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    Lei Maria da Penha: especialistas apontam rotas para romper ciclo de abusos

    Especialistas e operadores do direito defendem que o fim do ciclo de violência exige caminhos estruturais para a autonomia das vítimas

    CNN Brasil
    7 de agosto de 2026 às 23:10
    Lei Maria da Penha: especialistas apontam rotas para romper ciclo de abusos
    Foto: CNN Brasil

    Duas décadas após a sanção da Lei Maria da Penha, o Brasil ainda enfrenta o desafio de conter a violência de gênero e os altos índices de feminicídio. Para especialistas e operadores do Direito, a repressão e a punição criminal do agressor são fundamentais , mas insuficientes de forma isolada.

    O fim do ciclo de violência exige a construção de caminhos estruturais para que a vítima consiga, de fato, se reerguer e não retorne ao ambiente abusivo.

    Em entrevista à CNN Brasil, Juliana Gentil Tocunduva , promotora de Justiça do MPSP (Ministério Público de São Paulo), alerta que a violência doméstica raramente começa com uma agressão física grave. Para ela, o feminicídio costuma ser o capítulo final de um processo de controle e isolamento que vai escalonando ao longo do tempo

    Violência contra a mulher, imagem ilustrativa • kieferpix/GettyImages · • kieferpix/GettyImages
    Violência contra a mulher, imagem ilustrativa • kieferpix/GettyImages · • kieferpix/GettyImages — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    As relações abusivas começam de uma maneira muito sutil. Muitas vezes essa violência é confundida com benquerer, com ciúme, com amor.

    A promotora pontua que proibições disfarçadas e o monitoramento excessivo já são violações sérias, e resume o limite de uma relação saudável: “Tudo aquilo que não te traz conforto é violento” .

    Essa escalada invisível fez parte da rotina da delegada Amanda Souza , sobrevivente de violência vicária — quando o agressor atinge os filhos para causar sofrimento extremo à mulher.

    20 anos depois, o desafio da Lei Maria da Penha é outro
    20 anos depois, o desafio da Lei Maria da Penha é outro — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Ela dividiu a vida com o marido por 20 anos sob constante violência psicológica, sem nunca ter sofrido agressão física.

    Quando Amanda conquistou independência e pôs fim ao casamento, o ex-marido assassinou os dois filhos do casal, de 9 e 12 anos, para puni-la.

    “Muitas vezes, basta um único episódio. Eu vivi, por 20 anos, uma relação em que nunca sofri violência física… E bastou um único dia de violência para que hoje meus filhos não estivessem mais aqui”, desabafa a delegada.

    A violência urbana diminuiu. A doméstica, não
    A violência urbana diminuiu. A doméstica, não — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    A advogada Gabriela Manssur , presidente do Instituto Justiça de Saia e ex-promotora de Justiça, afirma que o endurecimento penal, sozinho, não salva a vítima. Para conseguir sair do ciclo, Manssur aponta que a mulher precisa de três fatores essenciais.

    Dinheiro na mão. Apoio psicológico. E uma rede de apoio familiar e social.

    Sem independência financeira ou saúde mental estruturada, a vulnerabilidade atrai a mulher de volta ao abusador, aponta ela.

    20 anos depois, o desafio da Lei Maria da Penha é outro
    20 anos depois, o desafio da Lei Maria da Penha é outro — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Durante a pandemia, Manssur idealizou o projeto Justiceiras, que fornece apoio jurídico, psicológico, socioassistencial e encaminhamento para o mercado de trabalho, o projeto atendeu mais de 23 mil vítimas.

    Segundo a ex-promotora, nenhuma das mulheres assistidas pela rede sofreu feminicídio.

    A reconstrução de vida, porém, precisa de segurança imediata. É aí que atuam as MPU (Medidas Protetivas de Urgência).

    A violência urbana diminuiu. A doméstica, não
    A violência urbana diminuiu. A doméstica, não — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Veja: Brasil registra recorde de medidas protetivas nos 20 anos da Maria da Penha

    Em entrevista à CNN , a procuradora de Justiça Criminal do MPSP Nathalie Malveiro , utiliza uma analogia para ilustrar a importância da ordem de afastamento: “A medida protetiva funciona como um copo de água fria numa panela de água fervendo”.

    Malveiro rebate o descrédito jogado sobre a lei quando casos de descumprimento ganham os noticiários. Ela destaca que a maioria dos casos de feminicídio em São Paulo ocorreram com mulheres que não tinham nenhuma medida protetiva ativa.

    Brasil registra recorde de medidas protetivas nos 20 anos da Maria da Penha | CNN NOVO DIA
    Brasil registra recorde de medidas protetivas nos 20 anos da Maria da Penha | CNN NOVO DIA — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Para a procuradora, uma ordem judicial impõe um freio institucional na grande maioria dos homens.

    A eficácia dessa medida é garantida por meio da fiscalização ativa, a exemplo do Programa Guardiã Maria da Penha , executado pela GCM (Guarda Civil Metropolitana) da cidade de São Paulo.

    A comandante Mary Roseane de Souza explica que o programa realiza visitas domiciliares e disponibiliza um aplicativo de emergência no celular da vítima.

    “Nosso trabalho é fazer um acolhimento humanizado para que ela não tenha mais vontade de voltar para o agressor. Nenhuma mulher vai estar sozinha com a gente”, pontua a comandante.

    Brasil registra recorde de medidas protetivas nos 20 anos da Maria da Penha | CNN NOVO DIA

    Uma sobrevivente atendida pela patrulha descreve o alívio que sentiu ao receber suporte legal e escolta. “Eu não tinha ideia do quanto a medida protetiva poderia me ajudar”, afirma.

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    A vítima relata que seu agressor ficou com medo e não se aproximou mais. Ela ainda reforça que as mulheres não estão sozinhas, mas que têm uma rede de apoio disponível.

    Não basta a reprovação criminal. Muitas vezes essa mulher viveu anos de violência.

    Juliana Tocunduva reforça que é a integração entre Justiça, proteção policial, psicoterapia e geração de renda que, de fato, liberta a mulher de seu agressor.

    Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/lei-maria-da-penha-especialistas-apontam-rotas-para-romper-ciclo-de-abusos/.

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    Violência contra a mulher, imagem ilustrativa • kieferpix/GettyImages · • kieferpix/GettyImages — Foto: CNN Brasil

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