Brasil

    Lula e Flávio evitam escolher lado, mas China está no bastidor da eleição

    O Brasil vai às urnas neste domingo (4), e quem acompanhou a campanha pela TV quase não ouviu falar da China . Num ano dominado pelo caso Banco Master , pelas brigas com o STF e pelo tarifaço de Donald Trump , Pequim só aparecia quando servia de munição. Leia mais (10/02/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    3 de outubro de 2026 às 02:00
    Lula e Flávio evitam escolher lado, mas China está no bastidor da eleição
    Pessoa vestindo camiseta vermelha segura haste de bandeira da China com fundo de céu azul e outra bandeira ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo

    Jornalista, mestre em Estudos da China pela Academia Yenching (Universidade de Pequim) e em Assuntos Globais pela Universidade Tsinghua

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Manifestantes erguem bandeiras chinesas na comemoração pública do Dia Nacional da China, em Hong Kong - Tyrone Siu - 1.out.26/Reuters · Tyrone Siu - 1.out.26/Reuters
    Manifestantes erguem bandeiras chinesas na comemoração pública do Dia Nacional da China, em Hong Kong - Tyrone Siu - 1.out.26/Reuters · Tyrone Siu - 1.out.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O Brasil vai às urnas neste domingo (4), e quem acompanhou a campanha pela TV quase não ouviu falar da China . Num ano dominado pelo caso Banco Master , pelas brigas com o STF e pelo tarifaço de Donald Trump , Pequim só aparecia quando servia de munição.

    Flávio Bolsonaro usou essa munição em Natal no dia 21, quando disse que o governo Lula "lambe bota da China" e, na mesma fala, prometeu uma relação "pragmática economicamente" com os chineses.

    Lula, que trocou o debate por uma entrevista ao Flow Podcast , elogiou no programa gravado no Planalto a "ousadia dos investidores chineses" na América Latina .

    Rivalidade entre EUA e China chega aos céus da América do Sul
    Rivalidade entre EUA e China chega aos céus da América do Sul — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    No fundo os dois repetem a ideia de que o Brasil não precisa escolher entre Pequim e Washington, algo que dificilmente sobreviverá ao próximo mandato, ganhe quem ganhar.

    Essa ideia fazia sentido enquanto a relação com a China cabia num navio de soja ou de minério de ferro, porque nenhum governo americano pediu ao Brasil que parasse de vender grãos aos chineses que compram perto de 30% de tudo o que o país exporta.

    A conversa vai mudar quando entrarem em cena os minerais críticos , como as terras raras usadas em ímãs de motores elétricos e de mísseis, cujo refino a China controla quase por inteiro.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do planeta, atrás só da própria China, o que fez de Goiás uma espécie de laboratório da disputa. Em abril, a americana USA Rare Earth acertou a compra da mina de Serra Verde por cerca de US$ 2,8 bilhões, num projeto em que o Pentágono pôs mais US$ 750 milhões em agosto, antes de Pequim oferecer uma parceria a Brasília . A chinesa CMOC, aliás, está no estado desde 2016, quando comprou as minas de nióbio da Anglo American.

    Flávio Bolsonaro deixou claro de que lado está em março, quando apresentou o Brasil num encontro conservador em Dallas como a resposta americana ao domínio chinês sobre esses minerais. Dias antes, segundo o site Amado Mundo , o aliado André Marinho havia levado a doadores ligados a J .D. Vance , o vice de Trump, um documento que prometia aos EUA uma cadeia de suprimento paralela à chinesa. Marinho diz que o texto não tinha nada a ver com a campanha, embora trouxesse a marca dela.

    Receba no seu email os grandes temas da China explicados e contextualizados

    Lula quer que o minério seja processado aqui antes de sair do país, com sócio de qualquer bandeira. A lei que ele sancionou em 16 de setembro criou um conselho ligado à Presidência para avaliar participação estrangeira em projetos estratégicos, mas nem essa neutralidade agrada a Washington, que em janeiro chegou a pedir ao Itamaraty que revisse a venda de minas de níquel da Anglo American à chinesa MMG.

    Algumas decisões vão cair no colo do vencedor de qualquer jeito, como a da carne bovina, cuja cota aberta pela China ao Brasil em 2026 já se esgotou, de modo que o excedente paga sobretaxa de 55% e ampliar o limite de 2027 ficará a cargo do próximo governo. No mesmo ano, Xi Jinping preside o Brics , bloco que o programa de Flávio Bolsonaro não cita nenhuma vez em seu plano de gestão.

    Se Flávio ganhar, é provável que o agronegócio consiga manter o comércio com Pequim onde está, mas duvido que aconteça o mesmo com as terras raras. Se o vencedor for Lula, a cobrança tende a vir de Washington, pelo mesmo tarifaço que já serviu para questionar negócios chineses.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/igor-patrick/2026/10/lula-e-flavio-evitam-escolher-lado-mas-china-esta-no-bastidor-da-eleicao.shtml.

    Imagem 1
    1 / 3

    Manifestantes erguem bandeiras chinesas na comemoração pública do Dia Nacional da China, em Hong Kong - Tyrone Siu - 1.out.26/Reuters · Tyrone Siu - 1.out.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)