Lula: quando a soberba se transforma em derrota
No dia 19 de setembro, em evento de campanha em Florianópolis, referindo-se ao agronegócio, Lula declarou: "se dependesse de dinheiro do governo, eles deveriam não só votar, mas se ajoelhar para mim". Leia mais (10/04/2026 - 23h19)

Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Doutor em ciência política (Iuperj), é diretor do Instituto Brasilis, empresa de pesquisa e consultoria, e autor de livros que abordam de maneira científica a sociedade e a política no Brasil
No dia 19 de setembro, em evento de campanha em Florianópolis, referindo-se ao agronegócio, Lula declarou: "se dependesse de dinheiro do governo, eles deveriam não só votar, mas se ajoelhar para mim".
Não tinha sido a primeira declaração de Lula com esse teor referindo-se ao mais importante setor de nossa economia.

O fato é que Lula, com razão, considerou que em seu primeiro governo tinha atendido muitas demandas da elite, sendo a mais importante delas a geração de superavit primário combinado com sua não interferência nas decisões de Henrique Meirelles, o então presidente do Banco Central.
Porém, essa mesma elite acabou financiando a campanha de impeachment de Dilma e veio literalmente a soltar rojões no dia de sua prisão. Diante disso, o Lula do terceiro mandato optou por não repetir a fórmula de sucesso do Lula de 2003.
As piores decisões de um homem público são aquelas influenciadas pelo rancor. Ao decidir por uma política econômica oposta à que lhe havia levado à reeleição, Lula acabou por selar o destino de seu terceiro mandato.

Presidentes, governadores e prefeitos que conseguem se reeleger, em geral, apertam o cinto das finanças públicas nos primeiros anos e gastam nos últimos. As realizações dos últimos anos de governo, por sua vez, têm forte impacto na avaliação.
É sabido que Fernando Henrique em 1998, Lula em 2006 e Dilma em 2010 foram reeleitos porque tiveram mais do que 38% na soma de ótimo e bom na pesquisa do Datafolha feita durante a semana que antecedeu ao primeiro turno. Bolsonaro em 2022 tinha 31% e Lula nas últimas semanas apenas 34%.
É o governo quem ganha ou perde a eleição. A oposição se limita a dizer para o eleitorado que ela está ali caso a maioria queira mudar. O que vimos nesse primeiro turno e que tende a se repetir no segundo é o desejo de mudança derrotar o desejo de continuidade.

Sim, é muito difícil que Lula ultrapasse Flávio Bolsonaro até o dia 25. Avalio que a probabilidade de que isso aconteça seja mínima, para não ser determinista, nada muito maior do que 2%. Lula terá pelas próximas duas semanas uma batalha inglória, assim o prevejo.
Flávio Bolsonaro, sendo eleito, será a primeira vez depois do fim da ditadura militar que o partido do presidente terá mais de 20% das cadeiras da Câmara dos Deputados e 35% das cadeiras do Senado Federal.
Esse desfecho também tem a marca da soberba de Lula. Haddad foi para o sacrifício ao ser novamente o candidato marcado para perder ao governo de São Paulo, quando poderia ter sido o puxador de votos para deputado federal.
Gleisi Hoffmann também teve esse destino no Paraná ao disputar uma improvável vaga no Senado em vez de reforçar a legenda proporcional. Esses são somente os casos mais notórios. Todos tinham como finalidade ajudar à candidatura de um presidente cujo governo não tinha a soma de ótimo e bom que o tornasse favorito.
Muitas pessoas afirmaram que em 2022 apenas Lula, em função de sua grande capacidade política e de comunicação, teria sido capaz de derrotar Bolsonaro. O que derrotou Bolsonaro na ocasião foi a má avaliação de seu governo. Desta feita, em 2026, muitos disseram que a vitória de Lula estava garantida, pois Flávio Bolsonaro era um candidato fraquíssimo.
O que já derrotou Lula no primeiro turno e confirmará esse resultado no segundo é a má avaliação de seu governo. O peso das circunstâncias é sempre muito maior do que o peso das individualidades.
O que veremos no segundo turno será, da parte de Lula e do PT , uma luta fadada ao fracasso. Inúmeras teorias serão mobilizadas, esperanças alimentadas e o autoengano de simpatizantes e militantes de esquerda ampliado.
O resultado do primeiro turno e o que ele sinaliza para o segundo é a colheita de algo plantado por Lula durante quatro anos. Um governo que não foi de frente ampla, em que pese a promessa da campanha de 2022, liderado por um presidente que não repetiu a fórmula de sucesso de seu primeiro mandato e, pior, deixou-se influenciar pelo sentimento que leva às decisões políticas mais equivocadas: o ressentimento.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
As principais notícias da semana sobre o cenário jurídico e conteúdos exclusivos
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/lula-quando-a-soberba-se-transforma-em-derrota.shtml.

Lula em assinatura da cessão onerosa do Centro de Treinamento Rei Pelé no Palácio do Planalto, em Brasília - Gabriela Bilo/Folhapress · Gabriela Bilo/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

