Lula acena com normalidade no Congresso; Flávio, com o caos deliberado
Ao se entender com cúpula parlamentar, Lula dialoga com Maquiavel, mas também com Lulu, com os Titãs e, sobretudo, com “Os Novos Baianos”

Ao se entender com cúpula do Congresso, Lula dialoga com Maquiavel, mas também com Lulu Santos, Titãs e, sobretudo, “Os Novos Baianos”
O presidente Lula se ajeitou com a cúpula do Congresso na reta já quase final rumo a outubro. Com uma nota importante aqui: tão perto e tão longe! A campanha para valer ainda vai começar. Vocês certamente sabem que o risco para o avião em voo de cruzeiro é baixíssimo. Mas ele não é desprezível nem na decolagem nem na aterrissagem. Metáfora existe para facilitar a compreensão, né? Acho que facilitou. Adiante.
Eu me interesso relativamente pouco por aquilo a que chamo “movimentos de superfície”, que geram muita espuma porque, afinal, as águas da política sempre se agitam. É do jogo. Sempre há bolhas de ar se formando. Com os saponáceos da impostura e vigarice, elas podem durar um pouco mais. As redes, é verdade, dão visibilidade a essa “escuma” — grafia alternativa a “espuma”, mas que significa adicionalmente “gente de baixa extração moral”, a “escumalha”. Os movimentos que acontecem em águas mais fundas tendem a ser mais duradouros. Por que isso?

Não sei se Lula vence ou não a disputa. Não tenho bola de cristal e não passo vergonha fazendo previsões. Prefiro acertar na análise. Hoje e há muito tempo, o petista é favorito. Mas sabem como é a política, né? Jamais deixe Maquiavel de lado — ao contrário: faça dele a sua obsessão. Mas há Lulu Santos, convém não esquecer: “E não há lógica que faça desandar o que o acaso decidir”. Na música de Lulu, há um acaso feliz — que “sempre vai me proteger/ enquanto eu andar distraído”. Aí já estamos com os Titãs, na criação de Sérgio Britto. Mas volto.
Lula parece ter chegado a um bom termo na conversa com Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, que comandou, é segredo de Polichinelo, a rejeição a Jorge Messias para a cadeira que está vaga no STF. “Ah, mas se os dois tiveram uma conversa considerada boa, então eu me preocupo…” Bem… Posso apelar agora à canção “Besta é Tu”, de “Acabou Chorare”, o álbum histórico dos Novos Baianos (1972)? “Besta é tu, besta é tu/(…) Não viver nesse mundo (…) Se não há outro mundo”. Quem leu já entendeu: essa poderia ser a síntese do Capítulo XV de “O Príncipe”, a saber: “Daquelas coisas pelas quais os homens, e especialmente os príncipes, são louvados ou vituperados”. E o Congresso, ora vejam, existe.
Não haverá votação ainda neste ano do fim da jornada 6 X 1. É certo que Alcolumbre não cozinhou o galo para ajudar o candidato petista. Mas ajuda. O presidente e postulante à reeleição vai defender a proposta e forçar a que seu oponente — e, viável, só há um — se manifeste a respeito. Lula é favorável, e Flávio terá de se opor para não desagradar à sua base. E há outras propostas com as quais ele terá de se haver.

Mas voltemos ao Congresso. Tanto Alcolumbre como Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara, que declarou apoio a Lula, são candidatos à reeleição ao comando das duas Casas do Congresso. Em nova Legislatura, podem se reeleger. Os entendimentos de agora, se Lula for reeleito, prenunciam governabilidade e aprovação de algumas pautas centrais para esse intento. “E nas questões sociais, Reinaldo?” Congresso continuará tão ou mais reacionário do que é agora. Mas isso é jogo jogado enquanto parlamentares e partidos tiverem R$ 60 bilhões em emendas. De toda sorte, está claro, crise não haverá.
Ele é a promessa da crise. E não é assim porque que eu quero, mas porque o próprio a anunciou na reunião com candidatos ao Senado. A pauta segue sendo o impeachment de ministros do Supremo, a anistia a golpistas, a proposta asquerosa de soltar trogloditas e prender crianças…
“Bolsonarismo moderado” é um oximoro. Essa modalidade de adesão a valores políticos só existe porque há a tentação de mandar tudo para os ares e recomeçar bem abaixo do zero, no alçapão do fundo do poço. Para alimentar a sede de sangue de seus fanáticos, ele manteria as instituições sob permanente bombardeio, como fez seu papai. Ainda não foi desta feita que a jaca produziu morangos.

Voltemos ao ponto. O entendimento entre Lula e a cúpula do Congresso, goste você dela ou não, representa normalidade institucional. Flávio anuncia a crise, promete a crise, tentará a crise. Inexiste um bolsonarismo da normalidade democrática. Pareceria fraqueza. Você quer o quê? Escolha o seu sonho, como escreveu uma espetacular poeta e cronista.
Não sei se Lula vence ou não a disputa. Não tenho bola de cristal e não passo vergonha fazendo previsões. Prefiro acertar na análise. Hoje e há muito tempo, o petista é favorito. Mas sabem como é a política, né? Jamais deixe Maquiavel de lado — ao contrário: faça dele a sua obsessão. Mas há Lulu Santos, convém não esquecer: “ E não há lógica que faça desandar o que o acaso decidir”. Na música de Lulu, há um acaso feliz — que “sempre vai me proteger/ enquanto eu andar distraído”. Aí já estamos com os Titãs, na criação de Sérgio Britto. Mas volto.
Lula parece ter chegado a um bom termo na conversa com Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, que comandou, é segredo de Polichinelo, a rejeição a Jorge Messias para a cadeira que está vaga no STF. “Ah, mas se os dois tiveram uma conversa considerada boa, então eu me preocupo…” Bem… Posso apelar agora à canção “Besta é Tu”, de “Acabou Chorare”, o álbum histórico dos Novos Baianos (1972)? “Besta é tu, besta é tu/(…) Por que não viver nesse mundo (…) Se não há outro mundo?”. Quem leu já entendeu: essa poderia ser a síntese do Capítulo XV de “O Príncipe”, a saber : “Daquelas coisas pelas quais os homens, e especialmente os príncipes, são louvados ou vituperados”. E o Congresso, ora vejam, existe.
E COM FLÁVIO? Ele é a promessa da crise. E não é assim porque que eu quero, mas porque o próprio a anunciou na reunião com candidatos ao Senado. A pauta segue sendo o impeachment de ministros do Supremo, a anistia a golpistas, a proposta asquerosa de soltar trogloditas e prender crianças…
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Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/colunas/reinaldo-azevedo/lula-acena-com-normalidade-no-congresso-flavio-com-o-caos-deliberado.

Lula acena com normalidade no Congresso; Flávio, com o caos deliberado — Foto: Metrópoles
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