Mata atlântica é a primeira linha de defesa climática contra o El Niño
O novo El Niño ainda está a milhares de quilômetros da costa brasileira, mas seus efeitos já começam a mobilizar governos, especialistas e setores econômicos. A Noaa, agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, confirmou recentemente a formação do fenômeno e estima 63% de probabilidade de que ele atinja intensidade muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027. Leia mais (08/26/2026 - 08h00)

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Diretor-executivo da Fundação SOS Mata Atlântica e membro da Rede Folha de Empreendedores Sociais
O novo El Niño ainda está a milhares de quilômetros da costa brasileira, mas seus efeitos já começam a mobilizar governos, especialistas e setores econômicos. A Noaa, agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, confirmou recentemente a formação do fenômeno e estima 63% de probabilidade de que ele atinja intensidade muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027.
Para o Brasil, a pergunta decisiva é como seus efeitos encontrarão um país profundamente desigual, urbanizado e vulnerável a enchentes, deslizamentos, secas e crises hídricas.

Sua economia é altamente dependente do clima e dos recursos naturais , tanto para a produção agropecuária quanto para a geração de energia. E a resposta para essa questão passa necessariamente pela mata atlântica .
O bioma ocupa cerca de 15% do território nacional, está presente em 17 estados e abriga mais de 70% da população brasileira. É também onde se concentra grande parte da infraestrutura econômica do país, metade da produção agropecuária e de alimentos e 9 das 12 regiões hidrográficas brasileiras.
Quando eventos climáticos extremos acontecem, causam grandes impactos justamente na região onde vivem, trabalham e circulam a maioria dos brasileiros.

Costumamos tratar a floresta como patrimônio ambiental ou reserva de biodiversidade. Ela também é isso, mas exerce uma função menos visível e igualmente estratégica: atua como um sistema natural de proteção e adaptação. A mata atlântica é uma das nossas linhas de defesa climática.
Florestas ajudam a regular a temperatura, protegem nascentes, favorecem a infiltração da água no solo, reduzem processos erosivos e contribuem para a estabilidade de encostas.
Em períodos de chuva intensa, amortece o escoamento superficial que alimenta enchentes e deslizamentos. Em estiagens, colaboram para manter a disponibilidade hídrica. Não impedem eventos extremos, mas diminuem sua capacidade de causar danos e aumentam a velocidade para se recuperar.
Mas a mata atlântica chega a este novo ciclo de extremos climáticos muito fragmentada. Restam cerca de 24% de sua cobertura florestal original, sendo que pouco mais da metade disso (12,4%), corresponde a florestas maduras, justamente as áreas de maior importância para a biodiversidade e o estoque de carbono.
A boa notícia é que há sinais de resposta. Em 2025, o SAD (Sistemas de Alertas de Desmatamento) Mata Atlântica registrou queda de 28% no desmatamento, de 53.303 para 38.385 hectares.
O Atlas dos Remanescentes Florestais, feito pela SOS Mata Atlântica e pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), apontou redução de 40% na supressão de florestas maduras, que ficou abaixo de 10 mil hectares anuais pela primeira vez em quatro décadas.
Essa trajetória, porém, não elimina o risco. A fragmentação reduz a capacidade da floresta de exercer plenamente seus serviços ecossistêmicos e torna os territórios mais vulneráveis. O desafio, além de evitar novos desmatamentos, é reconstruir conexões ecológicas e restaurar áreas estratégicas para água, clima e proteção da população.
Exemplos recentes mostram como essa discussão deixou de ser exclusivamente ambiental. As enchentes históricas do Rio Grande do Sul em 2024 afetaram 2,4 milhões de pessoas, expondo a combinação entre eventos extremos, ocupação vulnerável do território e perda de áreas naturais capazes de amortecer impactos.
A adaptação climática , portanto, já faz parte das decisões que precisam ser tomadas hoje. A forma como protegemos rios, restauramos florestas e planejamos o uso do território ajudará a definir tanto a saúde dos ecossistemas quanto a capacidade das cidades brasileiras de enfrentar um clima mais instável.
Se não podemos controlar o aquecimento das águas do Pacífico, podemos fortalecer nossa capacidade de resposta aos seus efeitos. E, para isso, é essencial enxergar a mata atlântica como parte essencial de uma infraestrutura que sustenta a segurança hídrica, climática e econômica do país.
O próximo El Niño será medido por satélites, sensores oceânicos e modelos climáticos. Seus impactos, porém, serão medidos nas cidades, nos rios, nos reservatórios, nas áreas rurais e na vida das pessoas. E a condição da mata atlântica ajudará a determinar o tamanho dessa conta.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/papo-de-responsa/2026/08/mata-atlantica-e-a-primeira-linha-de-defesa-climatica-contra-o-el-nino.shtml.

Luís Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da Fundação SOS Mata Atlântica, na sede da instituição, na cidade de Itu (SP) - Léo Barrilari/Divulgação/SOS Mata Atlântica · Léo Barrilari/Divulgação/SOS Mata Atlântica — Foto: Folha de S.Paulo
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