Martin Parr documentou a pasteurização da cultura e do turismo em tons berrantes
"A experiência com o trabalho dele é essa. No primeiro momento você olha, acha legal e ri. Mas depois se pergunta 'será que eu também não estou fazendo exatamente isso?'." É dessa forma que o professor e curador João Kulcsár resume o espírito das imagens de Martin Parr , agora reunidas na exposição "Mundo Pequeno" , na galeria de fotografias do Centro Cultural Fiesp, na avenida Paulista, em São Paulo. Leia mais (10/14/2026 - 23h00)

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Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em fotografia de Martin Parr de 1996 - Martin Parr / Magnum Photos/Divulgação

"A experiência com o trabalho dele é essa. No primeiro momento você olha, acha legal e ri. Mas depois se pergunta ‘será que eu também não estou fazendo exatamente isso?’." É dessa forma que o professor e curador João Kulcsár resume o espírito das imagens de Martin Parr , agora reunidas na exposição "Mundo Pequeno" , na galeria de fotografias do Centro Cultural Fiesp, na avenida Paulista, em São Paulo.
Morto em dezembro do ano passado , aos 73 anos, Parr foi um dos fotógrafos documentaristas mais aclamados do século 20 e um dos precursores de uma revolução no vocabulário e no objeto da fotografia do final dos anos 1980. A mostra mergulha em diversas facetas do britânico e instala no espaço uma praia artificial que remete ao imaginário de seus trabalhos.
Se a geração anterior a ele acreditava na relevância social dos registros da fome, da miséria e de conflitos armados em lugares remotos, Parr demonstrou que a grande força transformadora do seu tempo estava nas faixas de areia, no supermercado e nas lojas de departamento. Ele decidiu retratar o Reino Unido de Margaret Thatcher não pelo prisma dos sindicatos, mas pelo do turismo de massa e do consumismo cafona da classe média britânica.

Até os anos 1980, sua pesquisa estava mais voltada para o território de seu país. A partir da década seguinte, ele começou a rodar o mundo investigando a pasteurização da cultura gerada pela globalização. Os dois momentos estão bem retratados na seleção de trabalhos, que conta com fotografias em grande escala que vão de paisagens da Grã-Bretanha a Las Vegas, nos Estados Unidos, e a Santiago de Compostela, na Espanha.
Kulcsár conta que chegou a falar com Parr sobre a ideia da exposição, mas, depois da morte do fotógrafo, teve certo receio de que o artista não gostasse de sua ideia para a montagem paulistana.
Para além dos cliques, a mostra, em cartaz até abril do ano que vem, tem projeções de suas imagens e fotolivros raros. Entre esses estão "Life’s a Beach", com registros de praias ao redor do mundo, incluindo o Brasil; um livro de autorretratos; e o famoso "The Last Resort", de 1986, a sua série mais emblemática.

Esse trabalho é tido como inovador pelas técnicas fotográficas e pela preferência pelas cores berrantes. "Era uma fotografia documental colorida, saturada, com flash. Ninguém fazia isso naquela época", afirma o curador.
Essa inovação estética, que privilegiava um cromatismo quase artificial, associado à publicidade, recebeu duras críticas na época, a ponto de sua entrada na prestigiosa cooperativa Magnum , em 1994, quase ter sido vetada por importantes nomes da velha guarda da agência, como o francês Henri Cartier-Bresson e o britânico Philip Jones Griffiths —que chegou a classificar o trabalho de Parr como uma zombaria cruel da classe operária.
Uma célebre foto de Martin Parr, que aparece na Fiesp numa projeção, mostra, em close, uma mulher tomando sol em Benidorm, na Espanha, sintetizando a transição do operariado britânico das praias e calçadões cinzentos de "The Last Resort" para a busca frenética pela luz no Mediterrâneo.

O trabalho exprime bem a estética consolidada por Parr, que, com o uso do flash diurno direto sob o sol escaldante, anula as sombras naturais e achata as profundidades. Somado a isso, o azul industrial do protetor ocular de plástico que a idosa usa contrasta com sua pele rubra, altamente saturada pelo artista.
Outro aspecto importante da obra de Parr que ganhou destaque na seleção de João Kulcsár são as imagens que tratam, com viés crítico, ainda que bem-humorado, da tendência dos viajantes preocupados mais em registrar a própria presença nos destinos do que em vivenciar o momento.
Em Veneza, na Itália, Parr fotografa uma fila de turistas que parecem aguardar a vez de embarcar numa gôndola . À primeira vista, a cena sugere que todos estão prestes a fazer um passeio pela cidade. Um olhar mais atento, porém, revela que a embarcação não passa de um cenário montado para que os visitantes sejam fotografados, transformando a experiência turística em encenação.

Já em Paris, ele volta sua lente para o público aglomerado diante da "Mona Lisa" , no Museu do Louvre, à espera de uma oportunidade para fotografar a obra. Na imagem, o quadro parece ocupar um lugar secundário —como se o registro da pintura mais famosa do mundo fosse mais importante do que estar diante dela.
O evento também tem uma ala interativa. Num monitor, o visitante escolhe uma entre 30 cidades e pode fazer um autorretrato como se estivesse lá. "Achei que Parr iria gostar dessa interatividade, de montar a mostra de uma forma diferente", diz Kulcsár.
Mas a proposta mais extravagante é a montagem da praia artificial na esplanada da Fiesp, na boca da movimentada avenida Paulista, com um papel texturizado que remete à areia, assim como boias e cadeiras de praia que estampam uma foto de 1996, em que ele retrata um balneário de mentira na cidade de Miyazaki, no Japão.

Kulcsár lembra que Parr criava objetos com estampas de suas fotos, que muitas vezes eram até comercializados, como uma crítica irônica. "Isso me deu uma certa liberdade para eu brincar um pouco, inventar também esses objetos que carregam as fotos."
A proposta da instalação é transformar os visitantes do espaço em parte da obra. Eles são incentivados a habitar um pouco o universo de Martin Parr e tentar fotografar —na linha crítica e bem-humorada do britânico— outros visitantes que estão mais preocupados em registrar o momento do que em viver aquilo.
A ideia é que os espectadores publiquem nas redes sociais as fotos feitas dentro da galeria ou nos arredores do Centro Cultural Fiesp, marcando as imagens com a hashtag #parrmundopequeno.

O curador então fará uma seleção, e as melhores imagens serão também projetadas no espaço. "Eu acho que, se Parr estivesse vivo e viesse aqui, ele iria curtir isso", diz Kulcsár. "Ele fotografaria as pessoas aproveitando a praia."
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/10/martin-parr-documentou-a-pasteurizacao-da-cultura-e-do-turismo-em-tons-berrantes.shtml.

Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em fotografia de Martin Parr de 1996 - Martin Parr / Magnum Photos/Divulgação · Martin Parr / — Foto: Folha de S.Paulo
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