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    Por milênios, o vetor fundamental de valor foi a terra. Quem a possuía mandava, mesmo que a mantivesse em grande medida improdutiva. Leia mais (09/06/2026 - 07h00)

    Folha de S.Paulo
    6 de setembro de 2026 às 10:00
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    Módulo de servidor aberto e estendido em rack de centro de dados, mostrando componentes eletrônicos e conexões. Vários racks alinhados ao fundo em ambiente com piso elevado. — Foto: Folha de S.Paulo

    Neurocientista, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e sócio do Instituto Locomotiva e da WeMind

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    Servidor da AWS em Austin, no Texas - Mark Felix - 27.fev.26/AFP · Mark Felix - 27.fev.26/AFP
    Servidor da AWS em Austin, no Texas - Mark Felix - 27.fev.26/AFP · Mark Felix - 27.fev.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Por milênios, o vetor fundamental de valor foi a terra. Quem a possuía mandava, mesmo que a mantivesse em grande medida improdutiva.

    A Revolução Industrial deu escala a uma nova dimensão, o trabalho sistemático, cujo controle passou a orientar novos fluxos de riqueza. A propriedade não abdicou de um milímetro do seu poder, mas a medida que passou a importar foi a hora, que embasa a ideia moderna de produtividade, como na constatação de que somos cinco vezes menos produtivos (por hora trabalhada) do que os noruegueses.

    A IA agêntica introduz um terceiro vetor, o "compute": eletricidade que atravessa chips e sai na forma de operações, vendidas por hora de máquina, do mesmo modo que o trabalho fabril ou de escritório é vendido por hora de gente.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A hora está presa ao corpo, são 24 por dia para qualquer pessoa e não dá para guardá-las para o dia seguinte. Já o "compute" não tem esse teto, podendo ser estocado por meio de chips e alugado para todo o resto do planeta, onde a demanda é muitas vezes maior do que a oferta. Hora, todo o mundo tem; chip, quase ninguém.

    Pela primeira vez desde a Revolução Industrial, valor e propriedade voltam a se fundir, mas com uma diferença: "compute" é propriedade que trabalha e decide como cumprir o que lhe foi solicitado. Hora-homem vira hora-máquina, enquanto o dinheiro migra dos salários para a nuvem de tarefas, as quais vão se encadeando como peças de um quebra-cabeça que se monta sozinho.

    Outra novidade desta fase é o protagonismo da pessoa física. Até aqui, para ver as coisas realizadas em série era preciso contratar quem as realizasse. Agora, uma assinatura do Grok Bot, paga do próprio bolso, libera um feixe de agentes desenhados pelo fabricante para agir como funcionários, fazendo do "compute" o primeiro vetor de valor vendido no varejo, como um plano de celular.

    O que se faz com os agentes é a grande ironia dessa história. O sujeito mais esperto aluga capacidade de máquina superior à que a empresa oferece, entrega o resultado como se fosse trabalho seu e embolsa a diferença em dinheiro, tempo ou mérito, até que o comprador conclua que todo o trabalho pelo qual está pagando não passa de intermediação, mesmo que isso seja falso. O resultado é o esfacelamento das grandes forças de trabalho, não só pelo lado da demanda, mas também pelo da oferta, que em parte se torna mais algorítmica e impessoal.

    Do outro lado da porta, o mesmo sujeito reaparece sem empresa, vendendo a clientes diretos o que antes fazia dentro dela, com os mesmos agentes. O motorista de aplicativo já vivia assim, pagando à plataforma pela coordenação e entrando com o carro; a diferença é que agora se paga aluguel pela própria inteligência do serviço.

    Cada pessoa que passa por essa porta vira um comprador de "compute" por conta própria, o que leva a demanda projetada a níveis que parecem pura loucura, tal como foi com a eletricidade, cujo consumo cresceu milhares de vezes quando ela se espalhou das ruas e fábricas para as casas.

    O meeiro trabalhava a terra dos outros e pagava com parte da colheita, plantando o que o dono mandava. Na fábrica, o trabalhador vendia suas horas para executar decisões alheias. Quem for viver de agentes vai pagar pelo uso da máquina, só que é ele quem decide o que ela faz. Mandar está chegando por assinatura. Ter, não.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/alvaro-machado-dias/2026/09/mandar-por-assinatura.shtml.

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    Servidor da AWS em Austin, no Texas - Mark Felix - 27.fev.26/AFP · Mark Felix - 27.fev.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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