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    Luta de Milei para manter peso valorizado pressiona economia da Argentina

    Os esforços do presidente da Argentina, Javier Milei, para domar a inflação com uma moeda forte estão cobrando um preço cada vez maior da economia nacional . Leia mais (09/17/2026 - 10h29)

    Folha de S.Paulo
    17 de setembro de 2026 às 13:29
    Luta de Milei para manter peso valorizado pressiona economia da Argentina
    Homem de cabelos cacheados e óculos fala em púlpito com microfones. Bandeira da Argentina aparece desfocada ao fundo à esquerda. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Os esforços do presidente da Argentina, Javier Milei, para domar a inflação com uma moeda forte estão cobrando um preço cada vez maior da economia nacional .

    Javier Milei, presidente da Argentina, discursa durante evento em Buenos Aires - Juan Mabromata - 03.set.26/AFP · Juan Mabromata - 03.set.26/AFP
    Javier Milei, presidente da Argentina, discursa durante evento em Buenos Aires - Juan Mabromata - 03.set.26/AFP · Juan Mabromata - 03.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O peso se desvalorizou 3,7% em relação ao dólar, enquanto os preços ao consumidor subiram 21,3% no acumulado deste ano até agosto. Nas últimas semanas, essa valorização real tem sido sustentada cada vez mais pela intervenção oficial nos mercados de títulos e futuros , enquanto os controles cambiais sobre as empresas continuam em vigor.

    A agência de estatísticas Indec divulgará na tarde de quinta-feira (17) os dados do PIB (Produto Interno Bruto) do segundo trimestre, e analistas preveem que a economia tenha encolhido 0,9% em relação ao trimestre anterior. Para muitos, a política cambial de Milei é um dos principais fatores que dificultam o crescimento da Argentina.

    "A esta altura, já está bem estabelecido que a atividade econômica não primária da Argentina apresenta um desempenho fraco, o que representa riscos para a continuidade das políticas", afirmou Ivan Stambulsky, analista do Barclays, em relatório a investidores na semana passada. "Em nossa avaliação, a principal explicação é simplesmente que a taxa de câmbio real efetiva está valorizada demais para a atual combinação de políticas".

    Notas de pesos argentinos e dólares - AFP · AFP
    Notas de pesos argentinos e dólares - AFP · AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O libertário conteve os aumentos de preços durante boa parte de sua gestão, em parte por manter um controle rígido sobre o peso, fazendo com que a moeda se valorizasse em termos ajustados pela inflação.

    No primeiro semestre, houve uma entrada de dólares proveniente da safra de soja, em meio a um grande volume de emissões de dívida no exterior por empresas argentinas. Isso garantiu ampla oferta de moeda estrangeira e ajudou o banco central a recompor suas reservas sem exercer muita pressão sobre o peso.

    Esse cenário começou a mudar no segundo semestre. A entrada de dólares das exportações agrícolas diminuiu após o pico da safra, enquanto os recursos obtidos com empréstimos corporativos também recuaram . Com a escassez de dólares, o banco central passou a recorrer cada vez mais à venda de títulos vinculados ao câmbio e contratos futuros para atender à demanda por proteção cambial e aliviar a pressão sobre o peso, sem deixar de tentar acumular reservas.

    Diversas cédulas de pesos argentinos em valores de 1.000, 2.000, 10.000 e 20.000 estão espalhadas, com uma nota de 100 dólares americanos centralizada sobre elas. As cédulas argentinas apresentam retratos de figuras históricas e elementos g
    Diversas cédulas de pesos argentinos em valores de 1.000, 2.000, 10.000 e 20.000 estão espalhadas, com uma nota de 100 dólares americanos centralizada sobre elas. As cédulas argentinas apresentam retratos de figuras históricas e elementos g — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Como resultado, o estoque de instrumentos de proteção vinculados à taxa de câmbio mais que dobrou em apenas cinco meses, segundo estimativas da corretora Facimex. No total, as posições do setor privado em contratos futuros, títulos duais e papéis conhecidos localmente como "dollar-linked" subiram de US$ 5,2 bilhões (R$ 26,79 bilhões) no fim de março para cerca de US$ 12 bilhões (R$ 61,82 bilhões) no fim de agosto.

