Brasil

    Mais antigo registro de uso de drogas por humanos tem 20 mil anos

    Caçadores-coletores da ilha de Sulawesi, na atual Indonésia, mascavam ou chupavam a noz-de-betel

    UOL
    12 de setembro de 2026 às 10:00
    Mais antigo registro de uso de drogas por humanos tem 20 mil anos
    Fragmentos de um crânio humano antigo estão dispostos sobre solo escuro, mostrando partes da mandíbula, dentes e ossos faciais com sinais de desgaste e fragmentação. — Foto: UOL

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    O exemplo mais antigo do uso de substâncias psicoativas —ou, para encurtar, " drogas "— por membros da nossa espécie vem de caçadores-coletores que viveram na atual Indonésia há cerca de 20 mil anos. Tudo indica que alguns deles costumavam chupar ou mastigar uma semente que tem efeitos estimulantes e ainda hoje é usada por povos do Sudeste Asiático e da Oceania, entre outras regiões

    Um dos crânios de usuários pré-históricos da droga noz-de-betel, achado em Sulawesi, na Indonésia - Divulgação · Divulgação
    Um dos crânios de usuários pré-históricos da droga noz-de-betel, achado em Sulawesi, na Indonésia - Divulgação · Divulgação — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Essa droga da Era do Gelo é a noz-de-betel ou pinang, parte do fruto de palmeiras do gênero Areca . Hoje, o mais comum é que seus usuários masquem pedaços das sementes secas junto com folhas de trepadeira da espécie Piper betle e um pó ou pasta feito com calcário ou conchas pulverizadas. A mistura maximiza a liberação das moléculas psicoativas das sementes, que conferem à pessoa uma leve euforia e mais energia e resistência, de acordo com os usuários.

    Há 20 mil anos, ao que parece, esse tipo de preparado ainda não estava disponível na ilha de Sulawesi (ou Celebes, na forma aportuguesada), onde pesquisadores liderados por Adam Brumm, da Universidade Griffith, na Austrália, identificaram as pistas mais antigas do uso. Em artigo na revista especializada Science Advances , Brumm e seus colegas de outras instituições australianas, indonésias e americanas concluem que, de início, as sementes eram mascadas in natura, o que provavelmente produzia um efeito mais leve sobre o cérebro.

    Embora muitas espécies de animais aparentemente apreciem substâncias capazes de alterar a consciência —é o caso de frutas fermentadas, que contêm certo teor de álcool e parecem atrair consumidores não humanos—, pistas diretas sobre o uso de moléculas psicoativas ao longo da evolução humana são muito mais difíceis de detectar.

    Mais antigo registro de uso de drogas por humanos tem 20 mil anos
    Mais antigo registro de uso de drogas por humanos tem 20 mil anos — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Para alguns pesquisadores, parecia plausível que a origem desse tipo de prática remontasse apenas ao Neolítico, fase em que surge a agricultura e a vida em comunidades mais numerosas. É então que aparecem registros do consumo de cerveja , feita com a fermentação da cevada (por volta de 13 mil anos atrás), no Oriente Próximo, ou o uso das folhas de coca nos Andes (há 8.000 anos), entre outros exemplos.

    Já o consumo de preparados com a noz-de-betel parecia ser muito mais recente, com os primeiros registros oriundos da Tailândia , na Idade do Bronze (há cerca de 3.500 anos). Também há informações sobre a prática em antigos textos indianos e chineses, e o uso recente se estendeu até mesmo à costa da África Oriental.

    Acontece que o uso crônico da semente, que causa dependência e pode até acarretar o surgimento de câncer bucal, entre outros problemas de saúde, costuma ser bastante agressivo para a dentição das pessoas, e foram indícios desse tipo que permitiram a identificação da prática em dois antigos caçadores-coletores de Sulawesi.

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    O primeiro, designado pela sigla Maros-LBB-1a, tem idade estimada entre 25 mil anos e 16 mil anos, enquanto o outro, designado como CPL-R2a, é bem mais recente (a datação de seus ossos fica entre 7,6 mil anos e 6,3 mil anos atrás).

    O indivíduo mais novo está mais bem preservado, como talvez seria de se esperar, com a presença do crânio, da mandíbula, dos dentes e das mãos, enquanto do mais antigo sobrou apenas o maxilar direito e alguns molares. Em comum, eles têm a idade quando morreram —superior a 35 anos, conforme estimam os pesquisadores— e o fato de que vários de seus dentes sofreram um desgaste profundo.

    A rigor, isso não é incomum em sociedades de caçadores-coletores, cuja dentição trabalha muito mais pesado do que a de povos atuais, além dos problemas para manter a higiene bucal. Mas os detalhes do desgaste dentário são, em vários casos, bastante específicos: são o que os pesquisadores chamam de desgastes "circunferenciais", ou seja, contornam os dentes.

    Surfista Ítalo Ferreira durante eclipse solar em praia entre as cidades de Natal e Baía Formosa, no Rio Grande do Norte - (Foto: Marcelo Maragni / Red Bull Content Pool)
    Surfista Ítalo Ferreira durante eclipse solar em praia entre as cidades de Natal e Baía Formosa, no Rio Grande do Norte - (Foto: Marcelo Maragni / Red Bull Content Pool) — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Em outras palavras, o dano dentário bate com o que aconteceria se alguém ficasse constantemente segurando entre os dentes um objeto esférico pequeno e duro, chupando-o ou mastigando-o de leve por longos períodos.

    Só esses detalhes, somados à localização geográfica das descobertas, já seriam suficientes para suspeitar que havia algum envolvimento das sementes psicoativas. Mas a peça final do quebra-cabeças se encaixou quando a equipe conseguiu obter resquícios de moléculas orgânicas a partir dos dentes dos caçadores-coletores.

    Em ambos os indivíduos, eles identificaram a presença de arecolina, principal molécula responsável pelos efeitos psicoativos do consumo da noz-de-betel —e também pelos danos à saúde que o hábito produz no longo prazo.

    Paradoxalmente, uma das hipóteses levantadas pela equipe é que o uso entre os antigos caçadores-coletores tenha começado porque é algo capaz de minimizar a presença de cáries, além de ajudar no controle da dor causada por elas.

    "Parece possível que os indivíduos Maros-LBB-1a e CPL-R2a tenham ficado presos num ciclo no qual chupar as sementes para aliviar a dor de dente se transformou num vício ou dependência patológica cada vez mais forte, conforme o dano à sua dentição ia piorando ainda mais", escrevem os pesquisadores.

    Autor do blog Darwin e Deus, sobre ciência e religião, e especialista em história do catolicismo

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2026/09/mais-antigo-registro-de-uso-de-drogas-por-humanos-tem-20-mil-anos.shtml.

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    Um dos crânios de usuários pré-históricos da droga noz-de-betel, achado em Sulawesi, na Indonésia - Divulgação · Divulgação — Foto: UOL

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