Brasil

    Mais de 40 mil brasileiros trocaram de nome desde mudança na lei

    Anita Sanchez Del Pozzo tinha 11 anos quando decidiu que não queria mais ser chamada pelo nome que havia recebido ao nascer. Durante a infância , nunca se identificou com ele. Leia mais (10/03/2026 - 10h00)

    Folha de S.Paulo
    3 de outubro de 2026 às 13:00
    Mais de 40 mil brasileiros trocaram de nome desde mudança na lei
    Mulher jovem com cabelo castanho claro e escuro, vestindo blusa preta de alças finas e jaqueta preta caída nos ombros, apoiada em corrimão metálico com fundo de árvores e folhas escuras. — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Anita Sanchez Del Pozzo tinha 11 anos quando decidiu que não queria mais ser chamada pelo nome que havia recebido ao nascer. Durante a infância , nunca se identificou com ele.

    Anita Sanchez Del Pozzo tinha 11 anos quando decidiu que não queria mais ser chamada pelo nome que havia recebido ao nascer - Rafaela Araújo/Folhapress · Rafaela Araújo/Folhapress
    Anita Sanchez Del Pozzo tinha 11 anos quando decidiu que não queria mais ser chamada pelo nome que havia recebido ao nascer - Rafaela Araújo/Folhapress · Rafaela Araújo/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Também se incomodava com uma associação recorrente: bastava se apresentar para alguém começar a cantar uma música ligada ao nome. "Tudo se resumia à personagem", diz.

    A tentativa de ser chamada apenas de Ana —ela pede para não ser identificada pelo antigo nome composto— veio cedo, mas não resolveu o problema. Na escola, a filiação continuava na chamada e nas provas.

    Aos 14 anos, porém, o incômodo com o nome veio acompanhado de dor e sofrimento. Anita conta que sofreu um abuso na casa de um amigo, que a chamou pelo prenome que ela rejeitava enquanto cometia o crime.

    Mudança de lei facilita a troca de nome e sobrenome em cartório
    Mudança de lei facilita a troca de nome e sobrenome em cartório — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Anita faz parte dos mais de 40 mil brasileiros que mudaram o nome diretamente em cartório desde 2022, quando a Lei Federal 14.382/22 passou a dispensar o processo judicial e uma justificativa para a alteração.

    O levantamento foi feito com exclusividade para a Folha pela Arpen (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais).

    Segundo a entidade, o Sudeste lidera, com 14,5 mil alterações, seguido pelo Nordeste (12,6 mil), Sul (6.600), Centro-Oeste (3.700) e Norte (2.700). Entre os estados, São Paulo tem 9.149 casos, Minas Gerais , 4.375, e Bahia , 3.676. Os menores números estão em Roraima (52), Amapá (122) e Acre (142).

    Somente neste ano, após completar 18 anos, Anita finalmente trocou o prenome - Rafaela Araújo/Folhapress · Rafaela Araújo/Folhapress
    Somente neste ano, após completar 18 anos, Anita finalmente trocou o prenome - Rafaela Araújo/Folhapress · Rafaela Araújo/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Para Devanir Garcia, presidente da Arpen, a mudança na legislação facilitou o exercício do direito à identidade. "O cidadão passou a exercer esse direito de forma mais simples, mantendo a segurança jurídica e os mecanismos necessários para garantir a confiabilidade do procedimento."

    A mesma lei facilitou a alteração de sobrenomes. É possível incluir os de família a qualquer momento, com comprovação do vínculo, e acrescentar ou retirar o de cônjuge em razão de casamento ou divórcio. Os filhos também podem acrescentar sobrenomes quando os pais mudam o seu.

    Para recém-nascidos, a norma permite alterar o nome em até 15 dias após o registro. É o caso, por exemplo, de um dos pais ter registrado a criança com nome diferente do combinado. Se houver consenso, a mudança é feita no cartório. Sem acordo, o caso segue para análise de um juiz.

    Mulher jovem com cabelo longo e liso, vestindo blusa preta de alças, jeans azul e casaco preto, encostada em parede cinza, sorrindo.
    Mulher jovem com cabelo longo e liso, vestindo blusa preta de alças, jeans azul e casaco preto, encostada em parede cinza, sorrindo. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Após a alteração, o cartório comunica a Receita Federal , a Justiça Eleitoral , o órgão emissor da identidade e o responsável pelo passaporte.

    Para o professor de direito civil Anderson Schreiber, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro , a alteração tornou o procedimento mais simples ao deixar de exigir que a pessoa justificasse ao juiz os motivos pelos quais não queria mais ser chamada por aquele nome.

    "O nome que era visto como um sinal rígido, inalterável, uma espécie de letra escarlate que marcava a pessoa na esfera pública e privada, passou a ser reconhecido como um componente da dignidade do ser humano", diz.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ainda existem, porém, dificuldades no processo. Uma delas é a exigência de documentação para evitar que a alteração seja usada para escapar de processos ou investigações. Schreiber considera essa uma restrição necessária.

    O principal problema, segundo ele, aparece depois do registro, pois a mudança não é automaticamente atualizada em todas as bases de dados.

    "Quem altera o nome pode precisar fazer a atualização em bancos, companhias aéreas, plataformas digitais e órgãos públicos, cada um com regras próprias. A tecnologia e mudanças na legislação poderiam reduzir esse percurso".

    Trilili Urna Eletrônica
    Trilili Urna Eletrônica — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Se, para o direito, o nome deixou de ser apenas um registro usado para identificar alguém, a mudança também pode ser entendida a partir da relação da pessoa com a própria história.

    Para a professora de psicologia Elaine Pedreira Rabinovich, da Universidade Católica do Salvador , "o nome é uma mediação entre você e o outro". Segundo ela, o nome pode tanto incluir como excluir e está ligado à forma como a pessoa se apresenta socialmente.

    A história de Anita ajuda a ilustrar essa relação. Ela passou a associar o antigo prenome ao episódio traumático na adolescência. "Agora ser [nome antigo] significava ser a menina que naquele momento não conseguiu gritar, não conseguiu fazer nada e teve que passar pelo que eu passei calada", afirma.

    Neste ano, após completar 18 anos, Anita trocou finalmente o prenome. Hoje, diz que ele representa quem ela é. "Eu não sou mais essa pessoa. Eu sou alguém que consegue se defender. A Anita é confiante, ela é feliz e ela é quem ela é."

    Rabinovich explica que o nome também é recebido da família e guarda uma origem e uma memória. Por isso, a decisão de mudar pode envolver mais do que uma questão prática ou burocrática.

    Na avaliação dela, a alteração pode estar relacionada à tentativa de não aceitar essa origem e de fazer as pazes consigo mesmo.

    Ela vê ainda uma tendência de valorização cada vez maior da identidade individual, que, em sua interpretação, pode levar à rejeição da história e da memória associadas ao nome recebido.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/10/mais-de-40-mil-brasileiros-trocaram-de-nome-desde-mudanca-na-lei.shtml.

    Imagem 1
    1 / 6

    Anita Sanchez Del Pozzo tinha 11 anos quando decidiu que não queria mais ser chamada pelo nome que havia recebido ao nascer - Rafaela Araújo/Folhapress · Rafaela Araújo/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)