    "Há um elevado grau de intervenção do BCRA", afirmou Stambulsky, referindo-se ao banco central pela sigla em espanhol. Quando o mercado começou a desfazer operações de carry trade após o pico da safra, a autoridade monetária "intensificou a intervenção com a venda de instrumentos de proteção, reduziu o ritmo das compras no mercado à vista e permitiu que os juros subissem".

    Agosto, setembro e outubro costumam ser meses em que o banco central vende dólares diretamente no mercado à vista. Neste ano, porém, o governo mudou de estratégia, vendendo fora desse mercado instrumentos vinculados ao dólar.

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    A estratégia ajudou a manter a taxa de câmbio próxima de 1.500 pesos por dólar, um nível muito mais forte do que os economistas previam. Há um ano, analistas consultados pelo banco central esperavam que o peso se desvalorizasse para 1.811 por dólar até dezembro de 2026. No mês passado, eles revisaram essa projeção para 1.629.

    Em uma economia já sobrecarregada por impostos altos e custos elevados, um peso valorizado reduz a competitividade dos produtores nacionais e barateia as importações, pressionando a indústria local.

     Programar investimentos é estratégia psicológica e traz mais disciplina financeira
    Programar investimentos é estratégia psicológica e traz mais disciplina financeira — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Essa dinâmica pesa sobre uma economia que já perde fôlego. Economistas reduziram a previsão de crescimento para todo o ano de 2026 de 3,5%, há alguns meses, para 2,1%.

    As políticas de Milei desaceleraram fortemente a inflação mensal, de 25,5% em seu primeiro mês no cargo para 1,7% em agosto. Mas os avanços se tornaram mais difíceis desde o início da guerra no Irã. A inflação, que Milei esperava que já tivesse caído para menos de 1%, permanece persistentemente mais próxima de 2%.

    "O que o governo quer, e rápido, é que a inflação desacelere", afirmou Osvaldo Giordano, presidente do Ieral, centro de estudos econômicos da Fundación Mediterránea. Segundo ele, o peso forte reflete tanto a determinação do governo em alcançar esse objetivo quanto a expectativa do mercado de que dispõe das ferramentas necessárias para continuar fazendo isso.

    As mesmas políticas que sustentam a moeda estão exercendo pressão em outras áreas. Os juros mais altos pesam sobre o crédito, que havia se tornado um importante motor da recuperação depois que anos de inflação elevada praticamente excluíram famílias e empresas do acesso a financiamento. Ainda assim, desde as eleições legislativas de outubro do ano passado, a inadimplência das famílias vem batendo recordes mês após mês.

    A pressão é particularmente visível na indústria, no varejo e na construção —setores que empregam grande número de argentinos e ficaram para trás em relação à expansão de áreas como energia, mineração e agricultura. A construção encolheu 4,5% em agosto na comparação anual, enquanto a indústria de transformação recuou 4,9%.

    Isso cria um dilema político cada vez maior para Milei, que se prepara para buscar a reeleição no próximo ano.

    "Talvez fosse menos arriscado se preocupar menos com a velocidade da queda da inflação e, em vez disso, oferecer algum alívio a setores urbanos como indústria, comércio e construção", afirmou Giordano. "São esses os setores dos quais vive a maioria dos argentinos e também aqueles em que os dados mostram a maior destruição da atividade econômica e de empregos."

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/09/luta-de-milei-para-manter-peso-valorizado-pressiona-economia-da-argentina.shtml.

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    Javier Milei, presidente da Argentina, discursa durante evento em Buenos Aires - Juan Mabromata - 03.set.26/AFP · Juan Mabromata - 03.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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