Maior ativo tecnológico da Estônia é confiança
Foi essa a principal lição que trouxemos de uma recente viagem de aprendizagem a Estônia, organizada pelo ICE (Instituto de Cidadania Empresarial) e pelo ITS Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio): o maior ativo tecnológico do país é a confiança. Em um momento em que o mundo parece disputar quem desenvolverá as tecnologias mais sofisticadas, a Estônia fez uma escolha diferente: antes de perguntar o que a tecnologia pode fazer, perguntou para quem e com que propósito ela deve existir. Leia mais (08/10/2026 - 08h00)

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Diretora-executiva do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), organização que atua como Secretaria Executiva da Coalizão pelo Impacto
Diretora de Projetos do ITS Rio, é mestre em direitos humanos, afiliada ao Berkman Klein Center e sócia de Rennó, Penteado e Sampaio Advogados
Foi essa a principal lição que trouxemos de uma recente viagem de aprendizagem a Estônia, organizada pelo ICE (Instituto de Cidadania Empresarial) e pelo ITS Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio): o maior ativo tecnológico do país é a confiança. Em um momento em que o mundo parece disputar quem desenvolverá as tecnologias mais sofisticadas, a Estônia fez uma escolha diferente: antes de perguntar o que a tecnologia pode fazer, perguntou para quem e com que propósito ela deve existir.

Seu maior diferencial não está na sofisticação das soluções digitais, mas no princípio que orienta seu desenho: tecnologia só faz sentido quando melhora a vida das pessoas. O impacto social positivo não é consequência da inovação, é sua premissa.
Em um país onde praticamente todos os serviços públicos são digitais, o sucesso não é medido pelo número de plataformas criadas. O sucesso é medido pelo tempo devolvido aos cidadãos, pela redução da burocracia, pelo acesso ampliado a direitos e pela capacidade do Estado de servir melhor às pessoas.
A inovação nasce da pergunta: como a tecnologia pode tornar a vida mais simples, segura e digna? A segunda lição é ainda mais relevante em tempos de desinformação e polarização: não existe transformação digital sem confiança .

Confiança não é consequência da tecnologia, é sua condição de funcionamento. Os cidadãos sabem quem acessou seus dados , podem contestar esse acesso e contam com regras transparentes sobre seu uso.
O governo, por sua vez, parte do princípio de que não deve pedir ao cidadão uma informação que o próprio Estado já possui. Essa lógica produz eficiência e fortalece uma relação de confiança mútua.
No Brasil, frequentemente tratamos tecnologia como solução para a falta de confiança. A experiência estoniana sugere o contrário: é a confiança que permite à tecnologia alcançar seu potencial transformador.
Há ainda um terceiro aspecto revelador. No portal oficial do governo eletrônico da Estônia existem duas grandes portas de entrada: cidadania e empreendedorismo. Não é apenas uma escolha de arquitetura digital. É uma visão de desenvolvimento.
Empreender é entendido como uma forma de exercer cidadania. E ser cidadão significa participar da construção da prosperidade coletiva. O empreendedor deixa de ser apenas alguém que gera riqueza individual e passa a ser reconhecido como agente de transformação social . Nada disso aconteceu por acaso.
Quando recuperou sua independência, em 1991, após décadas de ocupação soviética, a Estônia tinha um PIB per capita próximo de US$ 1.000 (R$ 5.082,70). Pouco mais de três décadas depois, supera US$ 30 mil (R$ 152.787). A transformação começou antes da digitalização. Nasceu de um exercício coletivo de imaginação sobre o futuro.
Setor público, setor privado e academia construíram uma visão compartilhada de país. A tecnologia tornou-se instrumento dessa estratégia —nunca sua finalidade.
Os estonianos costumam dizer que preservar sua língua significou preservar também sua identidade e sua cultura de colaboração. Orgulham-se de viver em uma flat society, menos hierárquica e comprometida com a distribuição de oportunidades. Como ouvimos durante a visita: é melhor criar mil novos milionários do que mais um bilionário .
Na era da inteligência artificial , a disputa mais importante talvez não seja por quem desenvolverá os algoritmos mais poderosos, mas por quem será capaz de definir os princípios que orientarão sua aplicação.
A Estônia demonstra que é possível colocar a tecnologia a serviço de um projeto coletivo de futuro, no qual inovação, prosperidade e bem-estar caminham juntos e o progresso é medido não apenas pelo que somos capazes de inventar mas também pela sociedade que escolhemos construir.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/papo-de-responsa/2026/08/maior-ativo-tecnologico-da-estonia-e-confianca.shtml.

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