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    Lee Chang-dong volta a Veneza com longa feito sob medida para a louvação

    O cineasta sul-coreano Lee Chang-dong é um dos grandes queridinhos do chamado " cinema de arte" revelados no século 21, mas desde que ganhou o prêmio da crítica no Festival de Cannes pelo celebrado "Em Chamas", em 2018 , não lançava filme nenhum. No domingo, finalmente matou a saudade dos entusiastas de seu cinema ambíguo, lento e cheio de conotações políticas e existenciais, com "Possible Love", exibido em competição no Festival de Veneza . Leia mais (09/06/2026 - 17h15)

    Folha de S.Paulo
    6 de setembro de 2026 às 20:15
    Lee Chang-dong volta a Veneza com longa feito sob medida para a louvação
    Homem de meia-idade com cabelo preto e liso veste smoking preto com camisa branca e gravata borboleta preta. Fundo desfocado com árvores e luz natural indicam ambiente externo. — Foto: Folha de S.Paulo

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    O cineasta sul-coreano Lee Chang-dong é um dos grandes queridinhos do chamado " cinema de arte" revelados no século 21, mas desde que ganhou o prêmio da crítica no Festival de Cannes pelo celebrado "Em Chamas", em 2018 , não lançava filme nenhum. No domingo, finalmente matou a saudade dos entusiastas de seu cinema ambíguo, lento e cheio de conotações políticas e existenciais, com "Possible Love", exibido em competição no Festival de Veneza .

    O diretor sul-coreano Lee Chang-dong antes da exibição do seu filme 'Possible Love' no Festival de Veneza, neste domingo (6) - Yara Nardi/Reuters · Yara Nardi/Reuters
    O diretor sul-coreano Lee Chang-dong antes da exibição do seu filme 'Possible Love' no Festival de Veneza, neste domingo (6) - Yara Nardi/Reuters · Yara Nardi/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O longa nasceu parte de um projeto internacional que busca celebrar o "Decálogo", série de filmes lançada no fim dos anos 1980 pelo polonês Krzysztof Kieslowski , adaptando os Dez Mandamentos da Bíblia. A proposta é que cada um entre dez diretores de destaque atualmente use um mandamento para servir de mote para um filme —o primeiro foi o iraniano Asghar Farhadi , que apresentou em Cannes "Parallel Tales" , muito mal recebido pela crítica.

    Desde que a Netflix entrou como produtora, o filme ganhou pernas próprias, mas a matriz bíblica permanece. Partindo do mandamento "Não cobiçarás coisas alheias", Lee tece uma história que entrelaça a vida de dois casais de classes sociais bem distintas. Vemos Ye-ji, uma diretora de documentários abastada, casada com o atlético Sang-woo, bem-sucedido homem de negócios —a cineasta descobre que uma grande empresa na Coreia do Sul demitiu um mar de trabalhadores. Entre eles Ho-seok, que passou a exagerar na bebida após o desemprego, o que obriga sua mulher, Mi-ok, a ter que sustentar a casa e tentar consolar o marido.

    A documentarista começa a gravar depoimentos de Mi-ok, que fala sobre a dificuldade da vida do casal e tenta convencer o marido a também conversar com ela. Depois de muita insistência, Ho-seok aceita ir passar um fim de semana em uma casa de praia com a mulher e o casal burguês. Ali, depois de ganhar a confiança do desempregado, a cineasta consegue fazê-lo falar: ele relata catarticamente seus dramas, e enquanto esperam os depoimentos serem registrados, seus respectivos esposos percebem que, entre eles, há uma inesperada atração sexual.

    Veja imagens de filmes que competem no Festival de Veneza de 2026
    Veja imagens de filmes que competem no Festival de Veneza de 2026 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O filme é notável em estabelecer complexas relações de poder e atração mútua (e também repulsa) entre os personagens. Lee é um cineasta de extraordinária perspicácia, que investe no acúmulo de elementos que tornam sua obra mais vaga, reproduzindo na tela as ambiguidades da vida, contrapondo-o aos diretores que querem impor sua visão a qualquer custo.

    "Possible Love" mescla análise sociológica com crise existencial, em um filme que dura quase três horas. É um trabalho fabuloso, e como não seria? Afinal, o cineasta é especialista em gabaritar o rol de expectativas de uma crítica de cinema mais intelectualizada sobre um filme: trabalha duro, milimetricamente, para que nada falte ali. Ou quase nada: apesar de causar admiração por merecimento e fazer uma obra quase inatacável, seu filme não tem uma gota de espontaneidade. É feito sob medida para a louvação.

    Outro filme com grandes chances de prêmios, o dinamarquês "Woman Unknown" já era notícia antes mesmo da exibição no domingo, já que era a única obra dirigida por uma mulher, May el-Toukhy, participando da disputa do Leão de Ouro —embora, de última hora, Veneza também tenha incluído Rachel Szor, que codirige com Yuval Abraham o longa "Naza".

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O filme conta a história de uma empregada doméstica de um industrial dinamarquês, logo depois do fim da Segunda Guerra. Viúvo, ele decide se casar com a moça, mas um rapaz nascido na mesma cidade que ela aparece e ameaça o matrimônio. Afinal, ela teve um romance com um invasor alemão quando a Dinamarca foi ocupada por nazistas, e logo depois da guerra, mulheres que tinham se relacionado com o inimigo tornavam-se párias, com direito a linchamento em praça pública.

    A diretora mostra essa história com pulso firme, realçando a brilhante performance de Mathilde Arcel e destacando a hipocrisia masculina de sempre: as mulheres que se envolveram com os nazistas eram punidas, mas homens que negociavam com eles passavam incólumes pelo tribunal moral posterior ao conflito.

    Ainda na competição, "The Echo Chamber", do italiano Andrea Pallaoro , teve as reações mais negativas do festival até o momento. É a arrastadíssima história de um músico, vivido por Luca Marinelli, em crise profissional e existencial, que busca reduzir seu vício em drogas e remédios no trabalho com uma cantora veterana, interpretada por Susan Sarandon. Ele conta também com a ajuda de uma enfermeira, vivida por Alicia Vikander, que tenta aplacar a depressão do namorado.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Praticamente nada dá certo nessa produção italiana falada em inglês, e o ritmo moroso, os silêncios que se pretendem "eloquentes" e a falta de definição sobre do que se trata realmente a trama tornam a experiência na sala escura um bocado martirizante. Ao encerramento da projeção para a imprensa, ouviram-se gargalhadas —de zombaria, pela presunção da obra, mas sobretudo de alívio, pelo fim da sessão.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/lee-chang-dong-volta-a-veneza-com-longa-feito-sob-medida-para-a-louvacao.shtml.

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    O diretor sul-coreano Lee Chang-dong antes da exibição do seu filme 'Possible Love' no Festival de Veneza, neste domingo (6) - Yara Nardi/Reuters · Yara Nardi/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

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