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    Livro 'Born' expõe violência política antes do golpe na Argentina

    A Argentina da ditadura militar é conhecida muito além de suas fronteiras. Menos conhecido é o país que existiu imediatamente antes dela: uma democracia em que guerrilhas sequestravam e matavam, grupos parapoliciais de extrema direita perseguiam adversários e a violência começava a ocupar o lugar da política. Leia mais (08/17/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    18 de agosto de 2026 às 02:00
    Livro 'Born' expõe violência política antes do golpe na Argentina
    Multidão densa segura duas longas faixas com fotos em preto e branco de pessoas desaparecidas. Participantes exibem cartazes com imagens individuais, em ambiente externo durante o dia. — Foto: Folha de S.Paulo

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    A Argentina da ditadura militar é conhecida muito além de suas fronteiras. Menos conhecido é o país que existiu imediatamente antes dela: uma democracia em que guerrilhas sequestravam e matavam, grupos parapoliciais de extrema direita perseguiam adversários e a violência começava a ocupar o lugar da política.

    Manifestantes seguram uma faixa com retratos de desaparecidos, no 50º aniversário da última ditadura militar, em Buenos Aires - Luis Robayo - 24.mar.26/AFP · Luis Robayo - 24.mar.26/AFP
    Manifestantes seguram uma faixa com retratos de desaparecidos, no 50º aniversário da última ditadura militar, em Buenos Aires - Luis Robayo - 24.mar.26/AFP · Luis Robayo - 24.mar.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    É nesse intervalo vertiginoso, entre a morte de Juan Domingo Perón , em 1974, e o golpe de 1976 , que se desenrola a história de "Born", livro da jornalista argentina María O'Donnell.

    O episódio escolhido para registrar esse período é um verdadeiro thriller político. Em 19 de setembro de 1974, pouco depois da morte de Perón, os chamados Montoneros (integrantes de uma guerrilha urbana da esquerda peronista) sequestraram Juan e Jorge Born, herdeiros de um dos maiores conglomerados empresariais da Argentina. O resgate pedido foi de US$ 60 milhões (cerca de R$ 2,1 bilhões, na cotação atual).

    O'Donnell abre o livro com a reconstituição eletrizante da emboscada. À luz do dia, militantes disfarçados de funcionários de uma empresa de serviços públicos interceptam os carros em que os irmãos estavam. Em minutos, dois integrantes de uma das famílias mais ricas do país desaparecem nas mãos da guerrilha.

    Manifestantes com um cartaz retratando o ex-presidente argentino, Juan Domingo Perón, participam de uma marcha até a Praça de Maio, em Buenos Aires - Luis Robayo - 24.mar.26/AFP · Luis Robayo - 24.mar.26/AFP
    Manifestantes com um cartaz retratando o ex-presidente argentino, Juan Domingo Perón, participam de uma marcha até a Praça de Maio, em Buenos Aires - Luis Robayo - 24.mar.26/AFP · Luis Robayo - 24.mar.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A cena remete à abertura do filme " Ainda Estou Aqui " (2024), em que uma batida do Exército num túnel, à procura de "subversivos", introduz a violência da ditadura no cotidiano carioca. Em "Born", porém, há uma inversão incômoda: quem executa a operação armada é a esquerda revolucionária, e os alvos são empresários.

    A coincidência torna sugestivo que "Born", publicado em 2015, esteja entre os próximos projetos de Walter Salles , diretor de "Ainda Estou Aqui". Se seu último filme oferecia uma história que a esquerda latino-americana podia abraçar, "Born" é uma pílula mais amarga: obriga a olhar também para a violência praticada em nome da revolução.

    Perón morreu em julho de 1974. A Presidência passou para a sua mulher e vice, Isabelita . À sombra do governo atuava a "Triple A", uma organização parapolicial que perseguia adversários identificados com a esquerda. Do outro lado, os Montoneros e o Exército Revolucionário do Povo (ERP), um dos principais grupos guerrilheiros argentinos, recorriam à luta armada. A Argentina ainda era uma democracia, mas já vivia na antessala do golpe.

    Rodolfo Galimberti, guerrilheiro argentino que liderou o grupo Montonero, que em 1974 sequestrou os irmãos Juan e Jorge Born - Reuters · Reuters
    Rodolfo Galimberti, guerrilheiro argentino que liderou o grupo Montonero, que em 1974 sequestrou os irmãos Juan e Jorge Born - Reuters · Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo

    Os Montoneros haviam lutado pelo retorno de Perón do exílio, imaginando encontrar nele o caminho para uma transformação revolucionária. Porém, de volta ao poder, o político se aproximou do sindicalismo tradicional e rompeu com a juventude radicalizada.

    Os Born foram escolhidos por serem herdeiros da Bunge & Born, um dos mais poderosos grupos econômicos argentinos. Eram inimigos de classe e uma extraordinária fonte de recursos: sequestros extorsivos de empresários também financiavam a guerrilha.

    Multidão em manifestação segura bandeiras brancas e cartaz azul com rosto de Perón e texto '¡Nada! Sin Perón' em rua cercada por prédios altos sob céu claro.
    Multidão em manifestação segura bandeiras brancas e cartaz azul com rosto de Perón e texto '¡Nada! Sin Perón' em rua cercada por prédios altos sob céu claro. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O'Donnell reconstrói a operação e o cativeiro e acompanha suas consequências. Quinze anos depois, Jorge Born voltaria a negociar com antigos Montoneros para tentar recuperar parte do dinheiro do resgate.

    Uma das jornalistas de maior prestígio da Argentina, O'Donnell teve no testemunho de Jorge Born uma peça fundamental de sua investigação.

    Além da adaptação cinematográfica, "Born" será lançado no Brasil, pela Intrínseca, em 2027.

    Homem de meia-idade com cabelo castanho curto, pele clara e olhos azuis, veste terno preto, camisa branca e gravata vermelha com estampa floral, sorrindo levemente, fundo desfocado com tons verdes.
    Homem de meia-idade com cabelo castanho curto, pele clara e olhos azuis, veste terno preto, camisa branca e gravata vermelha com estampa floral, sorrindo levemente, fundo desfocado com tons verdes. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O'Donnell recupera os anos em que uma democracia se deteriorava sob a violência da extrema direita e da esquerda armada, sem que o golpe que viria a seguir estivesse predeterminado. É essa Argentina anterior às certezas da história que "Born" ajuda a compreender.

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    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/08/livro-born-expoe-violencia-politica-antes-do-golpe-na-argentina.shtml.

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    Manifestantes seguram uma faixa com retratos de desaparecidos, no 50º aniversário da última ditadura militar, em Buenos Aires - Luis Robayo - 24.mar.26/AFP · Luis Robayo - 24.mar.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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