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    Livro que reacende caso Tupac é pouco confiável e vem de um falastrão

    O primeiro julgamento sobre o assassinato do rapper Tupac Shakur , ocorrido em 1996, não é apenas um imenso circo midiático alimentado por uma vítima que já era um astro mundial do hip-hop aos 25 anos. Se Duane "Keffe D" Davis for condenado pelo conteúdo de seu livro autobiográfico lançado em 2019, a Justiça americana transformará em prova um relato pessoal e pouco confiável. Leia mais (08/20/2026 - 10h00)

    Folha de S.Paulo
    20 de agosto de 2026 às 13:00
    Livro que reacende caso Tupac é pouco confiável e vem de um falastrão
    homem sem camisa e de bandana fumando cigarro — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

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    O rapper americano Tupac Shakur - Chi Modu/Chi Modu · Chi Modu/Chi Modu
    O rapper americano Tupac Shakur - Chi Modu/Chi Modu · Chi Modu/Chi Modu — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O primeiro julgamento sobre o assassinato do rapper Tupac Shakur , ocorrido em 1996, não é apenas um imenso circo midiático alimentado por uma vítima que já era um astro mundial do hip-hop aos 25 anos. Se Duane "Keffe D" Davis for condenado pelo conteúdo de seu livro autobiográfico lançado em 2019, a Justiça americana transformará em prova um relato pessoal e pouco confiável.

    Essa é a conclusão lógica e óbvia depois da leitura das 224 páginas de "Compton Street Legend", escrito por Davis em parceria com Yusuf Jah . A proposta inicial do autor era contar sua vida transitando pelo alto escalão da cena "gangsta rap " dos anos 1990, marcada por disputas violentas entre gangues que montaram gravadoras e produtoras de show.

    A importância do livro se concentra no relato da noite de 7 de setembro de 1996. Davis admite que estava em Las Vegas para assistir à luta de boxe entre Mike Tyson e Bruce Seldon. Depois do combate, ele soube que seu sobrinho Orlando "Baby Lane" Anderson havia sido atacado por integrantes da gravadora pela qual Shakur lançava seus discos, a Death Row. Imagens de segurança registraram a agressão, na qual participaram Shakur e Suge Knight, dono da gravadora.

    Tupac Shakur
    Tupac Shakur — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A narrativa de Davis descreve sua indignação diante do ataque ao sobrinho e relata que ele decidiu procurar Knight e Shakur. Davis conseguiu uma pistola Glock calibre .40 e entrou em um Cadillac branco com Anderson, DeAndre "Freaky" Smith e Terrence "Bubble Up" Brown. Ele afirma ter colocado a arma no banco traseiro do carro.

    O Cadillac acabou encontrando o BMW preto no qual estavam Tupac e Knight. Davis descreve o momento como um confronto que aconteceu em segundos. O livro afirma que Shakur percebeu o carro, fez um movimento em direção ao assoalho de seu veículo e, imediatamente, começaram os disparos.

    Davis se coloca em uma posição juridicamente perigosa. O que ele descreve é sua participação na cadeia de acontecimentos. Ele sabe da agressão, decide retaliar, traz a arma, entra no Cadillac e a entrega aos homens que estavam no banco traseiro. A acusação sustenta que essa participação o transforma em responsável pelo assassinato, mesmo que outro integrante do grupo tenha disparado.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O livro também afirma que Davis ajudou a esconder o Cadillac e a arma depois do crime, e que o veículo foi reparado e repintado antes de ser devolvido à empresa de aluguel. Esse detalhe aumentou o interesse dos investigadores porque não se limita a colocá-lo no carro, mas apresenta uma suposta participação posterior na ocultação de evidências.

    Mas o leitor de "Compton Street Legend" nem precisa ser um profundo conhecedor do mercado musical americano para perceber que o relato de Davis vem carregado de autopromoção. Ao tocar negócios na cena milionária do hip-hop, Davis atua em um cenário violento, no qual reuniões de executivos tinham chance de resultar em tiros e morte. Esse tipo de episódio aconteceu várias vezes.

    Na tentativa de Davis se mostrar tão arrogante e agressivo quanto seus rivais nesse mercado, muitas passagens do livro transmitem uma sensação de exagero. "Keffe D" parece ser mais do que um simples codinome rapper de Davis. Não é errado pensar que ele criou em sua cabeça um personagem durão e usa o livro como propaganda de seu poder.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    As páginas concentram declarações sobre o assassinato de Shakur que Davis já tinha espalhado em entrevistas. Mas é no livro que o relato esboça uma suposta força de confissão.

    A ironia é extraordinária. O homem que, durante anos, contou sua versão da história para ganhar dinheiro, notoriedade e status de testemunha privilegiada, passou a enfrentar a possibilidade de prisão perpétua justamente por suas próprias narrativas.

    Davis, hoje com 63 anos, está sendo julgado em Las Vegas por homicídio com uso de arma letal e intenção de promover, fomentar ou auxiliar uma gangue. Ele se declara inocente.

    A defesa encontrou uma estratégia óbvia. Davis passou a negar que "Compton Street Legend" possa ser tratado como uma confissão. Seus advogados sustentam que o livro foi produzido com a participação de Yusuf Jah e que partes do texto podem ter sido inventadas ou exageradas para fins comerciais.

    Davis é claramente um falastrão, mas parece ser esperto na construção da narrativa. Ele se coloca dentro do carro na noite do ataque a Shakur ao lado de três pessoas que não podem contestá-lo. Anderson, Smith e Brown morreram nos anos seguintes, em disputas violentas com rivais. A expectativa de vida no gangsta rap parece ser realmente muito baixa.

    Essa talvez seja a questão central do julgamento: a credibilidade do livro. "Compton Street Legend" não é um documento policial nem uma investigação independente. É uma autobiografia escrita por alguém que construiu uma imagem pública de gângster, traficante e "homem da rua". Seu conteúdo foi vendido como um relato privilegiado de alguém que estava lá, mas tudo o que está escrito é inseparável da figura midiática de Keffe D, claramente um bufão.

    O livro pode condenar um personagem, Keffe D, mas quem arrisca cumprir condenação de prisão perpétua é o homem, Duane Davis.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/livro-que-reacende-caso-tupac-e-pouco-confiavel-e-vem-de-um-falastrao.shtml.

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    O rapper americano Tupac Shakur - Chi Modu/Chi Modu · Chi Modu/Chi Modu — Foto: Folha de S.Paulo

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