Brasil

    Livro perturbador narra a 'banalidade do mal' em naufrágio de imigrantes

    Por volta da meia-noite do dia 23 de novembro de 2021, 31 pessoas morreram nas águas geladas do canal da Mancha depois do naufrágio do barco inflável em que faziam a travessia. Eram 21 homens, 7 mulheres, uma delas grávida, e 3 adolescentes, quase todos imigrantes asiáticos ou africanos. Leia mais (08/29/2026 - 13h00)

    Folha de S.Paulo
    29 de agosto de 2026 às 16:00
    Livro perturbador narra a 'banalidade do mal' em naufrágio de imigrantes
    Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa juízo de valor sobre a obra cultural comentada e destaca seus elementos positivos e negativos

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    O escritor francês Vincent Delecroix, autor de 'O Naufrágio' - JUSTIN TALLIS/AFP · JUSTIN TALLIS/AFP
    O escritor francês Vincent Delecroix, autor de 'O Naufrágio' - JUSTIN TALLIS/AFP · JUSTIN TALLIS/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Doutorando em política comparada na Universidade de Lisboa e repórter colaborador da Folha

    Por volta da meia-noite do dia 23 de novembro de 2021, 31 pessoas morreram nas águas geladas do canal da Mancha depois do naufrágio do barco inflável em que faziam a travessia. Eram 21 homens, 7 mulheres, uma delas grávida, e 3 adolescentes, quase todos imigrantes asiáticos ou africanos.

    A tragédia —a maior no canal desde que existem estatísticas confiáveis— deu origem a um bate-boca entre Emmanuel Macron e Boris Johnson , motivou uma investigação policial e foi o mote para o romance "O Náufrágio", do escritor e filósofo francês Vincent Delecroix.

    Imigrantes tentam cruzar Canal da Mancha
    Imigrantes tentam cruzar Canal da Mancha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Finalista em dois prêmios importantes —o Goncourt francês e a versão internacional do Booker—, o livro tem como ponto de partida um diálogo por telefone, capturado pela investigação policial, entre um dos náufragos e uma funcionária do sistema de resgate francês.

    Diante dos pedidos desesperados de ajuda, a funcionária, cujo nome nunca foi revelado, diz: "Não te pedi para partir". E minutos mais tarde: "Você não será salvo".

    Em entrevista ao canal do clube de leitura da cantora Dua Lipa , Delecroix afirmou: "É algo de uma indiferença inimaginável, de alguém sem sentimentos ou capacidade de empatia".

    Veja autores que já venceram o francês Goncourt
    Veja autores que já venceram o francês Goncourt — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A partir dos dados da investigação, e sobretudo dessas duas frases, que chocaram franceses e britânicos ao aparecer na imprensa, Delecroix imaginou uma personagem e construiu uma ficção incômoda e perturbadora. O livro é narrado do ponto de vista da funcionária que, num hipotético interrogatório policial, tenta justificar o injustificável.

    A mulher culpa a incompetência dos colegas franceses. Culpa os britânicos que, segundo ela, deveriam se responsabilizar por um barco que entrava em seu mar territorial. Invoca o estresse de ter que cuidar sozinha de uma filha de seis anos. Cita o ex-marido extremista, que achava que pessoas que tentavam entrar clandestinamente num país mereciam morrer. E culpa, por fim, os próprios imigrantes, na frase que abre o livro: "Não te pedi para partir".

    A discussão filosófica que perpassa "O Náufragio" ecoa o ensaio "Eichmann em Jerusalém", publicado por Hannah Arendt em 1963 na revista The New Yorker e citado por Delecroix em entrevistas.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Enviada pela publicação americana para cobrir o julgamento de Adolf Eichmann —o funcionário encarregado de organizar os trens que levavam prisioneiros judeus para a morte em campos de concentração— a filósofa alemã reflete sobre a "banalidade do mal".

    Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias

    De maneira análoga a Eichmann, a funcionária de "O Náufragio" alega ter um protocolo a cumprir, e que qualquer tipo de envolvimento emocional afetaria a clareza de suas decisões. Uma decisão sua, no entanto, selou a morte dos 31 imigrantes.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A mulher dispunha da localização exata do bote inflável e recebeu da Marinha a informação de que um barco francês estava próximo ao naufrágio. Talvez por considerar que a ação de salvamento cabia aos britânicos, a funcionária não contatou o barco francês.

    "O Náufragio" é incômodo sobretudo porque trata de uma situação recorrente. Estima-se que de 30 mil a 40 mil pessoas por ano tentem cruzar o Canal da Mancha em direção ao Reino Unido. Em geral são imigrantes que buscam se reunir a parentes que já vivem em solo britânico ou que estão em busca de trabalho.

    De acordo com a Marinha francesa, cerca de metade dessas embarcações são interceptadas logo que deixam a costa. Entre os que conseguem atingir o outro lado, poucos escapam da prisão e deportação.

    Lançado na França em 2023, o livro está em sintonia com o debate atual sobre imigração na União Europeia .

    Em 17 de junho, o Parlamento Europeu aprovou uma lei que cria centros de detenção de imigrantes em países terceiros, seguindo o modelo implantado pela ultradireita italiana e pela centro-esquerda dinamarquesa . A regulamentação é fortemente criticada por organizações de direitos humanos por deixar pessoas vulneráveis num limbo jurídico.

    Delecroix provoca os europeus, que assistem indiferentes a uma tragédia humanitária, com reflexões de sua protagonista. Ela se queixa de sofrer um "massacre midiático", que ocorreria "para que a humanidade se tranquilize em relação a si mesma, para que a humanidade não duvide de sua humanidade e não corra o risco de suspeitar do que se tornou, ou seja, uma moça como eu, como o que eu me tornei".

    E arremata. "O que se ouve não é a voz de um monstro ou de uma criminosa —é a voz de todo mundo."

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/livro-perturbador-narra-a-banalidade-do-mal-em-naufragio-de-imigrantes.shtml.

    Imagem 1
    1 / 5

    O escritor francês Vincent Delecroix, autor de 'O Naufrágio' - JUSTIN TALLIS/AFP · JUSTIN TALLIS/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)