Brasil

    Locadora de livros no Rio de Janeiro preserva curadoria sem algoritmo há 30 anos

    Entrar na Encontro Marcado, uma pequena locadora de livros no segundo andar de uma galeria em Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro, é como parar o tempo por algumas páginas. A experiência parece desafiar o ritmo acelerado das novas formas de consumir livros. Leia mais (10/09/2026 - 13h00)

    Folha de S.Paulo
    9 de outubro de 2026 às 16:00
    Locadora de livros no Rio de Janeiro preserva curadoria sem algoritmo há 30 anos
    Mulher sorridente com cabelo cacheado e roupa escura sentada em cadeira próxima a mesa com pilhas de livros e vaso de flores, rodeada por estantes cheias de livros. — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Entrar na Encontro Marcado, uma pequena locadora de livros no segundo andar de uma galeria em Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro, é como parar o tempo por algumas páginas. A experiência parece desafiar o ritmo acelerado das novas formas de consumir livros.

    Fachada da locadora de livros Encontro Marcado que mantém há cerca de 30 anos a tradição de aluguel de livros, em Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro - Eduardo Anizelli/Folhapress · Eduardo Anizelli/Folhapress
    Fachada da locadora de livros Encontro Marcado que mantém há cerca de 30 anos a tradição de aluguel de livros, em Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro - Eduardo Anizelli/Folhapress · Eduardo Anizelli/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Aberta em 1996, a locadora mantém há três décadas uma forma de viver a leitura que parece ter ficado para trás. Por R$ 120 mensais, o leitor pode levar quantos títulos quiser, sem prazo. Há também uma modalidade de R$ 60 que permite levar um livro por vez. A ideia é simples: ler, voltar, trocar e começar outra história.

    "Leitura não tem prazo, tem prazer", diz Ana Klajman, 83, bibliotecária aposentada que criou o espaço para continuar fazendo aquilo de que gostava: emprestar livros , conversar com leitores e ajudar a encontrar a próxima leitura.

    É uma curadoria sem algoritmo. Ana conhece os clientes pelo nome, lembra o que já leram e, com o tempo, aprende a reconhecer seus gostos. Rita Benaderet, 74, publicitária aposentada, é uma das clientes. Assídua desde 2009, diz que boa parte do que lê hoje sai das estantes da Encontro Marcado.

    A bibliotecária Ana Klajman, 83, criou a locadora Encontro Marcado, em Ipanema, há 30 anos - Eduardo Anizelli/Folhapress · Eduardo Anizelli/Folhapress
    A bibliotecária Ana Klajman, 83, criou a locadora Encontro Marcado, em Ipanema, há 30 anos - Eduardo Anizelli/Folhapress · Eduardo Anizelli/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Dificilmente ela me recomendou alguma coisa de que eu não gostei. E tem muita coisa que você não acha mais em livraria, alguns clássicos e autores que eu nem conhecia. Ela foi me desvendando esse mundo todo", conta.

    Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias

    A cliente afirma que nunca teve curiosidade de trocar o papel por outros meios de leitura. "Eu cresci analógica. O livro é um negócio gostoso que a gente não sabe explicar. Eu cresci com livros. Então o Kindle , por exemplo, não me atrai."

    Conheça Freida McFadden, autora de 'A Empregada'
    Conheça Freida McFadden, autora de 'A Empregada' — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Rita também diz encontrar ali uma vantagem prática: lê muito sem precisar transformar a casa em biblioteca. "Se você colocar na ponta do lápis, é mais econômico. E você não tem um acúmulo de livros em casa, porque chega uma hora em que não tem mais onde botar livro."

    O acervo da locadora tem cerca de 12 mil títulos, entre clássicos, lançamentos, literatura infantil, biografias e obras de história, cinema, teatro e poesia. Há livros que já não são encontrados facilmente. Ana acompanha os lançamentos pelos jornais, pelos pedidos dos leitores e nas visitas semanais às livrarias. Hoje, diz ela, a campeã de empréstimos é Freida McFadden , autora de "A Empregada" .

    Os livros são organizados pela Classificação Decimal de Dewey, sistema usado por bibliotecas para ordenar o acervo por assuntos e facilitar a localização das obras. Mas, depois de décadas entre estantes, Ana também guarda muita coisa na memória.

    Bibliotecas, livrarias e sebos de São Paulo
    Bibliotecas, livrarias e sebos de São Paulo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Filha de uma família judia que deixou a Europa durante a Segunda Guerra Mundial , ela chegou ao Brasil ainda criança. Aos seis anos, aprendeu a ler e escrever em português. Incentivada pelo pai, passou a ler jornais e livros desde cedo e logo se encantou pelo universo das bibliotecas.

