Brasil

    Mar de lama ou instituições funcionando?

    Cada operação da PF conta duas histórias: a da expansão do crime organizado e a da resistência das instituições

    UOL
    16 de agosto de 2026 às 18:00
    Mar de lama ou instituições funcionando?
    Cinco agentes da Polícia Federal em uniforme preto estão posicionados ao redor de uma caminhonete preta com identificação da PF estacionada em frente a um prédio com fachada de vidro. Um dos agentes segura uma mala preta com a inscrição 'Po — Foto: UOL

    Professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA)

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    Policiais federais cumprem mandado de busca e apreensão no Brasília Palace Hotel, local de residência do senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado, em Brasília (DF), em operação que investiga irregularidades ligadas ao Banco
    Policiais federais cumprem mandado de busca e apreensão no Brasília Palace Hotel, local de residência do senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado, em Brasília (DF), em operação que investiga irregularidades ligadas ao Banco — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A profusão de operações policiais no país produz simultaneamente uma crise de confiança e uma demonstração de capacidade institucional. Quanto mais o sistema de controle funciona, mais corrupção se torna visível; quanto mais corrupção se torna visível, mais a sociedade pode concluir que o sistema inteiro está apodrecido.

    A sucessão quase diária de operações da PF (Polícia Federal) e de denúncias envolvendo instituições antes relativamente preservadas —tribunais superiores, Banco Central , TCU — produz dois efeitos com sinais opostos. O primeiro é o sinal do mar de lama: a criminalidade organizada e a corrupção teriam penetrado profundamente o Estado, alcançando instituições que deveriam justamente controlá-las. Não se trata dos suspeitos usuais —empresas contratistas de obras públicas (empreiteiras), parlamentares, membros do Executivo. A degradação também pode ser enxergada nos numerosos mob lawyers que assessoram o crime ou dele se beneficiam . Os escândalos do Master e do INSS revelam as entranhas do entrelaçamento entre interesses dentro e fora do Estado. O caso do Rio de Janeiro é o microcosmo desses desmandos.

    Mas há também o sinal oposto, da resistência institucional: as investigações demonstram que ainda existem setores e indivíduos dispostos a revelar e enfrentar essa penetração. E não só nas instituições de Estado —a mídia e até jornalistas individuais também são baluartes contra a degradação. Pelo protagonismo que assume, a Polícia Federal adquire grande centralidade nessa resistência. As tensões entre sua direção e o relator do escândalo do INSS no Supremo são reveladoras. Isso remete a questões sobre o profissionalismo de seus quadros e a lealdade política de seu centro de comando em questões eleitoralmente sensíveis.

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    O paradoxo, portanto, é que o mesmo fato —uma nova operação da Polícia Federal— pode servir de evidência tanto de degradação quanto de resiliência institucional. A operação revela o crime, mas também revela a existência de quem o investiga. E remete a um temor justificado: quem controlar a Polícia Federal terá poder desmedido. Até quando a instituição se manterá independente?

    Dada a polarização atual, os sinais opostos são processados com vieses. A oposição enfatiza a extensão da corrupção, vinculando-a ao governo e à degradação institucional do país. Os governistas enfatizam a autonomia da PF e apresentam as operações como prova de que as instituições estão funcionando. O contingente crescente de eleitores sem identificação partidária pode combinar as duas avaliações: perceber uma degradação assustadora e, ao mesmo tempo, reconhecer que ainda existem "ilhas de resistência".

    Cada operação da Polícia Federal conta duas histórias: a da expansão do crime organizado e a da resistência das instituições. A endogeneidade entre os dois fenômenos não é especificidade nossa; é universal, como mostra a literatura sobre corrupção. Deve-se ao fato de que a corrupção é em geral corrupção revelada. Mas o mar de lama —a penetração de grossa corrupção em setores nunca antes atingidos— não é produto apenas de uma maior capacidade institucional. É uma mudança qualitativa. E é real.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcus-melo/2026/08/mar-de-lama-ou-instituicoes-funcionando.shtml.

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    Policiais federais cumprem mandado de busca e apreensão no Brasília Palace Hotel, local de residência do senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado, em Brasília (DF), em operação que investiga irregularidades ligadas ao Banco — Foto: UOL

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