Brasil

    Longe do bafo do povo

    Ninguém precisa acreditar, mas, há pouco mais de cem anos, ministros de Estado, parlamentares da pesada e juízes superiores iam de bonde para o trabalho. Aguardavam na fila, subiam pelo estribo e sentavam-se ao lado de pessoas como você e eu. Todos moravam no Rio , em casa comprada com seus recursos ou alugada de particulares. Suas mulheres organizavam chás de caridade, lanchavam na Colombo e participavam de saraus literários. Seus filhos estudavam em escolas públicas, remavam no Flamengo e trabalhavam no comércio. O Rio era a capital federal e, em torno do poder, situado no centro da cidade,

    Folha de S.Paulo
    24 de setembro de 2026 às 11:00
    Longe do bafo do povo
    A imagem mostra uma vista panorâmica da Esplanada dos Ministérios em Brasília, com a bandeira do Brasil em primeiro plano. Ao fundo, destacam-se os edifícios do Congresso Nacional e o Palácio da Alvorada, além de uma ampla área verde e ruas — Foto: Folha de S.Paulo

    Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, é membro da Academia Brasileira de Letras

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    Imagem aérea feita por drone mostra a praça dos Três Poderes, com destaque para o Congresso Nacional, ao centro, o Palácio do Planalto, à esquerda, e o Supremo Tribunal Federal, à direita - Pedro Ladeira - 31.jan.25/Folhapress
    Imagem aérea feita por drone mostra a praça dos Três Poderes, com destaque para o Congresso Nacional, ao centro, o Palácio do Planalto, à esquerda, e o Supremo Tribunal Federal, à direita - Pedro Ladeira - 31.jan.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ninguém precisa acreditar, mas, há pouco mais de cem anos, ministros de Estado, parlamentares da pesada e juízes superiores iam de bonde para o trabalho. Aguardavam na fila, subiam pelo estribo e sentavam-se ao lado de pessoas como você e eu. Todos moravam no Rio , em casa comprada com seus recursos ou alugada de particulares. Suas mulheres organizavam chás de caridade, lanchavam na Colombo e participavam de saraus literários. Seus filhos estudavam em escolas públicas, remavam no Flamengo e trabalhavam no comércio. O Rio era a capital federal e, em torno do poder, situado no centro da cidade, havia uma coisa chamada povo.

    A mudança da capital para Brasília , promovida por JK em 1960, criou um problema: ninguém queria ir para lá. O Executivo, o Legislativo e o Judiciário eram obrigados, mas seus membros, individualmente, precisaram ser subornados para aceitar a transferência. E dá-lhe de salários duplicados, bônus por comparecimento, casas à beira do lago construídas para eles, carro com motorista e, mais importante, passagens aéreas para o Rio ou para seus estados. O mesmo, em escala menor, se fez com os funcionários públicos. O que era descarado suborno cristalizou-se no que hoje se chama mordomia. E a cornucópia nunca estancou.

    Até por isso, o material humano de que se compõe o poder piorou muito nesses 66 anos. Provincianizou-se, acafonou-se. Nossos maiores são uns deslumbrados que dão expediente em palácios na praça dos Três Poderes, a 300 metros um do outro e a um infinito de distância de um brasileiro normal. Como não têm de ir à esquina nem para comprar um retrós (não há mais retroses e, esquinas, nunca houve), não sentem o bafo do povo e acham natural ser movidos a agrados.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Daí, tome-lhe também de bocas-livres, putas, surubas, charutos, uísques, jatinhos, desconto em hotéis de luxo, temporadas de esqui, ingressos para a Fórmula 1, camarote na Sapucaí, contratos em nome de terceiros, comissões.

    Só provincianos, cafonas e deslumbrados se deixam vender por tão pouco.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2026/09/longe-do-bafo-do-povo.shtml.

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    Imagem aérea feita por drone mostra a praça dos Três Poderes, com destaque para o Congresso Nacional, ao centro, o Palácio do Planalto, à esquerda, e o Supremo Tribunal Federal, à direita - Pedro Ladeira - 31.jan.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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