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    Liberdade é poder exercer sua própria linguagem, diz a cineasta Paz Encina

    Diretora paraguaia recebe troféu e comenta sessões na 20ª CineBH

    UOL
    21 de setembro de 2026 às 18:00
    Liberdade é poder exercer sua própria linguagem, diz a cineasta Paz Encina
    Foto: UOL

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    A cineasta paraguaia Paz Encina tinha apenas quatro anos quando começou a estudar violão clássico. Ela conta que sua primeira alfabetização se deu no campo da música.

    A cineasta Paz Encina, homenageada pela 20ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte
    A cineasta Paz Encina, homenageada pela 20ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Eu não era como as crianças de hoje, que aprendem as vogais e as escrevem muito rapidamente. As primeiras coisas que li e escrevi foram notas musicais", diz a diretora.

    Ao longo dos anos, essa formação foi responsável por imprimir uma estética particular à sua filmografia. Desde "Hamaca Paraguaya", de 2006, longa de estreia da diretora premiado na mostra Um Certo Olhar, do Festival de Cannes , a cineasta tem construído uma cinematografia em que perda, ausência e espera se materializam em narrativas minimalistas, marcadas pela coexistência de tempos e pela forte lida com a memória de seu país.

    "A música me deu a métrica e também o senso de ritmo. Mas, acima de tudo, o que ela me deu foi a possibilidade de começar a escrever meus roteiros a partir do som", ela afirma.

    Veja alguns filmes em exibição na programação competitiva da 20ª CineBH
    Veja alguns filmes em exibição na programação competitiva da 20ª CineBH — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Essa insubmissão aos formatos motiva a homenagem que Encina recebe, nesta terça (22), durante a 20ª Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte , a CineBH .

    Além de um troféu pela sua trajetória, a cineasta vai ministrar uma masterclass e participar de sessões comentadas de três dos seus filmes —"Hamaca Paraguaya", "Exercícios de Memória", de 2016, e "Carta a um Velho Mestre", de 2024.

    Para Cleber Eduardo, coordenador curatorial da CineBH, a homenagem a Encina está muito sintonizada com o tipo de cinema latino-americano que a mostra tem privilegiado nos últimos anos. O gesto também aponta para uma coincidência —o primeiro longa da diretora completa 20 anos no ano em que a mostra chega à sua 20ª edição.

    Filmes de Yasujiro Ozu
    Filmes de Yasujiro Ozu — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Ela é uma cineasta que faz filmes que realmente precisa fazer, o que tem muito a ver com nossa perspectiva de América Latina", ele diz.

    "Os filmes estão neles [nesses cineastas], e eles estão em busca de uma forma para fazer esses filmes. Não estão apenas atrás de ideias [do que filmar]", afirma, reforçando que essa inventividade acompanha certa recusa ao que já circula nos principais festivais pelo mundo.

    O primeiro longa de Encina, "Hamaca Paraguaya", rompeu um hiato de quase 30 anos da produção de longas no seu país . Na obra, um casal de fazendeiros espera o retorno do filho, que partiu para a Guerra do Chaco —contra a Bolívia, em 1935.

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    O filme é constituído de longos planos fixos , que observam as dinâmicas de trabalho e descanso do casal quase sempre à distância, em cenas permeadas pela fantasmagoria de diálogos que se referem tanto ao tempo vivido quanto ao tempo sonhado.

    Encina diz que essa liberdade no trato com a forma também está diretamente relacionada ao contexto em que passou toda a sua infância e adolescência. Para ela, que nasceu em 1971, em meio às mais de três décadas da ditadura do paraguaio Alfredo Stroessner , o campo das imagens e sons tornou-se uma espécie de refúgio diante de um ambiente de repressão e violações dos direitos humanos .

    "Para mim, a liberdade reside em poder exercer sua própria linguagem, sua própria maneira de ver e ouvir. Porque o cinema tem suas limitações, suas próprias ditaduras e sistemas de controle", diz a cineasta.

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    A estratégia é também o ponto de partida de seu segundo longa-metragem, "Exercícios de Memória". O filme endereça uma discussão à história de seu país natal ao evocar as lembranças dos filhos de Augustín Goiburú, opositor político do regime de Stroessner que desapareceu em 1976 .

    "A memória é algo fundamental porque, para mim, é o que mais se aproxima da esperança", ela afirma. "Acho que construir uma memória coletiva em relação a isso, o que vivemos, o que podemos mudar e o que podemos construir, me dá uma pequena sensação de que algo é possível."

    Formada em comunicação no seu país de origem e em direção cinematográfica pela Universidad del Cine, em Buenos Aires , Encina diz que encontrou inspiração para manter-se fiel à própria linguagem quando conheceu a filmografia do cineasta japonês Yasujiro Ozu , cujas características de duração das cenas e enquadramento de câmera —por vezes disposta na altura do tatame, por exemplo— fizeram-no ser conhecido como o "poeta da rotina" ,

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Saber que ele conformou sua própria gramática me fez sentir que eu também poderia criar a minha. E minha gramática não tem nada a ver com essa duração das coisas [do cinema hegemônico]", ela diz. "Eu não me reconheço nisso."

    Crítica à dinâmica do tempo hoje, marcado pela lógica da aceleração e da produtividade, Encina prefere fazer dos seus filmes um ambiente de contemplação. "A espera, a ausência e a perda são três instâncias que, para serem vividas, precisam de tempo", ela explica. "A espera, o luto e a cura levam tempo. E o que eu quero não é apenas viver esse tempo, mas também doá-lo."

    A 20ª CineBH será realizada desta terça (22) até 27 de setembro na capital mineira, e exibe 102 filmes distribuídos em sessões competitivas, temáticas e históricas. A programação é gratuita e ocorre em paralelo ao 17º Brasil CineMundi - Encontro Internacional de Coprodução, voltado ao mercado audiovisual.

    Neste ano, a mostra ainda homenageia a escritora Conceição Evaristo , que faz sua estreia como atriz em "Se Eu Fosse Vivo... Vivia", longa de abertura do evento. O filme dirigido por André Novais Oliveira venceu, neste sábado (19), o Candango de melhor longa-metragem do Festival de Brasília .

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/liberdade-e-poder-exercer-sua-propria-linguagem-diz-a-cineasta-paz-encina.shtml.

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    A cineasta Paz Encina, homenageada pela 20ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte — Foto: UOL

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