Lama política e unção religiosa beneficiam sujeiras bolsonaristas
A corrupção pode oferecer ao político uma proteção peculiar: a companhia de outros escândalos. Uma denúncia isolada costuma exigir alguma explicação. Porém, cercada por dezenas de notícias semelhantes, corre o risco de virar apenas mais uma. O excesso de informação pode produzir o efeito que a falta dela sempre proporcionou: reduzir a capacidade de cobrar. Leia mais (10/03/2026 - 11h00)

Ciclista, duas vezes vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico e doutor em economia pela USP. Coordenador no Insper, foi visiting scholar em Columbia, Stanford e Oxford
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A corrupção pode oferecer ao político uma proteção peculiar: a companhia de outros escândalos. Uma denúncia isolada costuma exigir alguma explicação. Porém, cercada por dezenas de notícias semelhantes, corre o risco de virar apenas mais uma. O excesso de informação pode produzir o efeito que a falta dela sempre proporcionou: reduzir a capacidade de cobrar.
Essa é uma hipótese para compreender um paradoxo da eleição brasileira. A indignação com a política acabou favorecendo Flávio Bolsonaro , mesmo diante da série de questões que ele precisa esclarecer.
A lama, em vez de afundar sua candidatura, de certa forma ajudou a sustentá-la.

Um dos mecanismos começa com algo banal: informar-se custa tempo. Para acompanhar uma investigação, o eleitor precisa distinguir suspeitas de provas e entender o estágio do processo. Precisa também avaliar explicações que frequentemente chegam embrulhadas em linguagem jurídica. Tudo isso compete com o trabalho e com as urgências diárias.
Diante de notícias sucessivas, surge um atalho: "Todos estão envolvidos". A frase oferece alívio intelectual. Dispensa a comparação entre condutas e transforma responsabilidades individuais em uma característica genérica da política. Então, cada nova denúncia passa a confirmar a conclusão anterior, sem necessariamente alterar a avaliação de quem aparece nela.
Porém, veja o quanto tal raciocínio é irônico, pois a crença de que todos são iguais beneficia especialmente quem teria mais a perder com uma comparação cuidadosa. Se qualquer diferença desaparece numa suspeita coletiva, o custo de um episódio grave pode acabar diluído no desgaste geral.
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Então, tem-se que o desejo de mudança se desprende da exigência de integridade. Para parte do eleitorado, mudar passa a significar retirar Lula . Assim, Flávio recebe, por sua posição na disputa, uma credencial de renovação que seu histórico não justifica. Além disso, um político que percebe pouca diferença entre esclarecer e desviar a conversa tem menos razões para prestar contas.
Assim, a oposição a Lula vira um certificado de qualidade emitido sem auditoria. O eleitor pode rejeitá-lo por vários motivos legítimos. Porém, é certo conceder imunidade ao Flávio?
O apoio de alguns pastores evangélicos acrescenta uma proteção religiosa a essa blindagem política. Ao apresentar Flávio como escolhido por Deus, esses líderes emprestam sua autoridade espiritual a um candidato que deveria responder por suas próprias condutas.
Note a contradição: como conciliar o rigor moral pregado aos fiéis com a indulgência oferecida ao aliado? Se o púlpito cobra dos outros o reconhecimento de seus pecados, por que a bênção ao candidato dispensaria explicações sobre seu passado?
A unção vinda do púlpito funciona como um selo que dispensa o exame da biografia. O fiel que confia em seu pastor tende a acolher a indicação sem conferir o histórico do indicado, e as suspeitas passam a soar como perseguição aos que defendem a fé. Então, cria-se um arranjo curioso em que um candidato cercado de episódios pouco cristãos recebe a bênção de quem prega honestidade.
Nesse altar, o pecado parece pesar menos que a conveniência política. E, no final, a fiscalização continua produzindo notícias, mas a punição eleitoral se torna menos provável.
O texto é uma homenagem à música "Jesus Cristo", interpretada por Maria Bethânia.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/michael-franca/2026/10/lama-politica-e-uncao-religiosa-beneficiam-sujeiras-bolsonaristas.shtml.

O candidato à Presidência e senador Flávio Bolsonaro (PL) durante campanha em São Paulo - Nelson Almeida - 29.set.26/AFP · Nelson Almeida - 29.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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