Luz e voto
Poucas vezes na nossa história a palavra "crise" foi tão adequada a uma situação. A sequência de desmandos e arbitrariedades pariu um monstro, e o país assiste a instituições dilaceradas pela guerra política, imobilizadas pela perda de legitimidade e vistas pela sociedade como altamente suspeitas de estar penetradas pelo crime. Leia mais (09/10/2026 - 22h00)

Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos
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Poucas vezes na nossa história a palavra "crise" foi tão adequada a uma situação. A sequência de desmandos e arbitrariedades pariu um monstro, e o país assiste a instituições dilaceradas pela guerra política, imobilizadas pela perda de legitimidade e vistas pela sociedade como altamente suspeitas de estar penetradas pelo crime.
Estamos sofrendo as consequências de acreditar, e muitos acreditaram, que a salvação da democracia residiria em entregar o poder absoluto a autonomeados salvadores da pátria. Como se pode notar, essa ilusão produziu apenas e tão somente o colapso do sistema de freios e contrapesos. O que nos traz ao cenário em que ninguém sabe direito como desatar o nó .
Sem contar a desconfiança, baseada em fatos que precisam ser plenamente esclarecidos, de que esses mesmos salvadores decidiram, em algum momento, monetizar o serviço que acreditavam estar prestando ao Brasil. Não é novo, mas vale sempre repetir: se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. E como sair do beco escuro se as próprias autoridades que deveriam esclarecer os fatos são acusadas de estar enredadas neles?

O país já viveu, no 8 de janeiro , um ataque intolerável às suas instituições. Naquele episódio, pessoas inconformadas com o resultado das urnas recorreram ao vandalismo e atingiram fisicamente as sedes dos Poderes da República. Há, porém, uma diferença perturbadora entre destruir fisicamente a sede de uma instituição e comprometer a confiança depositada nela. No primeiro caso, quebram-se vidros, móveis, obras de arte e edifícios. No segundo, atinge-se algo muito mais difícil de restaurar: a credibilidade, a imparcialidade e a autoridade moral.
E é justamente aqui que um voto proferido pelo ministro Alexandre de Moraes em março de 2025 permanecerá como retrato do nosso paradoxo. Ao julgar Débora Rodrigues dos Santos, a "Débora do Batom" , Moraes analisou o fato de terem sido apagados dados de seu telefone celular e escreveu que "o ato de apagar dados do celular também indica uma consciência sobre a ilegalidade dos atos praticados pelo agente". Acrescentou que a destruição de provas reforçava a percepção de que "havia algo a esconder". Eis que agora o próprio ministro é suspeito disso.
Causa perplexidade que parte do debate público pareça concentrar-se mais no rito pelo qual denúncias serão recebidas e fatos serão apurados do que na gravidade das questões colocadas diante do país.

Acusações não são condenações. Mas acusações graves exigem respostas igualmente sérias: transparência, investigação, contraditório e esclarecimento dos fatos.
Mais grave ainda seria permitir que se consolidasse a percepção de um Supremo Tribunal Federal ( STF ) dividido entre rigor e impunidade, dependendo de quem esteja sob julgamento. Quem exerce o poder de julgar os demais tem responsabilidade igualmente extraordinária de submeter-se ao escrutínio quando surgem dúvidas sobre sua própria conduta.
O Supremo não se protege poupando seus integrantes. Protege-se fazendo exatamente o contrário. Qualquer suspeita capaz de atingir a credibilidade da própria Justiça merece apuração. A lei que alcança o cidadão deve alcançar, com igual rigor, aqueles que têm a extraordinária responsabilidade de aplicá-la.
A boa notícia é termos eleições gerais daqui a menos de quatro semanas. A nação está convocada às urnas: desta vez não apenas para decidir os rumos da economia, da saúde, da educação ou da segurança pública. Deverá escolher quem deterá o poder político para recolocar o Brasil no caminho da legalidade e da legitimidade democráticas , sem o que não haverá luz no fim do túnel.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/luz-e-voto.shtml.

Os ministros Alexandre de Moraes (D) e André Mendonça (E) em sessão plenária do STF - Pedro Ladeira - 3.set.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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