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    Livro best-seller 'Bons Tempos' cutuca vespeiro das 'tradwives' modernas

    Na literatura dos Estados Unidos , o primeiro semestre deste ano foi marcado por dois livros que, além de alcançarem o topo da lista de mais vendidos, também se assemelham ao questionar os alicerces do casamento. Leia mais (08/23/2026 - 10h00)

    Folha de S.Paulo
    23 de agosto de 2026 às 13:00
    Livro best-seller 'Bons Tempos' cutuca vespeiro das 'tradwives' modernas
    Rosto feminino em perfil com pele clara e lábios vermelhos, sobreposto por uma colagem que mostra vacas pastando em campo verde sob céu azul com nuvens. — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa juízo de valor sobre a obra cultural comentada e destaca seus elementos positivos e negativos

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    Jo Thomson fez a ilustração de capa de 'Bons Tempos', romance de Caro Claire Burke - Agnew’s, London/Bridgeman Images/Stocksy · Agnew’s, London/Bridgeman Images/Stocksy
    Jo Thomson fez a ilustração de capa de 'Bons Tempos', romance de Caro Claire Burke - Agnew’s, London/Bridgeman Images/Stocksy · Agnew’s, London/Bridgeman Images/Stocksy — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na literatura dos Estados Unidos , o primeiro semestre deste ano foi marcado por dois livros que, além de alcançarem o topo da lista de mais vendidos, também se assemelham ao questionar os alicerces do casamento.

    Em "Strangers: A Memoir of Marriage" (ainda sem tradução ao português), Belle Burden expõe a fragilidade de sua experiência afetiva após seu marido há 20 anos deixar tudo para trás por um caso extraconjugal. A curiosidade sobre a vida privada da elite de Nova York catapultou as vendas.

    Já "Bons Tempos – Yesteryear", que chega agora ao Brasil pela editora Rocco, deixou a internet em polvorosa pela aproximação entre este romance de estreia de Caro Claire Burke e a vida perfeita vendida pelos perfis de "tradwives" , as esposas que se mostram fiéis ao tradicionalismo nas redes sociais. É um movimento que põe em revisão o sonho americano.

    Conheça influenciadoras tradwives
    Conheça influenciadoras tradwives — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Longe das fofocas digitais, é preciso atenção redobrada na leitura de "Bons Tempos". A protagonista Natalie Heller Mills é uma mãe dedicada, cristã fervorosa e dona de casa que decide transformar sua rotina em conteúdo. Começa postando algumas fotos despretensiosas, depois receitas caseiras, mas, ao viralizar, enxerga ali uma possibilidade de negócio.

    Com as montanhas do estado de Idaho de pano de fundo, em uma fazenda equipada para colheita e para criação de animais, ela tem todas as ferramentas para tomar rédeas da narrativa de sua vida —que teve percalços familiares como um pai ausente, nenhuma amizade feminina e a constante necessidade de se provar perante a Deus e a si própria.

    Sabemos, desde o começo, que tudo aquilo é um circo bem montado com o público aplaudindo (ou odiando) do outro lado da tela. Ela tem babás, uma cozinha equipada, uma produtora, advogados, agentes e o dinheiro herdado da família do marido.

    A americana Caro Claire Burke, autora do romance 'Bons Tempos' - Riley Haakon/Divulgação · Riley Haakon/Divulgação
    A americana Caro Claire Burke, autora do romance 'Bons Tempos' - Riley Haakon/Divulgação · Riley Haakon/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Os vestidos florais, a dinâmica com as crianças e até os ambientes da casa são milimetricamente pensados para causar desejo, curiosidade e inveja. Com isso, Natalie provoca as "mulheres raivosas", termo que usa para descrever as feministas chocadas com a imagem tradicional sendo repaginada como um desejo contemporâneo.

    Tudo isso para, um dia, a protagonista acordar em 1855 e sentir na pele os reais desafios desse ideal cristão —e as consequências da falta de liberdade.

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    Capa do livro 'Bons Tempos', de Caro Claire Burke, que sai pela Rocco - Divulgação · Divulgação
    Capa do livro 'Bons Tempos', de Caro Claire Burke, que sai pela Rocco - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Apesar de lembrar a premissa de "Kindred", de Octavia Butler , "Bons Tempos" passa longe do gênero da ficção científica e põe em seu cerne uma estrutura clássica de suspense psicológico.

    Intercalando seus capítulos entre diversas temporalidades —o passado em que Natalie cresceu, o presente e esse outro passado irreconhecível—, Burke levanta perguntas básicas sobre a narrativa ao passo que nos dá pistas da personalidade não confiável de sua narradora-protagonista. A escrita ácida e irônica ajuda o leitor a navegar um mar de descrição em detalhes, característico da literatura dos Estados Unidos.

    É na primeira metade do livro que assuntos mais relevantes são tratados com destreza. Ao acompanharmos a saída de Natalie da casa da mãe, também cristã, e sua entrada na universidade, somos confrontados com as hipocrisias do feminismo branco na mesma régua das dicotomias da criação cegamente religiosa.

    Mulher jovem de cabelos loiros ondulados e olhos verdes olha diretamente para a câmera. Ela veste uma camisa azul clara com listras brancas e está em ambiente interno com fundo desfocado.
    Mulher jovem de cabelos loiros ondulados e olhos verdes olha diretamente para a câmera. Ela veste uma camisa azul clara com listras brancas e está em ambiente interno com fundo desfocado. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quando a personagem conhece o futuro marido, Caleb Mills, as renúncias exigidas para seguir papéis sociais pré-determinados ficam em evidência. O casamento com um homem que ela mal conhece, o parto de seis filhos e a casa no bairro suburbano vão sufocando lentamente essa mulher ambiciosa, inteligente e à deriva.

    O bilhete de ouro, para ela, é pôr a família inteira no Rancho Yesteryear e vender aquela "realidade" como o auge do sucesso, mesmo que custe sua sanidade mental. Mas a tensão inicial vai se diluindo ao mostrar como a falta de arbítrio do passado esbarra na do presente.

    As ideias propostas no início perdem relevância à medida que os capítulos avançam e se encurtam, cavando no leitor a vontade de desvendar o "plot twist" da narrativa acima de qualquer aprofundamento dos inúmeros temas propostos pela autora —da "machosfera" e da maternidade compulsória ao senso de vigilância constante incutido nas mulheres.

    Montagem artística com o rosto de uma mulher jovem em perfil, sobreposto por uma paisagem rural com vacas pastando em campo verde sob céu azul. O título 'Bons tempos' aparece em amarelo vibrante na parte inferior, com o nome da autora Caro
    Montagem artística com o rosto de uma mulher jovem em perfil, sobreposto por uma paisagem rural com vacas pastando em campo verde sob céu azul. O título 'Bons tempos' aparece em amarelo vibrante na parte inferior, com o nome da autora Caro — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A metalinguagem narrativa, da personagem dentro da personagem, também deixa de fazer sentido nos capítulos finais, em uma resolução aquém da ousada proposta inicial da trama.

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    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/livro-best-seller-bons-tempos-cutuca-vespeiro-das-tradwives-modernas.shtml.

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