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    Largo São Francisco: USP e prefeitura firmam acordo para revitalização

    Acordo visa elaborar soluções para requalificação do espaço público, patrimônio histórico e mobilidade na região do Largo São Francisco

    Metrópoles
    13 de agosto de 2026 às 14:45
    Largo São Francisco: USP e prefeitura firmam acordo para revitalização
    Foto: Metrópoles

    A Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e a Fundação Arcadas firmaram um acordo com a Prefeitura de São Paulo para o desenvolvimento de estudos e projetos de revitalização do Largo São Francisco e de seu entorno , no centro da capital paulista .

    Com investimento inicial estimado em R$ 1 milhão em recursos privados , o projeto prevê a elaboração de soluções para ampliar e qualificar os espaços destinados aos pedestres, melhorar as travessias, garantir acessibilidade universal, reorganizar a circulação viária e criar novas áreas de permanência e convivência.

    Também serão desenvolvidas propostas de paisagismo, arborização, drenagem sustentável, iluminação, pavimentação, mobiliário urbano e valorização do patrimônio histórico e cultural da região.

    Divulgação/São Paulo Urbanismo
    Divulgação/São Paulo Urbanismo — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    O perímetro do projeto abrange o Largo São Francisco e trechos das ruas José Bonifácio, São Francisco, do Ouvidor, Benjamin Constant, Senador Feijó, Cristóvão Colombo e Riachuelo, além de trecho da Avenida Brigadeiro Luís Antônio. O prazo previsto para a execução dos trabalhos é de 180 dias, contados a partir da emissão da ordem de início pela São Paulo Urbanismo , que deverá ocorrer em até 30 dias após a assinatura do acordo.

    Segundo a SP Urbanismo, empresa pública da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento e da Secretaria Municipal das Subprefeituras , as intervenções vão considerar as conexões do Largo com a Praça da Sé, o Vale do Anhangabaú, a Praça da Bandeira, o Terminal Bandeira e as estações Sé e Anhangabaú do Metrô, tratando a área como parte de um sistema integrado de espaços públicos e deslocamentos no Centro .

    A parceria tem origem na Manifestação de Interesse Social apresentada pela Faculdade de Direito da USP e pela Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito, que propuseram à Prefeitura a requalificação do Largo São Francisco. Após a realização de consulta e audiência pública, foi promovido chamamento público para seleção da parceria, que resultou na escolha do consórcio responsável pela elaboração dos estudos e projetos.

    Imagem colorida de projeto de requalificação do Largo São Francisco - Metrópoles
    Imagem colorida de projeto de requalificação do Largo São Francisco - Metrópoles — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    As entregas serão realizadas por etapas e passarão por acompanhamento, avaliação e aprovação técnica da SP Urbanismo.

    O Largo São Francisco é um dos espaços mais antigos e representativos do Centro Histórico de São Paulo. Situado em um dos vértices do chamado Triângulo Histórico , formou-se ao redor do conjunto religioso franciscano, composto pelo convento e pelas igrejas de São Francisco de Assis e das Chagas do Seráfico Pai São Francisco.

    No início do século XIX, a abertura do antigo quintal dos frades ajudou a transformar a área em um espaço público integrado à rotina paulistana. Pouco depois, em 1827, a criação do curso jurídico de São Paulo — um dos dois primeiros do Brasil e origem da atual Faculdade de Direito da USP — conferiu ao largo projeção nacional.

    Largo São Francisco: USP e prefeitura firmam acordo para revitalização - destaque galeria
    Largo São Francisco: USP e prefeitura firmam acordo para revitalização - destaque galeria — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    O espaço também já foi palco de manifestações estudantis, movimentos cívicos e debates em defesa da democracia. Com o crescimento de São Paulo, o Largo acompanhou diferentes etapas da transformação urbana do Centro, como a chegada dos bondes, a pavimentação das vias e a expansão do tráfego de veículos.

    Conforme mostrado pelo Metrópoles , membros do movimento negro e pesquisadores que estudam a região acreditam que obra de requalificação no Largo São Francisco pode ser uma oportunidade para resgatar a relação histórica do endereço com a população negra da capital paulista .

    Assim como seu bairro vizinho, a Liberdade, o Largo São Francisco foi testemunha da resistência da população negra escravizada em São Paulo. Uma história que foi parar, inclusive, em versos escritos pelo advogado abolicionista Luiz Gama.

    Largo São Francisco: USP e prefeitura firmam acordo para revitalização - imagem 2
    Largo São Francisco: USP e prefeitura firmam acordo para revitalização - imagem 2 — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Em 1859, ele publicou o poema “Cemitério de São Benedito”, falando de um lugar onde o “escravo sucumbiu, livre nascendo!”.

    Em lugubre recinto escuro e frio, Onde reina o silêncio aos mortos dado, Entre quatro paredes descoradas, Que o caprichoso luxo não adorna, Jaz de terra coberto humano corpo, Que escravo sucumbiu, livre nascendo! Das horridas cadeias desprendido, Que só forjam sacrilegos tyrannos, Dorme o somno feliz da eternidade

    O Cemitério de São Benedito, que dá nome ao poema, foi criado para enterrar escravizados e ex-escravizados que faziam parte da Irmandade de São Benedito, uma espécie de associação católica de negros com forte atuação no Largo São Francisco entre os séculos 18 e 20.

    Largo São Francisco: USP e prefeitura firmam acordo para revitalização - imagem 3
    Largo São Francisco: USP e prefeitura firmam acordo para revitalização - imagem 3 — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Doutor em história pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o frei Alvaci Mendes conta que, na época em que a Irmandade de São Benedito nasceu, os sepultamentos em São Paulo eram feitos nos terrenos das igrejas, levando em consideração o poder aquisitivo e status social dos fiéis.

    “Dentro da igreja, só eram enterrados aqueles que tinham condição de pagar por aquela cova, as pessoas mais ricas. As pessoas mais pobres eram enterradas da porta da igreja para fora. Isso inclui os escravizados e, é muito provável, inclui os da Irmandade de São Benedito, que trabalhavam de escravizados para o Convento de São Francisco”. O convento citado por ele ficava no terreno onde hoje está a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). No início do século 19, a irmandade de São Benedito criou, então, um lugar próprio para sepultar seus “associados”: o Cemitério São Benedito. Pesquisas feitas pelo frei Alvaci, que conta a história da irmandade no livro Um Preto no Altar, indicam que o cemitério ficava nos fundos da Igreja de São Francisco, onde agora está o prédio do Serviço Franciscano de Solidariedade (SEFRAS), que realiza trabalhos sociais com a população em situação de rua.

    Apesar disso, quem passa hoje em dia pela Rua Riachuelo, na frente do ex-cemitério, ou cruza o Largo São Francisco, não encontra referências a essas memórias. Ou às histórias de que a irmandade juntava o dinheiro para comprar a alforria dos associados. Ou, ainda, à informação de que foram os negros que cuidaram da Igreja de São Francisco, depois que os frades franciscanos saíram de São Paulo – e olha que a irmandade passou quase um século à frente da igreja e colocou um santo negro, São Benedito, em seu altar.

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    Largo São Francisco: USP e prefeitura firmam acordo para revitalização - imagem 4 — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    A notícia de que a Prefeitura de São Paulo planeja uma obra para o local acendeu, por isso, um alerta entre aqueles que conhecem a história da região e que agora fazem uma cobrança: a de que essa memória seja resgatada e ganhe lugar de destaque.

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    Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/sao-paulo/largo-sao-francisco-requalificacao.

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