida pelo indivíduo também molda a disputa política.
O verdadeiro teste de 27 de outubro não é apenas quem será eleito. Uma mudança de liderança é condição para abrir a possibilidade de correção, mas não constitui, por si só, a correção.

A questão crucial que se coloca diante de Israel é se o país será capaz de transformar essa profunda ruptura em um novo consenso nacional sobre responsabilidade, repartição de encargos e regras do jogo, ou se continuará a compartilhar a dor da tragédia sem construir a confiança necessária para se reerguer dela.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/10/memoria-compartilhada-urna-dividida-em-israel.shtml.

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