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    Livros da Fuvest: 'A Paixão Segundo G.H.' conduz experiência aberta ao indizível

    Uma experiência aparentemente banal conduz a personagem para uma reflexão sobre a existência. Na lista de leituras obrigatórias para o vestibular 2027 , a Fuvest aposta em narrativa com fluxo de consciência, aberta ao indizível. Leia mais (08/12/2026 - 08h00)

    Folha de S.Paulo
    12 de agosto de 2026 às 11:00
    Livros da Fuvest: 'A Paixão Segundo G.H.' conduz experiência aberta ao indizível
    Mulher em preto e branco com colar de pérolas e suéter estampado está centralizada em cozinha desenhada. Ao redor, insetos em diferentes fases e uma barata vermelha aparecem no topo. Plantas carnívoras e galhos secos estão distribuídos na f — Foto: Folha de S.Paulo

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    Uma experiência aparentemente banal conduz a personagem para uma reflexão sobre a existência. Na lista de leituras obrigatórias para o vestibular 2027 , a Fuvest aposta em narrativa com fluxo de consciência, aberta ao indizível.

    Colagem sobre o livro "A Paixão Segundo G.H.", de Clarice Lispector, que está na lista da Fuvest 2027 - Carolina Daffara/Folhapress · Carolina Daffara/Folhapress
    Colagem sobre o livro "A Paixão Segundo G.H.", de Clarice Lispector, que está na lista da Fuvest 2027 - Carolina Daffara/Folhapress · Carolina Daffara/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Minha voz é o modo como vou buscar a realidade; a realidade, antes de minha linguagem, existe como um pensamento que não se pensa, mas por fatalidade fui e sou impelida a precisar saber o que o pensamento pensa" – trecho do livro "A Paixão Segundo G.H."

    Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik, na Ucrânia, e os registros de seu nascimento apresentam rasuras. "Segundo a biógrafa Nádia Battella Gotlib, pelo conjunto de documentos, se estabeleceu que ela nasceu em 1920 ", diz Luiz Lopes, professor de língua portuguesa, literatura e cultura do Cefet-MG. Batizada como Haia Lispector, que em hebraico significa "vida animal", veio para o Brasil com os seus pais em razão da perseguição aos judeus. Naturalizada brasileira, passou a se chamar Clarice. "Quando pensamos nas origens, percebemos que o pertencimento dela é de difícil definição", observa.

    Clarice fez graduação em direito pela UFRJ ( Universidade Federal do Rio de Janeiro). Lá conheceu o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem foi casada de 1943 a 1959 e teve dois filhos. Morou em diferentes países, como Itália, Suíça e Estados Unidos.

    Clarice Lispector
    Clarice Lispector — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em 1940, publicou o seu primeiro conto na Revista Pan. Três anos depois, lançou o romance "Perto do Coração Selvagem", livro que a projetou e rendeu o prêmio Graça Aranha. Trabalhou para o Jornal Correio da Manhã, em 1959, escrevendo a coluna "Correio Feminino" e, no ano seguinte, colaborou para o Diário da Noite, com a coluna "Só para Mulheres". Suas influências vão do clássico ao popular. "É importante ressaltar que se trata de uma mulher e, justamente pela barreira que isso significava em termos da valorização patriarcal da sociedade brasileira, ela foi imediatamente reconhecida", ressalta Eduardo Gross, professor nos Programas de Pós-Graduação em Filosofia e Ciência da Religião da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora).

    Em 1976, recebeu o prêmio pelo conjunto da obra oferecido pela Fundação Cultural do Distrito Federal. Morreu no Rio de Janeiro, em 1977 , às vésperas de completar 57 anos, em decorrência de um câncer de ovário.

    A obra pede uma leitura pausada e reflexiva. "É importante tomar cuidado com um juízo muito rápido. A primeira coisa é se desarmar. A nossa vida está cada vez mais corrida, mais atropelada, e um texto como o de Clarice é o contrário disso", afirma Gross. Trata-se de uma escrita que tem uma característica próxima às alusões e aos sonhos.

    Sesi
    Sesi — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Apesar de ser possível resumir a narrativa em uma frase, a obra apresenta reflexões profundas e especulativas, combinando os usos de paradoxos e oxímoros, que criam tensões. "O objetivo é, pela própria linguagem, gerar choque. Clarice quer nos apontar que existe verdade para além daquilo que cabe dentro da nossa forma de expressão", explica o professor da UFRJ. Um exemplo disso ocorre quando a personagem olha pela janela e vê nos morros do Rio de Janeiro a Palestina. Entre a especulação e a memória histórica, a autora faz de um acontecimento específico uma realidade humana mais complexa.

    A paródia dos evangelhos, explícita no título, é centrada no feminino, presença primordial na obra. Envolve a narradora G.H. –mulher branca, burguesa e artista– a empregada negra Janair e uma barata. Após terminar sua jornada de trabalho, Janair acaba por auxiliar a desestabilizar a vida supostamente organizada de G.H., evidenciando modelos que limitam a existência humana. "A crítica social da autora não é direta, mas aparece ligada à experiência interior da personagem", diz Gross.

    Corpo como dimensão existencial e religiosa

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    FB Online — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O encontro com a barata leva G.H. da noção de estabilidade para a perturbação e, posteriormente, para uma nova versão de si. Ela descobre uma alegria difícil a partir desse contato entre o humano e o animal, que inclui dor e liberdade. Nesse contexto, a autora questiona a racionalidade como única forma de conhecimento. "Ler a obra é ‘entrar em contato com’. Tem muito da emoção. Ela toca em um lugar que a palavra não dá conta. Clarice é escritora do indizível ", comenta Lopes.

    A barata assume uma dimensão religiosa ao deslocar o pensamento cristão para o mundo concreto. "A narradora diz que o divino é o real. Ela é uma escritora do instante, não tem uma redenção. É agora", diz. Ainda, é um livro sobre a alteridade. "Clarice desconfiava muito da primazia do humano em relação a outras formas de vida", ressalta.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2026/08/livros-da-fuvest-a-paixao-segundo-gh-conduz-experiencia-aberta-ao-indizivel.shtml.

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