    O prazer pela leitura a levou a se formar em biblioteconomia e, mais tarde, à subchefia da Biblioteca de Copacabana, onde trabalhou por 27 anos. Quando a biblioteca fechou, Ana se aposentou. Tinha cerca de 50 anos e não sabia o que fazer sem os livros e os leitores.

    Após uma sugestão de seu marido, em 20 de maio de 1996, nasceu a Encontro Marcado.

    Entrada de locadora de livros com placa antiga escrita 'Locadora de Livros' e vidro frontal com adesivo 'Alugue Livros'. Interior visível mostra estantes cheias de livros organizados.
    Entrada de locadora de livros com placa antiga escrita 'Locadora de Livros' e vidro frontal com adesivo 'Alugue Livros'. Interior visível mostra estantes cheias de livros organizados. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O nome também veio de um livro. Karen Klajman, filha de Ana, tinha cerca de 22 anos quando pediu à mãe uma indicação de literatura brasileira. Ana sugeriu "O Encontro Marcado", de Fernando Sabino . Karen se encantou com o romance, e o título acabou batizando a locadora. Anos depois da inauguração, o próprio escritor apareceu ali ao descobrir a homenagem e autografou exemplares de seus livros.

    Karen, hoje com 54 anos, cresceu entre os livros da biblioteca onde a mãe trabalhava. Quando Ana decidiu abrir a locadora, a filha tinha acabado de se formar em engenharia química e descobria que não queria seguir naquela profissão.

    "Eu sempre vivi lá na Biblioteca de Copacabana quando ela trabalhava. Criancinha, já ia muito, gostava muito daquele universo. Quando ela veio com essa ideia de querer abrir a biblioteca, eu falei: ‘Eu quero fazer com você’. E foi assim que a gente começou."

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    As duas trabalharam juntas por décadas. Há quase três anos, Karen se dedica à proteção animal e não mantém mais a rotina diária na locadora, mas continua ajudando a mãe.

    Durante a pandemia , quando a locadora precisou fechar, a filha entregava livros de bicicleta pela zona sul e recolhia os que já haviam sido lidos. O movimento, porém, nunca voltou ao que era antes.

    Para Ana, a pandemia acelerou uma mudança nos hábitos de leitura . "Passou a pandemia, [vem] cada vez menos [gente]. As pessoas leem menos, veem muita TV, vivem o dia inteiro no celular. Jovem, jovem, muito pouco. Criança mais, porque a mãe pega livro para a criança. Mas jovem mesmo, muito poucos", afirma Ana.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Aos 15 anos, Luisa Daylac é uma exceção. Ela começou a frequentar o espaço com mais regularidade no início deste ano e diz ler, em média, cinco livros por mês. Para ela, a experiência do livro físico é um diferencial. "Eu não consigo me adaptar a ler no Kindle, porque, para mim, é uma experiência completamente diferente estar com o livro nas mãos. Você conseguir folhear as páginas, sentir o livro na sua mão, olhar a capa do livro."

    Luísa conta que outras adolescentes de sua escola também passaram a ler mais neste ano. Segundo ela, um grupo de cerca de sete amigas costuma se encontrar na biblioteca durante o recreio e o almoço para ler, trocar livros e indicar uma às outras novas histórias.

    A locadora hoje tem cerca de 70 clientes fixos. Há leitores desde os primeiros anos e leitores que continuam voltando depois de mais de uma década. Segundo Ana Klajman, uma de suas primeiras clientes, hoje com 95 anos e mobilidade reduzida, ainda faz questão de ir ao espaço. Outro leitor, que se mudou para a região serrana do Rio, mantém o hábito por meio da nora.

    Rita Benaderet está entre os que não pretendem abandonar o ritual. "Esses anos todos eu trouxe sempre muitos livros para casa. E vai ser assim: enquanto ela estiver lá, eu estou junto."

    Ana abre a locadora de segunda a sexta-feira, mantendo a rotina de procurar títulos e lembrar preferências. O negócio não é sua fonte de sustento —é ela quem o mantém financeiramente. "Eu não vivo disso, mas é maravilhoso, minha vida. Eu sou plena aqui."

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/10/locadora-de-livros-no-rio-de-janeiro-preserva-curadoria-sem-algoritmo-ha-30-anos.shtml.

    Imagem 1
    1 / 7

    Fachada da locadora de livros Encontro Marcado que mantém há cerca de 30 anos a tradição de aluguel de livros, em Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro - Eduardo Anizelli/Folhapress · Eduardo Anizelli/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)