Brasil

    Luz e voto

    Poucas vezes na nossa história a palavra "crise" foi tão adequada a uma situação. A sequência de desmandos e arbitrariedades pariu um monstro, e o país assiste a instituições dilaceradas pela guerra política, imobilizadas pela perda de legitimidade e vistas pela sociedade como altamente suspeitas de estar penetradas pelo crime. Leia mais (09/10/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    11 de setembro de 2026 às 01:00
    Luz e voto
    Dois homens vestidos com trajes pretos formais sentam lado a lado. O homem ao fundo, calvo, segura um papel e olha para frente com expressão séria. O homem à frente está desfocado, olhando para baixo. — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Os ministros Alexandre de Moraes (D) e André Mendonça (E) em sessão plenária do STF - Pedro Ladeira - 3.set.26/Folhapress
    Os ministros Alexandre de Moraes (D) e André Mendonça (E) em sessão plenária do STF - Pedro Ladeira - 3.set.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Poucas vezes na nossa história a palavra "crise" foi tão adequada a uma situação. A sequência de desmandos e arbitrariedades pariu um monstro, e o país assiste a instituições dilaceradas pela guerra política, imobilizadas pela perda de legitimidade e vistas pela sociedade como altamente suspeitas de estar penetradas pelo crime.

    Estamos sofrendo as consequências de acreditar, e muitos acreditaram, que a salvação da democracia residiria em entregar o poder absoluto a autonomeados salvadores da pátria. Como se pode notar, essa ilusão produziu apenas e tão somente o colapso do sistema de freios e contrapesos. O que nos traz ao cenário em que ninguém sabe direito como desatar o nó .

    Sem contar a desconfiança, baseada em fatos que precisam ser plenamente esclarecidos, de que esses mesmos salvadores decidiram, em algum momento, monetizar o serviço que acreditavam estar prestando ao Brasil. Não é novo, mas vale sempre repetir: se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. E como sair do beco escuro se as próprias autoridades que deveriam esclarecer os fatos são acusadas de estar enredadas neles?

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O país já viveu, no 8 de janeiro , um ataque intolerável às suas instituições. Naquele episódio, pessoas inconformadas com o resultado das urnas recorreram ao vandalismo e atingiram fisicamente as sedes dos Poderes da República. Há, porém, uma diferença perturbadora entre destruir fisicamente a sede de uma instituição e comprometer a confiança depositada nela. No primeiro caso, quebram-se vidros, móveis, obras de arte e edifícios. No segundo, atinge-se algo muito mais difícil de restaurar: a credibilidade, a imparcialidade e a autoridade moral.

    E é justamente aqui que um voto proferido pelo ministro Alexandre de Moraes em março de 2025 permanecerá como retrato do nosso paradoxo. Ao julgar Débora Rodrigues dos Santos, a "Débora do Batom" , Moraes analisou o fato de terem sido apagados dados de seu telefone celular e escreveu que "o ato de apagar dados do celular também indica uma consciência sobre a ilegalidade dos atos praticados pelo agente". Acrescentou que a destruição de provas reforçava a percepção de que "havia algo a esconder". Eis que agora o próprio ministro é suspeito disso.

    Causa perplexidade que parte do debate público pareça concentrar-se mais no rito pelo qual denúncias serão recebidas e fatos serão apurados do que na gravidade das questões colocadas diante do país.

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Acusações não são condenações. Mas acusações graves exigem respostas igualmente sérias: transparência, investigação, contraditório e esclarecimento dos fatos.

    Mais grave ainda seria permitir que se consolidasse a percepção de um Supremo Tribunal Federal ( STF ) dividido entre rigor e impunidade, dependendo de quem esteja sob julgamento. Quem exerce o poder de julgar os demais tem responsabilidade igualmente extraordinária de submeter-se ao escrutínio quando surgem dúvidas sobre sua própria conduta.

    O Supremo não se protege poupando seus integrantes. Protege-se fazendo exatamente o contrário. Qualquer suspeita capaz de atingir a credibilidade da própria Justiça merece apuração. A lei que alcança o cidadão deve alcançar, com igual rigor, aqueles que têm a extraordinária responsabilidade de aplicá-la.

    A boa notícia é termos eleições gerais daqui a menos de quatro semanas. A nação está convocada às urnas: desta vez não apenas para decidir os rumos da economia, da saúde, da educação ou da segurança pública. Deverá escolher quem deterá o poder político para recolocar o Brasil no caminho da legalidade e da legitimidade democráticas , sem o que não haverá luz no fim do túnel.

    TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/luz-e-voto.shtml.

    Imagem 1
    1 / 3

    Os ministros Alexandre de Moraes (D) e André Mendonça (E) em sessão plenária do STF - Pedro Ladeira - 3.set.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)